Fila da catarata tem mais de mil pessoas na Baixada Santista

Espera para recuperar visão na rede pública pode durar vários anos

28/12/2017 - 12:48 - Atualizado em 28/12/2017 - 14:34

Guiomar, de 75 anos, espera por uma operação para
o olho esquerdo desde 2015 (Foto: Irandy Ribas/AT)

Pelo menos 1.160 moradores da Baixada Santista esperam cirurgias de catarata na rede pública de saúde, em uma fila cuja vez pode demorar anos para chegar.

Moradora do Embaré, em Santos, a pensionista Guiomar Costa da Silva, de 75 anos, teve a indicação de operação nos dois olhos em 2015. O aposentado Reginaldo dos Santos Reis, de 53 anos, hoje morando no Parque Bitaru, em São Vicente, procurou a Policlínica da Pompeia, em Santos, no mesmo ano, foi a hospitais de São Paulo e ainda não conseguiu operar o olho esquerdo.

Eles procuraram a Reportagem depois da publicação da matéria sobre o drama da auxiliar administrativa Larissa Rodrigues de Aguiar, de 23 anos, que há sete meses aguarda de uma cirurgia e só obteve uma previsão de data para janeiro, após reportagem no último dia 12.

No caso de Guiomar, ela procurou a Santa Casa de Santos, chegou a fazer exames, teve de repeti-los um ano depois porque os resultados não valiam mais e continua à espera.

Reginaldo já até subiu a serra atrás de tratamento. “Voltar a enxergar direito é uma necessidade, não é estético. Não tenho condições de fazer no particular”, queixa-se.

O que fazer

Nas cidades, quem precisa de atendimento oftalmológico deve ir a uma unidade básica de saúde. Ali, será encaminhado a um local especializado.

Quatro municípios mandam os pacientes à rede estadual de saúde: Itanhaém, Mongaguá, Peruíbe e Praia Grande. Os Ambulatórios Médicos de Especialidades (AMEs) de Santos e Praia Grande são referências para esse procedimento.

Diagnóstico

Para o oftalmologista Fabrício Mourão Perino, sócio proprietário da Vista Oftalmologia & Laser, a fila na rede pública é provocada pela baixa prioridade dada à catarata entre as cirurgias eletivas, pela falta de dinheiro em meio à crise e pelo aumento do número de pessoas que migraram dos planos de saúde para o SUS.

“É muito melhor operar hoje do que esperar cinco anos ou dez anos, quando com certeza o tamanho será muito maior e a cirurgia se tornará mais delicada, podendo demandar maior tempo de recuperação. Com uma cirurgia mais complexa, consequentemente, são maiores as chances de precisar de mais procedimentos, consumindo mais dinheiro público”, obseva.

Em Santos

Santos é a cidade com maior número de pacientes aguardando cirurgia de catarata. São ao menos 900 pessoas, em uma espera média de seis meses, de acordo com a Secretaria Municipal de Saúde.

Para tentar reduzir a fila desse e de outros procedimentos, a Administração lançou, em fevereiro, o programa Meta 30, com o objetivo de providenciar a consulta especializada em 30 dias e a cirurgia em outros 30.

Em outubro, a Prefeitura passou a contar com os serviços da clínica Bolzan, instalado no Hospital Beneficência Portuguesa. Antes, a Santa Casa de Santos era a única habilitada para atender a demanda de oftalmologia, com 550 operações por mês, o que criou grande gargalo: a Cidade chegou a ter 1.500 pessoas na fila.

Segundo o secretário de Saúde de Santos, Fábio Ferraz, casos de emergência são atendidos em 30 dias, mas os demais costumam levar seis meses, em média. Ele espera que, com o contrato de 1.500 cirurgias com a Bolzan e as 550 mensais na Santa Casa, a fila seja zerada no ano que vem.

Sem organização


O diretor técnico da Santa Casa de Santos, Alex Gonçalves Macedo, conta que, desde 2016, o hospital oferece oftalmologia sob contrato com a Prefeitura. Até 2015, havia uma fila de espera da unidade e outra de pacientes encaminhados pela rede municipal.

Ele admite que, mesmo após o início do contrato, a Santa Casa vinha recebendo mais pacientes do que suportava. A situação melhorou quando a Secretaria de Saúde de Santos passou a regular a oferta de vagas. “A Prefeitura vai mandando para onde achar que tem que mandar”.

Ele acredita que, para combater a fila, é preciso que as cidades assumam os seus pacientes e façam mutirões.

Pacientes

A respeito de um dos pacientes citados no início desta reportagem, Reginaldo do Santos Reis, a Prefeitura de Santos informou que a policlínica da Pompeia/José Menino não conseguiu contatar o paciente porque o telefone foi dado como inexistente. A Secretaria de Saúde argumentou que, como o aposentado agora mora em São Vicente, não poderá mais atendê-lo.

A respeito de Guiomar Costa da Silva, o diretor-técnico da Santa Casa de Santos a orientou a registrar uma reclamação na Ouvidoria do hospital ou da Prefeitura.

“Nessa confusão de fila, de vai para lá e vem para cá de 2014 e 2015, alguns pacientes podem ter se perdido”, argumenta.

ONG Ajuda

A ONG Instituto Boa Visão e Saúde (Bovisa), de Praia Grande, oferece ajuda gratuita a quem precisa de cirurgia de catarata ou procedimentos para outras doenças nos olhos. É presidida por Marly Apolinário. Em relação à catarata, há três clínicas conveniadas em São Paulo, que fazem o serviço de graça para quem é encaminhado pela ONG, diz Marly. Pessoas de quaisquer cidades podem procurar assistência. A Bovisa fica na Rua Afonso Bovero, 1.145, na Cidade Ocian. Contato: 3495-2632.

Frequência

Principal causa de cegueira reversível, a catarata é a perda da transparência do cristalino, lente natural do olho. Como ocorre principalmente em idosos, a doença tende a se tornar cada vez mais frequente no Brasil, em decorrência do envelhecimento da população. De acordo com a última Pesquisa Nacional de Saúde do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2015, a catarata atinge 28,7% dos brasileiros com 60 anos ou mais.

Confira os serviços que cada cidade da região oferece:

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