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Segunda-feira

10 de Agosto de 2020

Estudo aponta que quase metade das pessoas abandona a dieta

Segundo a pesquisa, entrevistados afirmam que contar calorias e medir porções são as tarefas mais difíceis

“Já é final de semana e não vou me controlar. A dieta que fique para segunda-feira”. Quantas vezes já ouvimos essa frase de pessoas que estão fora de peso e desejam mudar sua estética? O problema, segundo especialistas, está justamente na falta de convicção da mudança de hábitos e no excesso de restrições que desestimula a continuidade do plano. Um estudo realizado pelo especialista em Nutrição Otimizada Rodrigo Polesso aponta que 47% de 2.800 pessoas avaliadas, sendo 83% mulheres, pararam de seguir as recomendações de dieta no meio do caminho. A dificuldade em vencer o efeito sanfona foi a justificativa de 25% dos participantes do grupo, enquanto outros 22% disseram que contar calorias e medir porções é o mais difícil e não querem fazer isso para sempre. E é justamente contra essas duas reclamações que Polesso diz lutar. A proposta dele, que estuda os hábitos alimentares e o papel dos alimentos em nosso organismo, é pôr um fim a dietas e restrições. “(A palavra) regime parece trazer uma carga emocional negativa, como 'regime de privação'. Eu prefiro 'estilo de vida alimentar', porque inspira liberdade e prazer. Acredito que precisamos fazer as pazes com nossa alimentação e quebrar essa relação de amor, ódio e tensão que muitos construíram”. 
Alimentação forte conta com gorduras naturais, proteínas e carboidratos complexos. Foto: Shutterstock

De acordo com o especialista, suas pesquisas e trabalhos começaram após algumas experiências pessoais, sem sucesso, com dietas e programas de exercícios. “Meu objetivo era descobrir os reais mecanismos que possibilitam o fortalecimento da saúde, o emagrecimento e a manutenção natural da boa forma”. E ele garante ter chegado a um resultado satisfatório. Polesso aponta que é muito difícil seguir as orientações de “coma menos, corte gordura, corte calorias, corte sal”. “As sugestões são infundadas em ciência nutricional, ainda que as mais recomendadas”. Alimentação forte Para o especialista, o correto é dizer: “Coma o quanto quiser de carnes, peixes, legumes, folhas, gorduras boas, castanhas…, pois é algo embasado em conhecimento científico e gera resultados reais e também de longo prazo, além de ser muito mais prazeroso e fácil de se seguir”. As orientações de Polesso são voltadas ao que chama de “alimentação forte”, cujo foco é a qualidade, e não a quantidade de alimentos. “O processo se baseia na abundância, e não na restrição. Não existe contagem de calorias ou porções e hora para comer, pelo contrário, as pessoas se alimentam apenas quando têm fome e até se sentirem saciadas, sem quantidade pré-definida”. Mas, fica a pergunta: em que consiste uma alimentação forte? “Ela é mais generosa em gorduras naturais, as gorduras boas, correta em proteínas de alto valor biológico e mais otimizada em carboidratos”, afirma. O que não posso comer? Polesso ressalta que não existem alimentos proibidos, mas chama de “substâncias comestíveis” justamente aquilo que é refinado, processado e modificado, como açucares, pães, massas, grãos, sobremesas e óleos vegetais. Portanto, de acordo com ele, ao se priorizar alimentos como carnes, peixes, folhas, legumes, manteiga, azeite de oliva, óleo de coco, nozes, castanhas e queijos, por exemplo, a pessoa regulariza o sistema hormonal e o metabolismo. “Como consequência, atinge um emagrecimento natural e permanente”. Esqueça a tabela nutricional Ficar de olho na tabela nutricional não deve ser algo rotineiro, segundo o especialista. “Não faz tanto sentido, por exemplo, se formos comer bife ou brócolis. Na ciência, vemos claramente que o foco no controle calórico é o método mais difícil e frustrante de se emagrecer e o pior é que quem emagrece assim dificilmente consegue manter o peso por longo tempo”. Ele garante que uma alimentação forte vai gerar “menos gula por alimentos não saudáveis”, simplesmente porque seu corpo está nutrido e livre de vícios alimentares. “Além disso, com o estilo de vida alimentar (bem definido), não há problema 'pisar na bola' de vez em quando, afinal, somos humanos e não robôs”. 

Nutrólogo orienta que pessoas façam de 30 minutos a uma hora de atividade física por dia 

"Atividade física é fundamental"

O nutrólogo e presidente da Regional de São Paulo da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) Valter Makoto Nakagawa aponta que o hábito da alimentação saudável, aliado à atividade física, é fundamental para evitar a obesidade.  “Pode-se comer de tudo um pouco e dar liberdade às pessoas, mas elas devem ter consciência (do que estão comendo)”. A única ressalva feita pelo médico é para aqueles que têm restrições alimentares devido a doenças. E também observa a importância de não comer apenas quando sentir fome. “Ao deixar surgir a fome, você acaba comendo com os olhos. Se a pessoa optar por alimentos saudáveis e comer em espaços menores de tempo, a cada três horas, a vontade passa”. Makoto destaca que, para a prática de atividades físicas, não é necessário entrar em uma academia. ''Quem não faz atividade acaba somente armazenando (calorias). A modernidade de hoje faz com que as pessoas se movimentem menos e o organismo se acostuma com essa rotina que impacta no índice de obesidade global”, diz.  A orientação do médico é simples: “Atividade física é fundamental. Parar o carro mais distante do trabalho e aumentar a caminhada, optar pela escada em vez do elevador, são coisas que ajudam nessa mudança, mas o ideal é se movimentar entre 30 minutos e 1 hora. Dessa forma, será possível queimar calorias”.
O emocional e o inconsciente das pessoas podem pesar para uma alimentação menos saudável

Comer demais é psicológico

De acordo com Elaine Lopes, psicóloga especialista em Transtornos Alimentares e Obesidade e autora do blog Viva Leve, de A Tribuna On-line, comer demais pode, sim , estar ligado a questões psicológicas, mas, para isso, é preciso identificar a causa que leva cada indivíduo a descontar tudo na comida. “Precisamos saber o motivo pelo qual a pessoa come, se a fome não é física e biológica. Primeiro, devemos identificar os significados que a pessoa dá ao alimento. Por exemplo: tem gente que come para relaxar, fica feliz… Uma série de significados que não é a função da comida, que é nutrir”. Elaine aponta que muitos comem para suprir necessidades emocionais e que tomar consciência disso e entender os motivos que os levaram a isso é fundamental para dar um segundo passo em busca de hábitos saudáveis. “Gosto de usar um diário alimentar para que seja anotado o que se come e o que se sente quando come. O terceiro passo a ser dado é pensar antes de comer e refletir se tal ato vai te aproximar ou distanciar do objetivo”. Poder da mente A psicóloga explica que a mente é composta de consciente e inconsciente e, deste último, não temos controle. Ele representa a maior parte, como se fosse a área submersa de um iceberg. “Nosso inconsciente registra memórias que vamos reproduzindo em nossas vidas”, diz ela. É como seguir o que vivenciamos ou sofremos no passado. “Emagrecimento é uma decisão, e não somente deixar de comer. Em algum momento (no começo), pode ser preciso abrir mão de eventos sociais por ser tentador. Além disso, embora o objetivo seja perder peso, o foco tem que ser mudar o estilo de vida”. Tudo sobre: