"Não acredito que possa ser incriminado por algo que não fiz", diz Peres

Em entrevista exclusiva, presidente do Santos comentou casos que estão marcando sua gestão

12/08/2018 - 14:13 - Atualizado em 12/08/2018 - 15:05

José Carlos Peres conversou com A Tribuna sobre o ano de 2018 do Peixe (Foto: Irandy Ribas/AT)

O Santos vive um dos momentos mais conturbados de sua história em matéria de política. O presidente enfrenta o terceiro pedido de impeachment e o vice afirma que a gestão do clube é “pífia”. Em campo, a situação não é das melhores. Embora esteja nas oitavas de final da Libertadores e nas quartas da Copa do Brasil, o time luta para sair das últimas posições no Campeonato Brasileiro e apresenta um futebol que não convence. Em meio a tudo isso, José Carlos Peres defende seus atos e sua gestão.

“Não acredito que seja incriminado por algo que não fiz”, diz ele sobre os processos de impeachment. Confira o que o mandatário santista fala sobre esses e outros assuntos nesta entrevista exclusiva para A Tribuna.

A Justiça lhe concedeu uma liminar que travou o processo de impeachment. O senhor não teve acesso aos autos e foi impedido de anexar mais provas para a sua defesa? 

Foi só por isso, não foi um processo contra o Santos Futebol Clube, nem contra o Conselho Deliberativo. Foi um processo apenas na Comissão de Inquérito e Sindicância para que eu tivesse acesso ao processo. De acordo com o artigo 5 da Constituição, todo cidadão brasileiro tem o direito de ampla defesa, e isso não foi me dado. Eu só fiquei sabendo através de vídeos na internet, da pessoa que moveu o processo, dizendo que o julgamento é dia 30. Eu que sou o suposto réu não fui informado. 

Os pedidos estão baseados no fato do senhor ser sócio de algumas empresas ligadas aoi futebol. Qual a sua participação na Hi Talent, na Saga Talent e na Peres Sports & Marketing

Dessa Hi Talent eu não sou sócio, nem sabia que existia, não consta o meu nome lá. A Saga Talent é uma microempresa que abrimos há uns 10 anos, ela operou seis meses sem nenhum negócio. São sete sócios, todos santistas, sócios do clube, alguns conselheiros. A gente descobriu que não tinha perfil para fazer esse trabalho de captação de jogadores, só meninos da base para ajudar o clube. E nunca mais ela teve movimento. 

Mas ela se manteve ativa?

Eu tenho no meu computador vários pedidos, de ‘vamos fechar’. São sete (sócios), dois a gente não encontrava. Quando foi no dia 2 de janeiro deste ano, que eu assumi (a presidência do Santos), meu contador ligou falando ‘agora nós vamos ter que fechar de qualquer maneira’. Ela nunca teve movimento, não é cadastrada na CBF, não existe nada, é zero. E já está encerrada.

E a Peres Sports e Marketing?

Ela não tem nada de jogador, era uma empresa de marketing esportivo que a gente também não avançou. Essa empresa não está mais comigo, foi transferida para outro tipo de atividade, e meu nome não consta mais como sócio. Mas quando eu cadastrei a minha chapa, ninguém me avisou que tinha que fechar a empresa, mesmo porque ela não teve movimento nenhum. 

O estatuto proíbe que o presidente do clube seja sócio de pessoa jurídica que tenha como objeto social agenciar ou negociar atletas. O senhor concorda que foi, no mínimo, imprudente ao não se desligar das empresas antes de tomar posse? 

Eu não estava em atividade, nem me lembrava dessas empresas. Meu contador que veio conversar comigo, não é imprudência, não fiz nada com maldade, não fiz nenhum negócio, é só olhar, não tem nenhum negócio com o clube. 

A Hi Talent foi envolvida na contratação do jogador equatoriano Jackson Porozo, que gerou controvérsia...

Eu não fiz essa negociação, embora a responsabilidade seja do presidente sempre. Nós estávamos em uma reunião do Comitê Gestor e esse jogador estava sendo negociado com o Palmeiras. Para o Comitê Gestor, foi dito que 50% do jogador custariam US$ 350 mil e o Manta, clube formador, ficaria com 50%. Qual foi o erro? O Manta pediu para que o advogado do Santos fizesse um instrumento particular, de que 20% ficaria com o Manta e 30% com a empresa, a Hi Talent. Eles fizeram no mesmo formato que o Santos usava na última gestão, de fazer uma destinação de um percentual, você pode fazer um instrumento particular. Mas não é um contrato na verdade, era um pré-contrato, ele era menor de idade e não poderia ter contrato profissional no País. No dia 5 de agosto ele completou 18 anos, podendo fazer um contrato profissional, e o novo advogado que eu contratei chamou a turma da Hi Talent. Ele explicou que a gente faria uma denúncia na CBF e também à Fifa, que como empresa ela não poderia ter esse documento. O Santos teve o seu erro, mas ele(Mantra) também. A gente fez a Hi Talent abrir mão dos 30%. Era um pré-contrato, deu para desfazer, foi feita essa reparação cancelando o instrumento particular. Obviamente que o Manta reclamou disso, os 30%, mas agora é isso aí, ele abriu mão, o Santos ficou com 80% e o Manta com 20%.

