Levir Culpi: histórias, futebol, Santos FC e política

Treinador concede entrevista exclusiva para o Jornal A Tribuna e não foge das perguntas

16/07/2017 - 15:22 - Atualizado em 16/07/2017 - 15:23
Aos 64 anos, Levir afirma que está perto do fim da 
carreira, mas não deu um prazo (Alexsander Ferra/AT)

Levir Culpi é um personagem engraçado, cheio de histórias para contar. Não por acaso, o título de sua biografia é Um Burro Com Sorte. No entanto, em entrevista para A Tribuna, ele também fala sério. Sobre futebol, diz não ter “o menor receio de tomar decisões”, como barrar Ronaldinho Gaúcho no Atlético-MG. Nem de deixar claro, como já fez em outras ocasiões, que respeita todas as religiões, mas que nenhuma delas pode interferir no dia a dia do time. E o treinador mantém a firmeza quando o assunto é política. Incomodado com a corrupção no Brasil, considera uma intervenção militar.

Recentemente, Abel Braga sugeriu uma breve geral dos técnicos por causa das muitas demissões. O que acha disso?

Penso várias coisas. A gente tem dificuldade interligada com a Justiça trabalhista: como situar um técnico de futebol. Na questão dos impostos, não tem problema nenhum. Tem que pagar. Mas, na proteção do emprego, não existe regulamento que permita segurança de trabalho. Os políticos não resolvem nada no Brasil. Nada. Só a corrupção – nisso, são bem efetivos. Eles vão resolver um problema de Justiça de Trabalho do técnico? Vejo isso com dificuldade. O que tem acontecido (demissões) é uma insegurança total na profissão. Pense em profissão de alto risco... tem alguma coisa errada.

Você é técnico há mais de 30 anos e sabe que a rotina de demissões sempre existiu. Por que nunca nada foi feito?

As coisas no Brasil demoram muito para andar. Só melhoram se beneficiarem os políticos. Aí, dão um jeito de votar. Um emperra aqui, outro dali... Por exemplo: as grandes empresas conduzem – como são corruptos – os políticos como votar de acordo com o que pensam. Eles dominam o País. O País está nas mãos de pouca gente, e as leis que são feitas, são para proteger os mais ricos. Você não consegue colocar uma Justiça no País, porque a corrupção não deixa.

Você falou de políticas nas respostas anteriores. Como vê o momento do Brasil?

Acredito que haverá uma mudança só em caso de catástrofe. Se houver um terremoto e cair tudo, aí todos se unem e começa tudo de novo. De outra forma, é bem difícil. Não existe vontade dos políticos, eles não têm interesse em melhorar a educação. Quanto mais ignorante for o País, melhor para eles. Eles têm a força de injetar dinheiro na educação, mas como, se não têm interesse? Querem que fique como está.

 

Treinador não se esquivou das questões políticas e expôs sua opinião (Alexsander Ferraz/AT)

Acha que algo pode ser feito para mudar isso?

Ou povo vai ter que reagir, ou acontecer uma intervenção militar. Os militares, pelo menos, têm a força. Se tiverem honestidade... Depois, surgem novas ideias políticas e, através da educação, o País pode melhorar. A solução é a catástrofe e começar, depois, pela educação. Isso aconteceu no Japão. Eles resolveram jogar bomba em Pearl Harbor e caíram a zero. Resultado: O Japão injetou o que podia em educação e é a terceira ou quarta maior potência financeira do mundo. Tem que haver tragédia para ver se surge alguém que invista na educação e mude o País.

A Justiça, então, não vai transformar a política?

Não. É a tragédia. Vai ter que acontecer algo muito mais pesado, para que todos pisem na realidade e invertam a situação.

Quais são os problemas do Brasil, politicamente falando?

Digo que temos dois. Um é o tamanho. O outro é o idioma. Se colocar uma palavra para um advogado brasileiro, ele transforma essa palavra em cinco interpretações. O idioma dá o sentido de interpretação que é o caminho da saída dos corruptos. Pode ver. Tem visto os julgamentos? Se ouvir 5 minutos, eles (juízes) interpretam a palavra do outro. Não é questão de lei, por exemplo: roubou, é ladrão. Aí, interpretam o que seria o roubo. É subjetivo.

Você falou sobre a questão do idioma. E sobre a dimensão do território brasileiro?

