Auditoria do Santos aponta irregularidades

No total, 370 contratos, assinados entre 2013 e 2017, foram analisados

10/08/2018 - 19:42 - Atualizado em 10/08/2018 - 23:17

Parceria com a Teisa, contratação de escritório de advocacia e dinheiro repassado a hotel estão no documento
(Foto: Bruno Secco)

O Santos divulgou, nesta sexta-feira (10), a auditoria prometida pelo presidente José Carlos Peres no início de sua gestão, em janeiro. O documento analisa práticas, contratos e finanças do clube entre 2013 e 2017, e aponta irregularidades e conflitos de interesses, mais uma série de questões polêmicas. No total, 370 contratos foram avaliados.

Em um dos pontos, a auditoria, produzida pela GF Brasil Auditores Independentes, questiona a contratação do escritório jurídico Bonassa Bucker, na gestão do presidente Modesto Roma Júnior, que movimentou aproximadamente R$ 13 milhões, direta ou indiretamente. De acordo com o levantamento, “ao contratarem a empresa Bonassa Bucker, não houve por parte do Santos nenhuma cotação de preços. A empresa contratada foi apresentada pelo Superintendente do Clube (Osvaldo Eduardo Cardoso Ribeiro), conforme informado pelo Departamento Jurídico do SFC”.

Ainda conforme o documento, “nos projetos Sport 10, Grêmio Osasco Audax e Teisa Futebol S.A., valores a serem pagos pela economia dos processos, a Bonassa Bucker cobrou a mais sem nenhuma conferência por parte do SFC”.

Entre os processos nos quais a Bonassa Bucker atuou, está o acordo com o Doyen Sport, empresa que colocou os jogadores Leandro Damião e Lucas Lima no Peixe. O clube terá de pagar cerca de 23 milhões de euros (mais de R$ 101 milhões na cotação atual). Pelo serviço, o escritório recebeu R$ 9.971.271,00.

Redegol

O documento também abordou o contrato com a Redegol, empresa que cuida da "instalação e operação de bilheteria, fornecimento e venda de ingressos on-line e de controle de acesso, com fornecimento de equipamentos".

A auditoria aponta que "é cobrado um valor fixo de R$ 26 mil por jogo realizado" e que o clube deveria reanalisar o contrato, pois o valor fixo poderá estar superior ao resultado obtido por jogo".

Hotel Praiano

O relatório revela que, no fim de novembro de 2015, o Santos " fez um adiantamento para hospedagens no Hotel Praiano no valor de R$ 150 mil". Contudo, "o valor utilizado nas hospedagens foi expressivamente menor, no valor de R$ 18.996,00. O adiantamento foi autorizado pelo presidente do clube da época, o Sr. Modesto Roma".

De acordo com o documento, o hotel devolveu R$ 80 mil, "ficando ainda um saldo residual pendente de R$ 51.004,00". A quantia foi paga no meio de junho.

Após detalhar estes números, a auditoria ressaltou que "Márcio Campanelli Costa, membro integrante do Comitê de Gestão, era um dos sócios do hotel na época". Depois disso, o documento afirma que, na verdade, não se tratou de um adiantamento, mas de um empréstimo.

"Entendemos que não se trata de adiantamento ao Hotel e sim de um empréstimo, uma vez que na documentação recebida há a seguinte afirmação ‘favorecido irá devolver ao Clube a quantia’. Portanto, o instrumento legal deveria ser um contrato de empréstimo, com cobrança de juros e pagamento de tributos inerentes. 

Procurado, Campanello Costa negou que tenha feito o empréstimo. Ele disse que os R$ 150 mil foram adiantados pelo Santos por conta de um atraso de pagamento da Conmebol. O ex-gestor do clube diz ainda que, na época, ainda não era do comitê de gestão.

