Teste indica tratamento ideal para doenças psiquiátricas

tecnologia de testagem aplicada ao DNA permite reconhecer o remédio mais adequado e eficaz para cada paciente

05/03/2018 - 13:15 - Atualizado em 05/03/2018 - 13:15

Psiquiatra Fernando José Calderan comenta
benefícios do teste (Foto:Luigi Bongiovanni/AT)

Pacientes cujos tratamentos psiquiátricos são inócuos ou causam muitas reações adversas ganharam uma nova opção para sofrer menos: o teste farmacogenético. 

O procedimento passou a ser mais procurado desde o dia 31 de janeiro, quando o jornalista Jorge Pontual, correspondente internacional da Rede Globo, revelou em uma reportagem que sofre de depressão há 40 anos mas que, só recentemente, descobriu ter tomado o remédio errado por anos.

A tecnologia, que passou a ser desenvolvida e comercializada no Brasil há menos de dois anos, reconhece, por meio do DNA, como cada pessoa metaboliza diferentes elementos químicos presentes nos medicamentos. O resultado indica, entre dezenas de marcas existentes no mercado, quais as melhores opções de remédio para cada indivíduo. Por enquanto, a utilização é para fármacos de tratamentos psiquiátricos. 

Para descobrir o melhor caminho de tratamento, Jorge Pontual fez o exame no exterior. Lá, o custo é de cerca de US$ 3 mil a US$ 4 mil – valor superior a R$ 11 mil.

No Brasil, poucas empresas são conhecidas por desenvolver a tecnologia. Entre elas, há a Genomic Engenharia Molecular, de São Paulo, e a GnTech, de Florianópolis (SC). Ambas realizam os procedimentos para pacientes de todo o País. 

Em uma é preciso procurar uma clínica associada para tirar uma amostra de sangue. A outra envia um kit ao cliente, para coleta de material celular das bochechas. O paciente só precisa esfregar uma espécie de cotonete no interior da boca, por dois minutos, e reenviar as amostras pelos Correios. Em ambos os casos o laudo é entregue para servir como apoio ao tratamento definido pelos médicos. 

Não há previsão de o teste, que custa entre R$ 1,8 mil e R$ 3.980,00, ser incorporado ao Sistema Único de Saúde (SUS), mas já há casos de reembolso pelos convênios médicos. 

Como funciona?

Martin Whittle, médico geneticista da Genomic, explica que “qualquer medicamento, em excesso, causa efeitos adversos. E o que regula isso é como cada indivíduo metaboliza o medicamento em questão”. 

Segundo ele, algumas pessoas absorvem essas drogas mais rápido – e precisariam de dose maior. Outras, fazem isso mais devagar. A genética e as enzimas que atuam no sistema metabólico são determinantes. 

Guido Boabaid May, psiquiatra, psicoterapeuta, CEO e fundador da GN Tech, que em 2011 esteve em um congresso no Havaí e trouxe os estudos para o Brasil, garante que os resultados tendem a ser cada dia mais precisos. 

“Vivemos pesquisando estudos científicos publicados diariamente. Hoje, analisamos 25 genes e 500 variantes associadas a 79 medicamentos, com informações de 4.754 estudos científicos sobre o assunto, escritos desde 1962 no mundo”, explica May. 

Estudos

De acordo com o pesquisador, os primeiros testes começaram a ser usados nos Estados Unidos por volta de 2008. Portanto, é uma tecnologia relativamente nova, mas que vem crescendo brutalmente. "Em 2003 havia no mundo 15 estudos publicados sobre farmacogenética. Em 2006, 44 e dez anos depois, em 2016, 244 artigos publicados só naquele ano. Este ano, só nos primeiros 45 dias, já são 25 novos estudos. Então, o volume de informação cresce a cada mês, o que torna os testes cada vez mais confiáveis e completos”.

Segundo o psiquiatra santista, Fernando José Calderan, da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, os médicos em geral ainda estão conhecendo a novidade. “Mas há a necessidade de todos correrem atrás de se atualizar, sim”, comenta. 

Um dos laboratórios mantém uma equipe à disposição dos médicos para auxiliá-los a compreender o laudo farmacogenético de cada paciente. 

Remédios que podem ser verificados 

Antidepressivos

Antipsicóticos

Analgésicos

Opioides

Ansiolíticos

Psicoestimulantes

Anticonvulsivantes

Estabilizadores de humor 

Quem pode se beneficiar

Pacientes que não sentem eficácia ou sofrem efeitos colaterais de medicamentos para:

Transtorno do Défict de Atenção e Hiperatividade (TDAH)

Transtorno bipolar

Transtornos de ansiedade

Síndrome do pânico

Transtorno de estresse pós-traumático

Esquizofrenia 

Insônia

Dor crônica

Alzheimer

Parkinson 

No futuro remédios serão desenvolvidos individulamente

Um dia será possível encomendar medicamento psiquiátrico individual em farmácias de manipulação. O avanço de estudos envolvendo testes farmacogenéticos poderá, em alguns anos, minimizar também o sofrimento causado pelos efeitos colaterais em pacientes com câncer.

Essa é a opinião de especialistas, como Fernando José Calderan, psiquiatra da Sociedade Brasileira de Psiquiatria, com consultório em Santos. Segundo ele, esses testes são “o futuro da psiquiatria”, até porque a genética já é estudada para diversos usos na Medicina. Mas, com o avanço, a tendência é que mais famílias de remédios sejam estudadas. “Inclusive os tratamentos contra o câncer”. 

Dosagem

Outra aposta é que, também num futuro próximo, seja possível fabricar medicamentos psiquiátricos de acordo com a necessidade de cada paciente. Hoje, isso é comum em outras áreas médicas, como no caso dos implantes hormonais.

Guido Boabaid May, psiquiatra e psicoterapeuta, CEO e fundador da GN Tech, empresa que desenvolve testes farmacogenéticos, concorda. “Individualizar um medicamento não é possível na Psiquiatria porque todos os remédios existentes só podem ser vendidos com prescrição médica e muito rigor. Todos são testados por anos. Mas, sim, talvez no futuro o próprio médico, a partir do exame genético, possa dosar o que cada paciente precisa”. 

É preciso pesar a necessidade

A Medicina ainda não trabalha com milagres e, apesar dos avanços da tecnologia, o psiquiatra Fernando José Calderan, explica que é prudente analisar a necessidade do teste para cada paciente a fim de evitar frustração e desperdício de recursos financeiros.

Na lista de prós e contras, o médico explica que, se por um lado não há contraindicação para o teste farmacogenético, por outro, é possível que a pessoa faça o investimento e descubra que o melhor remédio para seu tratamento é o que ela já usa ou que já tentou antes.

“Há muitos pacientes que precisam tomar o mesmo medicamento por anos ou a vida toda. E vão trocando. E apesar da lista de drogas analisada no teste ser extensa, há algumas mais antigas já quase não prescritas e muitos similares”, conta.

Imprevisíveis

Já no lado dos benefícios da nova tecnologia é preciso ter em mente também que, apesar de a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) exigir testes de eficácia antes de liberar a venda de qualquer medicamento, nos remédios psiquiátricos essa eficácia “é imprevisível”, diz Calderan. 

“O que faz muito efeito para um, pode não fazer nenhum para outro. É diferente de um remédio para hipertensão que, de qualquer maneira vai baixar a pressão da pessoa. Na Psiquiatria, a prescrição é mesmo por tentativa e erro. Com o teste, pode-se descobrir uma alternativa ainda não pensada ou inibir o erro antes de iniciar o tratamento”, conta o médico.

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