Grupo pede cassação de título de Cidadão Emérito de Santos dado a Peres

Manifestantes concentram críticas em falas antigas do presidente do Peixe sobre a cidade e o clube

20/09/2018 - 19:13 - Atualizado em 20/09/2018 - 22:07

Grupo esteve com faixas, instrumentos musicais e soltou fogos em frente à Câmara (Foto: Lucas Santos/Whatsapp)

Um grupo de manifestantes esteve na Câmara de Vereadores de Santos, nesta quinta-feira (20), para pressionar o Legislativo a cassar o título de Cidadão Emérito da Cidade dado ao presidente do Santos Futebol Clube, José Carlos Peres. 

Eles se concentraram na frente do Castelinho, sede da Câmara Santista, por volta das 18 horas. Com instrumentos de percussão e faixas, os manifestantes soltaram fogos e se posicionaram contra o mandatário do Peixe. Na sequência, uma parte se direcionou até as galerias da Casa para chamar a atenção dos vereadores. Para que o título seja cassado, é necessário que um membro do Legislativo santista apresente o pedido, e que ele seja aprovado por um quórum de dois terços da Câmara santista.

Na visão de membros do grupo, Peres faltou com respeito à Cidade e ao clube por diversas vezes, e por isso, não merece ter o título de Cidadão Emérito. Em entrevistas, o dirigente chegou a chamar a Vila Belmiro de "puxadinho", que em Santos "funcionaria apenas o RH" do clube e que era preciso abandonar o pensamento provinciano em relação ao Alvinegro. 

"Nos chamou de provincianos. Quer dizer, ele esqueceu a história dessa cidade. Aqui nasceu a genialidade de um Bartolomeu de Gusmão, aqui nasceu uma das maiores inteligências deste País, que foi José Bonifácio de Andrada e Silva, um patriarca da Independência. Aqui, na Vila Belmiro, foi o berço do Atleta do Século chamado Pelé. Além da história política, Santos tem um passado de lutas imensas. E nosso clube, o Santos Futebol Clube, nasceu na Vila Belmiro, há 106 anos. Todas as conquistas, as glórias, nós devemos as gerações passadas. Portanto, nós do presente, devemos observar este legado", disse o conselheiro do clube, João Carlos Fernandes, de 75 anos.

O conselheiro também destacou que o Alvinegro, apesar de não ser um time situado em uma capital, figura entre os principais do País. 

"Não pode chamar uma comunidade de provincianos, que não pensa grande. Ele não pensa grande. É uma falta de respeito à pluralidade e a divergência de pensamento. Isto não é democracia. Temos que pensar grande, mas somos humildades, reconhecemos nossos limites de atuação. Não pertencemos a uma economia pujante como é São Paulo, Belo Horizonte ou Porto Alegre, mas somos uma cidade pacífica, ordeira e que acredita nas suas origens e tradições. Portanto, exigimos respeito. Esse cidadão não tem competência e condições de, sequer, entrar na Vila Belmiro. Quanto mais dirigir o nosso Santos Futebol Clube", declarou Fernandes.

Jean Marcelo Alteia, de 33 anos, seguiu a mesma linha de pensamento. Morador de São Vicente e torcedor santista, ele mobilizou um grupo para criticar a atuação do presidente santista em relação a Santos e ao clube.

"O movimento é em prol da cidade de Santos. Um presidente que vive difamando a nossa cidade, difamando a nossa torcida e o clube também ao chamar de puxadinho. A gente nasceu em Santos, o clube é de Santos. (Ele) deveria respeitar mais a cidade, a torcida, o clube. Esse movimento é tanto para tirar o presidente do clube quanto o título de cidadão santista. É um protesto válido, pacífico. Alguns desmandos dele como chamar o clube de puxadinho, falar que o clube não merece estar em Santos. Eu espero que esse movimento agregue para nossos vereadores para que se retire o título. A nossa cidade merece pessoas de melhor conteúdo. Precisamos melhorar a nossa cidade e não homenagear pessoas que não possuem identificação nenhuma, que não amam a nossa cidade", disparou o torcedor.