As últimas eleições mostraram um Santos muito fragmentado. O senhor teve que fazer alianças para ser eleito. No entanto, desde que assumiu, o senhor e o seu vice, Orlando Rollo, não falam a mesma língua. Foi um erro escolher o Rollo como vice?

A questão de erro ou não erro foi feita lá atrás, a gente não volta mais. A questão toda que a gente tem que considerar é a seguinte: eu fui eleito presidente, os votos eu ganhei, ele contribuiu, não só ele, muita gente contribuiu para a eleição. Historicamente um clube é (gerido pelo) presidente, o vice fica de stand by. Eu dei a ele os esportes olímpicos, o futebol feminino e a segurança, é muita coisa. Nós temos o Comitê Gestor, mas quem responde por qualquer coisa é o presidente. Estamos tendo o impeachment, quem está sendo impichado? Ninguém do CG, tampouco o vice. 

Mas ele já se manifestou dizendo que a sua gestão era pífia e que se sentia escanteado. O senhor teme que ele possa estar junto com a oposição nesse pedido de impeachment de olho na sua cadeira? 

Só ele pode responder isso, a consciência é dele. Se ele está trabalhando (com a oposição), acho que ele está perdendo tempo, porque eu fui eleito e eu não acredito de forma alguma que eu seja incriminado por algo que eu não fiz. Uma empresa que não movimentou... O estatuto tem os seus problemas, tanto é que o presidente o presidente do Conselho Deliberativo, Marcelo Teixeira, está fazendo um trabalho para alterar o estatuto, para que se consiga governar. É importante para o clube, tem muita proibição e nenhuma punição. E aí a punição vira política, amanhã 60 conselheiros assinam uma lista e derrubam um. É muito difícil governar hoje, você governa com um olho no que está fazendo e um olho no estatuto. 

Com a liminar, o senhor ganha tempo para reunir provas e também articular acordos no Conselho para tentar evitar o impeachment?

Eu passei várias vezes pelo CD, tenho boa relação com o CD, nós tivemos um problema com o balanço do primeiro trimestre, que é mais corretivo, o balanço para valer vai ser o de dezembro. Houve grande pressão e alguns conselheiros tiveram interesses contrariados. Mas eu respeito o CD, me sinto como um integrante do CD. 

Há críticas de que em alguns casos as demissões não ocorreram de fato. O funcionário só foi realocado ou passou a ser pessoa jurídica (PJ). É fato? 

O locutor (da Vila Belmiro) foi demitido e não tem PJ. À medida que o Santos necessitar do trabalho, ele poderá fazer o se pagar com um RPA (recibo de pagamento autônomo). 

Em grupos santistas na internet, há movimentos pró e contra o seu impeachment. Alguns pedem a sua renúncia. O senhor admite essa possibilidade? 

Não, de forma alguma, se eu tivesse feito alguma coisa errada... Eu fui eleito democraticamente, eu trabalhei. Estou no clube há 40 anos, trouxe seis títulos brasileiros para o Santos (títulos do passado reconhecidos posteriormente como Campeonatos Brasileiros) e a ingratidão é muito grande. Ajudei a trazer o Zé Roberto junto com o Marcelo Teixeira. Eu cedi a minha casa no Pacaembu, na Rua Itamarati, a casa ficou seis anos para o Santos sem pagar um centavo. Foram seis anos de Federação Paulista representando e defendendo o Santos. Essas pessoas que querem que eu renuncie, o que fizeram pelo clube? 

No Santos existe um absurdo pregado por uns, de santistas da Baixada Santista e santistas de São Paulo. O senhor se sente perseguido por não ser da Baixada?

O Athiê Jorge Cury ficou 26 anos no clube e veio de fora. Eu também não sou de São Paulo, não sou de Santos. Não entro nessa guerra. Gostaria muito de ser dos dois, porque São Paulo é uma das maiores cidades do mundo, onde estão as maiores empresas, os maiores bancos, de primeiro mundo. E Santos é a paixão da minha vida, eu morei aqui, morei no Guarujá, eu me considero da Cidade, eu recebi o título de cidadão santista. Para mim, somos todos santistas. Quando eu jogo em São Paulo, eu trago R$ 800 mil, R$ 1 milhão pra Cidade, o dinheiro é movimentado aqui, porque 90% dos funcionários (do clube) é da Cidade. Eu amo essa Cidade e vou morrer aqui. É inadmissível o que estão fazendo com o clube, quando vem com essa conversa de impeachment político. Quem é que vai investir no clube que não tem uma segurança jurídica? Esses caras têm que aprender o seguinte: querem tocar o clube, daqui a dois anos se candidatem de novo. 

As demissões no clube também geram muita polêmica e desgaste para a sua gestão. Quantos funcionários o clube tinha na antiga gestão e quantos têm hoje? 

