Homem denuncia que filho sofreu perseguição no Exército

Motivo, segundo ele, seria o fato do rapaz ser umbandista; comando local nega

08/11/2017 - 12:53 - Atualizado em 08/11/2017 - 12:54

Antonio Marcio Santana afirma que vai procurar a Defensoria Pública da União (Foto: Fernanda Luz/AT)

O sonho de integrar as Forças Armadas transformou-se, literalmente, em pesadelo para um jovem santista de 20 anos. Umbandista, o soldado, que entrou no Exército em janeiro de 2016, diz ter sido vítima de preconceito religioso que avançou para agressões físicas e verbais por parte de seus superiores dentro da Fortaleza do Itaipu, em Praia Grande. O Exército nega as acusações e diz respeitar todas as crenças religiosas.

Acuado, o jovem – que prefere não se identificar – desenvolveu uma série de transtornos psicológicos. Ao passar por um médico do Exército, em setembro de 2016, teve autorização para se afastar e cuidar da saúde. Porém, em junho deste ano, em meio ao tratamento, o soldado foi desligado da corporação e soube disso por meio de notificação enviada via Correios, perdendo todos os benefícios.

Incomodado, o estivador Antonio Marcio Santana, de 46 anos, conversou no mês seguinte com o tenente-coronel e comandante-geral da Fortaleza do Itaipu, Luiz Claudio de Souza Cunha, e o comandante-geral do Forte dos Andradas, em Guarujá (principal posto do Exército na região), Maurílio Miranda Netto Ribeiro. Porém, sem solução.

Cansado, o estivador irá procurar a Defensoria Pública da União para pedir a reintegração e permanência do jovem no Exército até o fim do tratamento médico. 

Início dos transtornos

“Os problemas começaram no momento em que o meu filho revelou sua religião. Declaradamente evangélico, um dos sargentos o excluiu de tudo e fazia questão de dizer para todos ouvirem que não queria apetrechos de macumba no batalhão dele. Porém, esse mesmo sargento organizava cultos evangélicos com outros soldados que levavam a Bíblia e violões”, conta Antonio Marcio.

Ainda por conta do preconceito religioso, o soldado, de acordo com o seu pai, era designado para a execução dos trabalhos mais pesados dentro da Fortaleza do Itaipu durante os nove meses em que serviu o Exército – de janeiro a setembro de 2016.

“Em uma determinada ocasião, o sargento desaprovou o comportamento do meu filho e o mandou fazer flexões. Ao terminar, o garoto perguntou se poderia se levantar. Foi então que esse sargento o agrediu com um tapa na cabeça”. 

Sindicância interna

Irritado com as constantes agressões, o estivador comunicou o Exército de tais episódios e uma sindicância foi aberta. “O problema é que nessa sindicância só foram arroladas testemunhas que interessavam ao Exército”. 

Afastado com autorização de um médico da instituição, o soldado procurou um médico particular que o diagnosticou com transtorno psicótico agudo do tipo esquizofrênico, episódio depressivo moderado e transtorno de adaptação.

Mas foi aí que veio a surpresa. Mesmo com o afastamento autorizado e o diagnóstico, o soldado foi comunicado que não pertencia mais ao Exército. “Entreguei o meu filho em perfeitas condições ao Exército e eles o devolveram doente. Isso está errado. Gasto dinheiro com remédios e consultas porque eles não nos deram qualquer assistência”.

Mês passado, em consulta no Hospital Militar de Área de São Paulo, na Capital, um médico militar psiquiatra constatou os mesmos transtornos diagnosticados pelo particular. 

Procurado pela Reportagem, o Exército, por meio do departamento de Relações Públicas da Fortaleza do Itaipu, nega com veemência que tenha ocorrido qualquer situação de discriminação religiosa por parte dos seus representantes ou de outros soldados. 

“No Exército Brasileiro, todas as crenças são integralmente respeitadas. No caso da Fortaleza do Itaipu, por exemplo, todas as últimas quintas-feiras do mês são realizadas reuniões dos segmentos católico, evangélico, espírita, budista, entre outros, com a finalidade de permitir um momento de reflexão e conciliação, cada um na sua respectiva fé”, relata a instituição.

Sobre as alegações de perseguição, o Exército se defende dizendo que abriu uma sindicância para a comprovação de tais episódios, mas comprovou-se que o jovem demonstrou dificuldade em se adaptar à rotina que o serviço militar exige.

“Ao final da sindicância, após a coleta de documentos e depoimentos de testemunhas, concluiu-se que o soldado não tinha bom relacionamento com os demais companheiros de turma e que, conforme relatos, fazia brincadeiras de mau gosto”, posiciona-se o Exército.

Além disso, “o soldado não foi capaz de provar os fatos alegados, pois nenhuma das testemunhas confirmou suas alegações”. 

Ainda de acordo com a instituição, todas as vezes que o soldado procurou o serviço médico, foi prontamente atendido e recebeu assistência da equipe da Seção de Saúde da Fortaleza do Itaipu e tratamento totalmente custeado. “Porém, em alguns momentos, o jovem optou por utilizar o plano de saúde do seu pai por vontade própria”. 

Despertar da doença

Conforme o Exército, assim que o jovem se queixou de problemas psiquiátricos, ele foi encaminhado para a perícia médica e afastado de todas as atividades militares para dedicar-se ao tratamento. “Porém, em todas as inspeções de saúde às quais o soldado foi submetido, não houve comprovação de que o transtorno apresentado tenha relação com o serviço do Exército”.

Por fim, a instituição afirma que uma reintegração do jovem, nesse momento, somente poderia ocorrer por decisão judicial. 

Na lei

A Constituição Nacional de 1988, em seu Artigo 5, inciso 6º, dispõe “ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção de culto e suas liturgias”.

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