Bombeiros anunciam fim do incêndio no terminal da Ultracargo

Operação durou mais de 192 horas. Episódio foi o maior em área industrial

10/04/2015 - 15:56 - Atualizado em 14/04/2015 - 21:05
Corpo de Bombeiros inicia rescaldo após fim do fogo

O Corpo de Bombeiros anunciou oficialmente nesta sexta-feira (10), em seu canal de comunicação via WhastApp, o fim do incêndio no terminal da Ultracargo, na Alemoa, em Santos. Apesar do comunicado ter sido feito às 15h33, segundo a corporação as chamas foram extintas às 10 horas desta sexta-feira. O anúncio também foi feito pela Prefeitura de Santos, em coletiva de imprensa.  

Segundo o Corpo de Bombeiros, a corporação permanecerá a postos e atenta, mantendo o resfriamento e contenção dos vazamentos. Ainda de acordo com os bombeiros, apesar da área ainda estar sendo monitorada, ela é considerada segura. 

Neste momento, a corporação está reorganizando todo o material utilizado no combate às chamas para verificar a possibilidade de liberação de uma pista do Retão da Alemoa.

Veja imagens do incêndio 

Em nota à imprensa, a Ultracargo informou que o incêndio foi controlado, restando apenas um pequeno foco em área ainda com atuação dos bombeiros. Os esforços estão concentrados neste momento na continuidade do processo de resfriamento dos tanques diretamente atingidos e do entorno.

Ainda no comunicado, a empresa informa que, ''desde o início das operações de combate ao incêndio, em adição aos 140 funcionários envolvidos localmente, a empresa deslocou ainda cerca de 45 técnicos especializados de todas as suas 6 bases de operações no país com o objetivo de contribuir com o Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e demais autoridades e órgãos reguladores envolvidos.

A Ultracargo ressaltou que uma empresa de consultoria especializada em gestão de crise e combate a incêndio, a Task, foi contratada no dia do início do evento e segue trabalhando em tempo integral em conjunto com a equipe de técnicos da Ultracargo e as autoridades que atuam na coordenação e resposta ao evento.

''Uma equipe de seis especialistas de Beaumont, Texas, da empresa Willians Fire & Hazard Control, também foi contratada para contribuir com os esforços no atendimento emergencial e contenção de vazamentos de combustível nos tanques danificados, para eliminação definitiva do fogo''.

Ao final, a empresa reforça que ''o terminal em Santos, bem como suas operações em outras localidades, sempre funcionaram com todas as licenças e autorizações necessárias. Suas operações obedecem todas as legislações, regulações e normas técnicas aplicáveis. A Ultracargo reitera o seu agradecimento às autoridades e empresas envolvidas na operação de combate''.

Maior incêndio da região industrial

Ao todo, foram mais de 197 horas de incêndio, que começou por volta das 10 horas do dia 2 de abril. O episódio foi considerado o maior em região industrial do País e o segundo maior do gênero da história mundial, em volume de pessoal empregado, combatido por bombeiros – 118 homens, ante 180 em decorrência de 2005, na Inglaterra. 

Desde o início do fogo, que não deixou vítimas, uma grande operação de combate às chamas começou na área do terminal da Ultracargo. Corpo de Bombeiros, Prefeitura, Defesa Civil, Marinha, Exército e Aeronáutica concentraram suas ações para apagar as imensas chamas vistas de várias cidades da Baixada Santista. 

Incêndio destruiu seis tanques de combustível na Alemoa 

Ao todo, foram atingidos seis tanques de combustível. Quatro ainda pegavam fogo quando, no último sábado (4), um gabinete de gestão de crise foi instalado no Paço Municipal para organizar as ações dos governos Federal e Estadual e da Prefeitura de Santos no combate ao incêndio. Na data, mesmo com a situação considerada controlada, um plano para possível evacuação, em caso de emergência, foi preparado pela Administração Municipal. 

A Reportagem chegou a apurar que, em dois bairros próximos à empresa Ultracargo (Piratininga e São Manoel), moradores chegaram a receber avisos oficiais, por telefone e visitas em suas casas como alertas para essa possibilidade. A retirada de moradores foi descartada pelo prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa, poucas horas depois. 

Mais reforço

Em decorrência do agravamento da situação, a presidente Dilma Rousseff determinou, na última segunda-feira (6) que a Infraero e a Força Aérea Brasileira (FAB) disponibilizassem pessoal e equipamentos para auxiliar o governo do Estado de São Paulo e a Prefeitura de Santos no combate ao incêndio, que na ocasião, atingia apenas dois tanques.  

Para enfrentar as chamas, bombeiros e brigadistas receberam reforço de dois rebocadores do Porto de Santos e duas embarcações, sendo uma delas concedidas pela Petrobras. Também foram enviados à região dois caminhões, um da Força Aérea Brasileira (FAB) e outro da Infraero. 

Dois rebocadores e duas embarcações auxiliaram no combate às chamas no terminal 

 

As ações de controle do fogo incluíram até mesmo a importação, dos Estados Unidos, de 500 mil litros de Líquido Gerador de Espuma (LGE), que ainda deverão chegar de uma só vez neste sábado (11) e de 4.500 litros de uma espuma especial chamada cold fire (fogo gelado, em português). 

No dia em que o incêndio atingia o sétimo dia, apesar das chamas terem diminuído consideravelmente e, apenas um tanque permanecer em chamas, ressurgiram dois vazamentos que atrasaram o término da operação de combate às chamas. Um deles encontrava-se na válvula próxima ao tanque e o outro no dique de contenção (barreira em volta dos tanques que detém vazamentos). 