"Na época, o Santos ligou para mim, através do Modesto. Eu era conselheiro, não gestor — virei gestor  em 26 de junho de 2016. Aí, perguntou se o hotel tinha interesse em hospedar 120 meninas que disputariam um Sul-americano sub-20 feminino, da Conmebol. O combinado era que a Conmebol pagar a hospedagem adiantado. No começo de dezembro, foram chegando as delegações. Recebemos umas cinco. Deixei o hotel vazio para atender ao Santos. Imagina o hotel dando 120 cafés, almoços, lanches, jantas... todos os dias. Quando chegou em 10 ou 12 de dezembro, fui ao Santos — eu era conselheiro. Procurei o Modesto e disse que não aguentava alimentar todas as pessoas, sendo que combinado era Conmebol pagar adiantado. Falei que não tinha caixa. Eu falei que precisava de saldo de caixa. Eu disse que 'como o Santos era o responsável, entre aspas, pelo evento, preciso de um socorro. Quando a Conmebol pagar, reembolso'. O Santos, como 'responsável' pelo evento, foi adiantar. O que houve? A Conmnebol foi pagar depois de quase 17 dias de hospedagem. Pagou metade. Imediatamente, paguei ao Santos R$ 80 mil e disse que, quando chegasse o segundo outro depósito, eu pagaria. Nesse ínterim, entrou uma empresa chamada Sport Promotion, que faz hospedagem futebolística. Queriam hospedagem, e mandei para o (Hotel) Caravelas. Acabou o campeonato, e não pagaram (refere-se à companhia citada, não à Conmebol). O Caravelas estava cobrando R$ 16 mil. Eu paguei e cobrei a dívida do Caravelas da Conmebol. Quando a Conmebol pagou (parte), paguei ao Santos R$ 51 mil. Os outros R$ 16 mil, a Conmebol ainda não me pagou até hoje", declarou.

Ele reafirmou que não pediu empréstimo. "Não pedi. Esta é a realidade. Se a Conmebol pagasse, nada teria acontecido".

Sobre a auditoria, Márcio Campanelli Costa afirmou: "Queria que fosse imparcial em relação ao meu quesito. Não posso responder pelos outros. Apesar de ser do comitê de gestão, não respondo pelo que não assinei".

Teisa

Foi apontado conflito de interesses quanto a parceria com a Terceira Estrela Investimentos S.A (Teisa). Também foi citado descumprimento do estatuto do Santos.

O documento lembra que o fundo foi criado na gestão do presidente Luís Álvaro de Oliveira Ribeiro, já falecido. Também ressalta que o fundo, além de investir na contratação de diversos atletas, como Elano, Montillo e Arouca, adquiriu parte dos direitos econômicos de Neymar.

Depois disso, a auditoria aponta o conflito de interesses, ao citar que "dois membros do Conselho Gestor do Santos participavam do quadro societário da TEISA".

Quanto ao descumprimento do estatuto, o relatório diz ter identificado três conselheiros na composição societária da referida empresa. São eles: Alvaro Luis Afonso Simões, Walter Schalka e Piero Paolo Picchioni Minardi. Na sequência, é citado o artigo 41 alínea F do estatuto, que afirma: "Os conselheiros são impedidos de ter qualquer tipo de relacionamento profissional, na condição de procurador de atletas, empresário de atletas, agente de atletas ou como sócio de pessoas físicas ou jurídicas que exerçam tais atividades".

Por isso, a auditoria declara: "Em nosso entendimento, esse contrato não deveria existir, por haver conflito de interesses entre as partes".

Após publicar a auditoria em seu portal de transparência, o Santos emitiu nota, na qual assegura: "O Santos Futebol Clube é muito maior do que esses malfeitores, de modo que serão adotadas, de agora em diante, todas as medidas contra quem quer que seja, para que o Clube seja reparado de todos os prejuízos que experimentou nos últimos anos".

A partir de agora, A Tribuna On-line vai entrar em contato com os citados no relatório para ouvir suas versões. Assim que forem localizados, a matéria será atualizada. O espaço também fica aberto para os mencionados se manifestarem.

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