Funcionário não é só CLT, você tem o quadro móvel, os autônomos, os caras de RPA. Desde janeiro demitimos 300, tinha PJ, CLT, autônomo, quadro móvel. O clube tem hoje 600 e poucos funcionários. 

Esses dados não teriam que estar no portal da transparência?

Estamos colocando, faz um mês que esse portal foi colocado no ar. Temos que colocar os últimos cinco anos nesse portal, mas antes disso temos que ter profissionalização. Ainda tem uma mistura de departamento, é cara que trabalha no departamento A e presta serviço no B e C. É isso que nós estamos ajustando, contratamos a PCM, de Campinas, que fez um trabalho de primeira fase organizando o clube, o organograma. A Ernest & Young, que fez um trabalho no Flamengo, hoje modelo de administração, vamos fazer um de grande escala para fazer o Santos ser profissional. Mas para isso tem que haver mudanças no estatuto, para evitar essa mistura de político com o técnico. 

O senhor pegou o clube em situação difícil no início do ano. Como estão as contas? 

Para buscar dinheiro nesses primeiros seis meses era uma coisa de louco. Peguei o clube com 10 contas zeradas, é um absurdo, contas bloqueadas por pessoas que queriam receber dinheiro do clube. Nós pegamos salário atrasado, que vencia no dia 5 de janeiro, 13º atrasado, não tinha um centavo para pagar. Premiação e direito de imagem atrasados. Em março, fomos chamados na Receita Federal de Santos, houve uma retenção de impostos atrasados, fizeram apropriação indébita, foram sete meses. Hoje está tudo em dia, não devemos para jogador, funcionário... Tem algumas rescisões trabalhistas que a gente está quitando aos poucos. 

O Santos já recebeu os 20 milhões de euros referentes à metade do valor da venda do Rodrygo ao Real Madrid? 

Está recebendo aos poucos, a gente fez um acordo com o Real. 

Mas não era para receber metade no final de julho e a outra metade quando ele se apresentar ao Real?

A metade tem um escalonamento de pagamento, até dezembro, a gente está escalonando até para garantir. Se vier tudo agora não tem dinheiro para pagar as coisas (depois). 

O Santos já recebeu o dinheiro da venda do Felipe Anderson, da Lazio para o West Ham? O time teria 25% do lucro de uma venda futura e teria cerca de R$ 40 milhões para receber agora. 

Esse também foi um escândalo, porque na verdade nós estávamos comemorando 25% (do lucro). Houve um acordo com o Doyen, que também vamos encaminhar à Comissão de Inquérito e Sindicância. Descobrimos que não é 25%, porque tem um acordo que foi feito com o Doyen que dá 12,5% (do lucro da venda de Felipe Anderson) a eles. 

Mas o acordo firmado em 2017 com o Doyen, pela antiga gestão, não havia incluído todas as pendências que o Santos tinha com a empresa? 

Fizeram esse grande acordo e colocaram no bojo três prestações de 7 milhões de euros. Ele (Modesto Roma Júnior) pagou uma em novembro (de 2017), nós temos que pagar outra em novembro agora e no ano que vem temos que pagar uma outra de 7 milhões de euros. Nessa operação (acordo com o Doyen), se pagou a uma advogada R$ 22 milhões para ela participar. 

Foi um erro manter o Jair Ventura na parada para a Copa do Mundo?

Não foi erro. O Jair vinha pedindo uns refoços, demos três titulares: o Gabigol, o Sasha e o Dodô. Assim mesmo precisava de jogador de meio-campo, porque já tinha esse problema desde o ano passado, aliás, tinha o Lucas Lima jogando de má vontade. O que nós fizemos? Ele (Jair) classificou para (as oitavas da) Libertadores e para (as quartas) Copa do Brasil, e no Brasileiro não vinha bem. Então a gente correu para dar os reforços para ele por uma questão de justiça, por isso que a gente levou até onde deu. Fez os amistosos no México e mais dois jogos aqui, no segundo jogo a gente mandou embora. 

Tem torcedor reclamando que o senhor prometeu 50% dos jogos da equipe no Pacaembu. Até o momento, são 14 jogos na Vila e 7 no Pacaembu. Como vai resolver isso? 

Compensando São Paulo, vamos fazer uma compensação pra ser exatamente igual. 

E a reforma da Vila Belmiro, o que vocês vão fazer para dar mais conforto ao torcedor?

Tem que fazer um retrofit para deixar a Vila um pouco mais atualizada, com banheiros limpos, lanchonetes agradáveis, para que a família santista possa vir.

Qual a posição do Santos sobre o contrato com o Esporte Interativo, já que o canal anunciou o encerramento das atividades e migração para os canais TNT e Space? 

Tem que esperar o (departamento) jurídico, não estou dizendo que nós estamos fora. Mas eu já tinha cantado essa bola, que realmente não alcançou o objetivo. O objetivo deles era ter 10 clubes grandes e não teve.

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