Para conter os dois vazamentos e impedir que as chamas se alastrassem,  uma manobra perigosa chegou a ser realizada pelo Corpo de Bombeiros na última quarta-feira (8). Na operação, os bombeiros esvaziaram o dique, que continha água e combustível a uma temperatura de aproximadamente 200 graus. Depois, o líquido foi bombeado para outro dique vazio. A partir desta ação, a equipe pôde visualizar a válvula que permitia a passagem de combustível para os dutos que estavam com vazamento. 

Combate ao incêndio também contou com o reforço de produtos importados enviados à região 

 

No entanto, apesar dos esforços, a ação fracassou e um reforço internacional foi acionado para o combate às chamas que já entravam no oitavo dias. Técnicos da empresa Williams Fire & Hazard Control, dos Estados Unidos foram acionados e chegariam ao Município nesta sexta-feira (10). Os especialistas, que já trabalharam na Guerra do Golfo, no Kuwait, teriam como objetivo conter os vazamentos existentes nas tubulações dos tanques de álcool anidro e gasolina.  

Ontem, por poucas horas, as chamas foram contidas, e a situação parecia controlada. No entanto, em questão de minutos o fogo ressurgiu e o cenário voltou a piorar. Quem observava percebia que já não havia mais previsão para o problema terminar.

 

Ontem, chamas chegaram a ser contidas, mas voltaram a atingir tanque pouco tempo depois 

Monitoramento do ar 

Além dos reforços para o combate ao incêndio, o Exército também enviou a Santos um aparelho para avaliar precisamente sobre as condições ambientais (referente a gases) no local desejado em um raio de cinco quilômetros. A iniciativa contou com o apoio da FAB para trazê-lo à região. 

Instalado na região da Alemoa, o equipamento pertence ao 1º Batalhão de Defesa Química Biológica Radiológica e Nuclear (Btl DQBRN) dessa força armada e ficará na Cidade o tempo que for necessário.  

O sistema realiza avaliação instantânea e fica ligado a maior parte do tempo. Desde sua instalação, o aparelho está conectado, on-line, com engenheiros e especialistas do Centro Tecnológico do Exército, sediado no Rio de Janeiro.

Aparelho trazido pelo Exército a Santos avalia, desde o início da semana, as condições do ar 

Peixes mortos 

Cerca de 8 toneladas de peixes mortos foram recolhidas por técnicos ambientais da Cetesb no Canal do Estuário e no Rio Casqueiro, em Cubatão, próximo ao local onde ocorreu o incêndio. Um laudo será realizado nos próximos dias para confirmar a causa da morte, que pode ter sido a falta de oxigênio ou aquecimento da água. 

Em razão da possível contaminação, pescadores da Ilha Diana relataram à Reportagem prejuízos já sofridos em consequência do incêndio nos tanques. Receosos, clientes de restaurantes e bares da região suspenderam pedidos nesta semana. Por causa disso, dezenas de pescadores não estão saindo para pescar desde a última segunda-feira (6), nas proximidades do terminal, onde estavam habituados a lançar as redes. 

A crise não é pior porque, como a pesca já vem diminuindo há muito tempo na região, muitos homens – principalmente os mais jovens – já haviam transformado a atividade em um complemento de rendo. Graças à pescaria, conseguiam incrementar o orçamento com R$ 1 mil a R$ 2 mil por mês. 

Cerca de 8 toneladas de peixes mortos foram recolhidas do Estuário e do Rio Casqueiro 

Impactos na economia 

O incêndio também afetou o tráfego de caminhões, a atracação de navios no Porto de Santos e mudou a rotina de moradores da região.  

Desde a última segunda-feira, a Companhia Docas do Estado de São Paulo (Codesp), autoridade responsável pela operação portuária, restringiu o acesso de caminhões aos terminais que operam na margem direita do Porto de Santos. O objetivo era evitar que uma fila de caminhões se formasse na entrada da Cidade, atrapalhando o trânsito.  

Em razão do bloqueio, o Sindicato dos Transportadores Rodoviários Autônomos de Bens da Baixada Santista e Vale do Ribeira (Sindicam) quer mover uma ação coletiva contra a Ultracargo. Por isso, reúne caminhoneiros que se sentiram prejudicados pelo tempo sem trabalhar após o início do incêndio no terminal da Alemoa.  O sindicato estima que 4 mil caminhoneiros tenham sofrido com essa situação. 

Acesso de caminhões à margem direita do Porto de Santos foi suspensa na última segunda 

E os impactos a economia não param por aí. Agências de navegação marítima do estado também afirmam terem sido prejudicadas pelo incêndio na Alemoa. Segundo estimativa do sindicato da categoria, o setor já acumula cerca de R$ 6 milhões em prejuízos, considerando apenas os custos de estadia dos navios na Barra de Santos. Isso porque ao menos dez embarcações foram impedidas de atracar no cais santista, por medida de segurança. 

O Ministério Público Estadual (MPE) estabeleceu um prazo de dez dias para a Ultracargo apresentar explicações sobre as causas do incêndio, e a Polícia Civil abriu inquérito para apurar as responsabilidades. Os promotores de meio ambiente planejam cobrar indenização pelos danos ambientais. Já a prefeitura formou uma comissão para colaborar nas investigações e embargou, na última quinta-feira, as atividades no terminal da Ultracargo.

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