Vereador se posiciona sobre a questão

O título de Cidadão Emérito de Santos a José Carlos Peres foi ofertado pelo vereador Lincoln Reis (PR). O Projeto de Decreto Legislativo (5/2018) foi apresentado em dia 19 de fevereiro e subscrito por todos os parlamentares. O mandatário recebeu a homenagem no dia 10 de abril.

Reis fez uma defesa da homenagem dada ao presidente do Peixe.

"Foi uma honraria merecida. Ele está há 40 anos como sócio do Santos Futebol Clube. Em nenhum momento o Santos Futebol Clube, sua diretoria ou jurídico, o extinguiu do quadro associativo. O motivo dele ter falado alguma coisa, no calor emoção, não podemos trazer dos muros da Vila Belmiro para os da Câmara de Santos. Aqui é o Legislativo, não tem nada a ver. Imagina se o Pelé, o maior jogador de futebol, se ele fala algo que não agradou certas pessoas. Será que tirariam os mil gols dele? A gente não pode remover uma coisa que foi dada, concretizada, onde todos os parlamentares assinaram. A propositura tem validade pela unificação dos títulos (brasileiros) que o Peres correu atrás quando esteve à frente da ONG Santos Vivo e trazendo o Santos aos maiores campeões nacionais da atualidade", comentou o edil.

Vereador entende que falas de Peres não são o suficiente para cassar título (Foto: Paulo Santos/AT)

O vereador destacou que não se deve misturar a homenagem prestada pela Câmara de Santos com a situação política do clube.

"Acredito que algo assim não deveria nem ter sido trazido para a Câmara. Está ocorrendo um processo de impeachment porque ele teria infringido o estatuto do Santos Futebol Clube. Ainda não foi nem cassado. Uma história não bate com a outra. Não vejo uma coisa que eu posso chegar e propor a retirada de um título. Eu te dou um título pelo mérito de tudo que você conquistou para o Santos Futebol Clube, num momento que estava todo mundo aplaudindo, casa cheia. E depois eu chegou e digo que não dá, para você devolver o título. Como que se faz isso? Eu sou novo na vereança, mas nunca acompanhei na Câmara a cassação de um título emérito", ponderou Reis.

Além disso, o representante do PR também minimizou frases ditas pelo presidente santista. Para ele, é preciso analisar a situação em que as falas foram ditas e que duvida que José Carlos Peres tenha diminuído a grandeza da Cidade.

"Jamais uma pessoa vai diminuir a grandeza de um clube e de uma cidade que é referência, na terceira idade é campeã. É algo muito pequeno. Se tivermos que tirar muitas honrarias que possuem deputados presos, isso vai virar uma bagunça. Nesse viés que vou levar a defesa desse título. Até o momento não vi nenhum menosprezo, xingar o santista nato. Me abordaram para dizer que ele chamou a Vila Belmiro de puxadinho. No calor, ele pode ter usado essa fala. Por que? Ele precisa fechar as contas e vê um estádio com 3 mil, 4 mil pessoas? Eu sou santista, vou à Vila Belmiro todo jogo, e desde a época do Neymar que não vejo o estádio lotado. Eu não concordo com a declaração, mas com os ânimos que ele tava, acabou falando. Ainda acho pequeno", analisou o vereador santista.

Presidente atrela movimento a crise política interna

Questionado sobre o pedido de cassação do título de Cidadão Emérito, José Carlos Peres, por nota, minimizou a iniciativa. Ele atrelou a manifestação ao clima político vivido dentro do clube.

“Eu lamento o clima de guerra que tomou conta do clube nos últimos meses. Todo meu respeito ao Santos FC e a cidade está no trabalho que temos feito no clube. Ingressos mais baratos na Vila para quem mais gente da cidade possa ir. Salários pagos em dia para que todos possam desfrutar com tranquilidade. Impostos em atraso todos pagos. E um time reformado, para orgulhar a todos. A cidade é berço do time mais famoso do mundo. E isso ninguém nunca vai tirar”, disse o presidente.

Veja Mais