O Japão é do tamanho do Paraná. Lá, as cidades são pequenas e subdivididas com comando. No bairro, comanda fulano... Não tem uma administração central. Nós fizemos Brasília. Que ideia foi essa? Se (o político) morar em Brasília, o que acontece em Manaus ou Porto Alegre? É difícil. Tem que dividir...

Você quer dizer separar o País?

Não seria uma proposta de separação do Brasil, mas uma política mais regionalizada, onde se possa administrar melhor, interagir com a população. O presidente está em Brasília ou nos Estados Unidos, jantando. Ele não sabe os problemas que as pessoas passam. 

Na política, você é de direita ou de esquerda?

Eu sou brasileiro. Segundo Nelson Rodrigues, o palpite errado tem sido pão espiritual de milhões de brasileiros, e eu sou um deles. Não acerto uma. Votei no PMDB, PSDB, em tudo que você possa imaginar, e não acerto uma. Só damos palpite errado.

 

Treinador deseja continuar a exercer a profissão e sonha em encerrar a carreira em alta (Alexsander Ferraz/AT)

Futebol e política são iguais?

É muito parecido. A gente opina muito em política, mas entende zero. Metemos o pau em todos os políticos, pensamos que faríamos melhor, mas não nos colocamos no lugar deles. No futebol, é parecido. Você vê o jogo, e todo mundo entende um pouco, e parece que as soluções são simples. Mas isso seria como gostar dos quadros de (pintor Pablo) Picasso só pelas cores. Você não sabe como funciona, não tem ideia de como aquele lazarento fez as pinturas. Futebol é a mesma coisa. Você olha e acha que sabe o que está acontecendo. Quando entrar no clube, vai ver como funciona.

O que pensa quando escuta que o futebol está mais moderno?

Existe evolução. A área que mais mudou foi física. Há 20, 30 anos, não se falava em fisiologia, fisioterapia. Isso melhorou muito. Mas, no futebol propriamente dito, as evoluções são parecidas. Todos querem jogar como o Barcelona e os melhores do mundo. Os times jogam com linhas encurtadas, e todos jogam mais ou menos parecido. Um futebol mais compacto, mais físico do que técnico. Mas ainda temos os melhores jogadores. Só não temos os melhores times porque eles não permanecem.

Meses atrás, Vanderlei Luxemburgo disse que a parte tática não mudou com o passar dos anos. Concorda?

Não muito. No plano tático, percebemos mudanças. Quando os times começaram a jogar com linhas encurtadas, todos perceberam. Todos procuram adiantar os zagueiros. Antes, tinha zagueiro de sobra. É uma evolução.

Como vê a nova geração de técnicos?

Não acho que haja nova geração. Acho que temos técnicos mais velhos e mais novos. Foi sempre assim. Eu peguei Telê Santana, e eu estava subindo. Agora, estão chegando os outros. Não é por aí que se tira uma evolução no futebol.

Aos 64 anos, como se vê na profissão?

Me enxergo muito à vontade, porque falta pouco para encerrar minha carreira. Não estou contando (os anos) nos dedos, porque não quero perder a motivação. Mas penso nisso e não quero ser parado por imprensa, torcida ou dirigentes. Eu penso quando seria o ideal parar. Quando não se trabalha, fica-se em casa ansioso. Preciso administrar bem a situação. Tenho lido muito e comecei a escrever. Vou pensar em algo para fazer. Mas quero pensar um pouco e tomar uma decisão definitiva, mas não sei quando.

Já se vê desapegado com o cargo?

De certa forma. Financeiramente, não faz muita diferença. O que faz diferença para mim é a parte emocional. Não me vejo fora do futebol.

O que lhe agrada no Santos?

Quando o Santos me procurou, me veio o glamour de trabalhar no Santos. Não é para qualquer um. Foi oportunidade muito legal. Eu venho, encontro com Clodoaldo, Lima, Edu. Manoel Maria me colocou com o Pelé no telefone. Aqui, emana futebol. Passar na sala de troféus é brincadeira. E o Santos continua com conquistas, um time de ponta. Temos chance na Libertadores, estamos invictos. Estamos honrando a tradição do clube. Temos que chegar às finais.

Em sua carreira, você bateu de frente com atletas como Fred, no Fluminense, e Ronaldinho Gaúcho, no Atlético-MG. Considera-se um técnico linha-dura?

