Fúlvio Stefanini, um pai em duas fases da vida

Ator atua ao lado do filho na peça O Pai, que também o dirige

29/09/2017 - 10:38 - Atualizado em 29/09/2017 - 11:28

Pense em um cara bonachão (no melhor do adjetivo) que daria um excelente avô. Minha sugestão é Fúlvio Stefanini. A vida ainda não o permitiu vivenciar tal experiência, mas ele agrega todos os requisitos. 

Falante (vozeirão), bem-humorado, de tiradas ótimas (até mesmo sobre si) e de bem com a vida. Predicados que ele agradece perto de completar 78 anos. Curiosamente, a 12 de outubro. Ter nascido no Dia das Crianças talvez explique o contagiante comportamento. 

Sob os holofotes, o Fúlvio é engolido pelo personagem, tamanha a entrega como ator. É o que pode ser conferido neste fim de semana, no Teatro Coliseu, em O Pai, que traz à superfície a relação entre a filha e o pai idoso, que começa a perder a memória. Ele necessita de cuidados específicos. Ela, mesmo não querendo abandoná-lo, precisa viver a própria vida.

Ator utiliza intuição e técnica para criar personagens (Foto: João Caldas/Divulgação)

“Um presente. É como defino o personagem. Um excelente trabalho de equipe, desde os ensaios. Meu filho (Leandro) faz parte do elenco e dirige. Estabelecemos uma regra: profissionalismo. Misturar o emocional de personagem com o emocional da vida particular é receita de problema. Esse distanciamento trouxe o sucesso”.

O ator tem paixão pelo que faz – aprendeu no dia a dia, jamais fez cursos –, mas não a ponto de levar consigo o personagem. “O (falecido) Jardel Filho, excelente ator e amigo, fazia. Deve ter sido sofrido para ele. Não sei se era uma forma de segurança para dominar o personagem ou seu temperamento. Há atores famosos que fazem”.

Significa que Tonico Bastos (Gabriela/75), seu maior sucesso, está enterrado para sempre? (Risos) “Não recorro a ele ou outros para compor. Tonico foi emblemático. Eu estava à procura do que fazer, o Erik (maquiador) colocou a peruca e o bigodinho e o alisou com um pente minúsculo. Pedi emprestado, e ele me deu. Na gravação, sem avisar, fiz o mesmo gesto com aquela cara e todos caíram na risada. Pensei, é por aqui que eu vou”. 

O procedimento explica a forma de Fúlvio. Ele é um ator muito intuitivo. “Eu uso para criar o personagem. A técnica é a ferramenta para lhe dar veracidade. Não basta saber o que fazer, mas como fazer”.

Eu nasci assim, eu cresci assim...

Fúlvio não avalia a recente versão de Gabriela, portanto o Tonico Bastos de Marcelo Serrado. “A nossa novela era autêntica, fiel ao texto. Jorge Amado adorou. Pelas chamadas, a segunda virou uma grande produção. Parecia que uma tinha sido gravada na Bahia e a outra, em Hollywood. Não fiquei com vontade de assistir”.

Tonico Bastos, em Gabriela, seu maior sucesso na telinha (Foto: YouTube)

Para quem sente a falta de Fúlvio na telinha, há três anos e meio ele saiu da Globo. O contrato não foi renovado. Ele não poupa a emissora. Diz que é do jogo, e ele, uma vez, não quis continuar. A mágoa é com a forma. “Um e-mail ao meu agente. Não me chamaram pessoalmente. Foram mais de 25 anos. Houve falta de respeito e ética com o profissional e ser humano. No tempo do Boni e do Roberto Marinho jamais aconteceria assim”.

Outra queixa é que não há papéis para a terceira idade, mas minimiza. “A vida é assim. Os conflitos acontecem dos 25 aos 55 anos. O cara separa, namora outra, muda de emprego... A Globo, como fatura com a venda de produtos à sociedade, prefere protagonistas nessa faixa. Depois dos 55 o cara sossega”.

Em 1997, Fúlvio fez um dos personagens da montagem Caixa 2 (que veio a Santos), texto de Juca de Oliveira. Além de, digamos, visionário, tornou-se atemporal. Para o ator, o que estão fazendo com o Brasil é “sacanagem”. 

“Os políticos não têm nenhuma preocupação com o povo, com a vida e o salário do trabalhador. Só pensam neles. E ainda falam em dinheiro nosso para bancar campanhas? Canalhas (quem não for que não vista a carapuça). Temos que tirá-los do Congresso nas próximas eleições. E ainda há muita gente que tem que ir para a cadeia”.

Passada a fúria, o ator divide o seu segredo para a longevidade. “Não faço nada. Não tenho paciência para exercícios. Sou sedentário. No palco, há um esforço físico, mas tenho muito vigor natural. Por vezes, paro de comer algo, mas por conta própria. Bebo cerveja e uísque, mas pouco. Amo atuar. Amo ainda mais viver. Se meus filhos resolverem ter filhos, quando os netos vierem terei que ganhar mais fôlego”.

Sessões são neste sábado e domingo, respectivamente, às 21h e 20h, com ingressos de R$ 35,00 a R$ 90,00. Rua Amador Bueno, 237, Centro Histórico.

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