Não sei, mas tenho impressão que já fui mais. Não sei fazer bem essa conta, mas tenho impressão de que já fui mais turrão. Era mais firme, não me colocava muito no lugar do outro. (Pensava) sou técnico, estou decidindo aqui. Hoje, procuro me colocar mais na situação dos outros para tomar algumas decisões. Mas eu não tenho o menor receio de tomar decisões, mesmo não tendo certeza de que vai dar certo.

 

Levir conta que existe um glamour em trabalhar no Santos, pela história e conquistas (Alexsander Ferraz/AT)

Diante disso, se pudesse voltar no tempo, faria algo diferente?

Se você fizer a pergunta para você mesmo, vai responder que sim. Mas fique tranquilo. Se fizesse diferente, poderia ser pior. Tem que tomar decisões. Toma e vai para casa. Baseada em bons princípios, está valendo.

Você gosta de escrever e é autor de um livro, chamado Um Burro com Sorte. Por que o nome é esse?

O nome é um dos episódios, porque foi verdade. Eu treinava o Criciúma e precisávamos empatar um jogo com um time importante de Santa Catarina. Meu time estava jogando muito bem, e a bola não entrava.

Chegou o intervalo do jogo. Um cara que estava atrás do banco era muito chato, torcedor daqueles que gostam de aparecer, vão para desabafar. Ele começou: “Não vai mexer, burro?”. Ele falava muito essa expressão. Saí do intervalo e voltei sem mexer. Perto de 30 minutos do segundo tempo, o cara estava explodindo, porque eu não mexia.

Me vem na cabeça (uma ideia). A gente tinha um centroavante chamado Chicão. No banco, estava um meia, chamado Grizzo, que era muito habilidoso. Me passou pela cabeça: “O Chicão está lá dentro. A gente aperta, e a bola não entra. De repente, coloco um cara que dribla, e a gente penetra”. Fiz a tentativa.

Quando o torcedor viu a placa do número 9 sendo substituído, ele queria me matar. Aos 44, o Grizzo entrou na área, driblando todo mundo, e meteu no cantinho. 1 a 0. Eu queria procurar o cara antes de acabar o jogo. Aí, tem aquele encontro: o diabinho e o anjinho. O diabinho entrou na hora e me falou: “Manda o cara para a "pqp" agora. Ele não pode passar livre”. O anjinho: “Levir, você é técnico, tem que demonstrar tranquilidade”. Nesse ínterim, fui descendo. Era muito perto a entrada do túnel. Fui descendo com esse negócio na cabeça e pensei que uma olhadinha eu tinha que dar para o derrotado. Quando olhei para ele, ele me disse: “Aê, seu burro com sorte!”. Aí, pronto, acabou. Tinha que virar o nome do livro.

Pensa em escrever outro livro?

Vou escrever o Burro Com Sorte 2 e mais um pedacinho: De volta para o Inferno. É minha volta do Japão. Eu estava no paraíso por sete anos e voltei para esse inferno de novo.

Tem histórias novas para o livro?

Acha que aqui, no Santos, já não tem uma. Tenho um título, escrevi hoje: “O maior goleiro da história do Santos”. É que no jogo passado, depois da contusão do Vanderlei, eu ia colocar o Vladimir... Hernández (1,60 m de altura) no gol (risos). Na verdade, eu chamei o Serginho, que é alto. Falei que ia para o gol. Ele falou: “Eu nunca joguei no gol”. Já ficou com medo. Aí, Serginho não vai. Falei: “Vai Vladimir”. O que ia acontecer? Ele sabe que vai pegar bola, vai chutar... Se você tira um cara alto e põe ele no gol, os caras vão cruzar as bolas. Então, tira um baixinho e deixa os altos, para evitar os cabeceios. Não é uma lógica? Agora, me diga: o que vai dar certo? Tinha que acontecer para ver o que ia dar. Aí, está a diferença do burro e do gênio. Ele vai lá e pega um pênalti! Então, por que não? A gente tem uma lógica, mas as coisas boas acontecem quando não esperamos.

[Neste jogo, vitória por 1 a 0 sobre o Galo, Levir já tinha feito as três mudanças quando Vanderlei se machucou. O goleiro ficou em campo no sacrifício.]

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