Deficientes pedem transporte de qualidade para concluir estudo universitário

13/02/2014 - 19:31 - Atualizado em 13/02/2014 - 19:31

O direito de ir e vir em um transporte de qualidade para, assim, conseguir finalizar os estudos. Essa é a vontade de Bruno Souto, 22 anos, que frequenta o curso de Análise e Desenvolvimento de Sistemas da Faculdade de Tecnologia (Fatec) Rubens Lara, em Santos, desde 21 de janeiro. O estudante, que mora no Boqueirão, em Praia Grande, ficou paraplégico após sofrer um acidente de moto em outubro de 2012 e sente, diariamente, dificuldades para percorrer os cerca de 30 km de distância até a faculdade.


A viagem de Bruno demora, aproximadamente, 2 horas a ida e 1h30 a volta. Ele pega três ônibus para concluir o trajeto, dois da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo (EMTU/SP), sendo um municipal e outro intermunicipal, e um da Viação Piracicabana. "Faço o trajeto todo sozinho. É um de casa até o Terminal Tude Bastos, depois do terminal até a Avenida Ana Costa com a praia e da Ana Costa até o Escolástica Rosa, na Aparecida".


O longo tempo de viagem, somado às trepidações bruscas do ônibus, prejudicam a coluna do estudante. "Dói muito. É torturante", diz Bruno que, no acidente, fraturou três vértebras e teve lesão parcial da medula. Ele tem ainda implantadas duas hastes e 11 parafusos de titânio.

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Bruno mora em Praia Grande e pega três onibus para chegar a faculdade onde estuda em Santos

O jovem já entrou em contato com o Governo do Estado de São Paulo em busca do benefício oferecido pelo programa Ligado, que realiza o transporte de Pessoas com Necessidades Especiais (PNE) para consultas médicas e outras atividades, entre elas as voltadas à educação, mas o programa abrange apenas o Ensino Fundamental e Médio. "Queremos que isso mude. Tentei entrar em contato, mas não tive resposta (positiva). Para Ensino Superior eles dizem não ter a obrigação".


A Prefeitura de Praia Grande também foi procurada pelo estudante. "A Prefeitura também diz não ser responsável e não sabemos mais por onde tentar. Estamos fazendo o máximo possível para tornar possível o que é ou deveria ser o nosso direito"


Problemas nos coletivos

O estudante atenta para a falta de manutenção dos ônibus e de treinamento dos motoristas para o portador de necessidade especial. "Há problemas com as plataformas e cintos de segurança que sempre estão quebrados. Também falta treinamento dos motoristas, pois existem dois modelos de plataformas elevatórias e, em uma delas, quase nenhum motorista sabe operar".

 

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Quando elevador trava, Bruno não embarca

A falta de manutenção dos elevadores destinados ao embarque e desembarque dos cadeirantes interfere também na viagem dos outros usuários do coletivo. "No sábado (8/2) aconteceu da plataforma travar. Todos os passageiros precisaram descer, porque a porta não fechava, então o motorista não poderia seguir viagem". Dois dias depois, nesta segunda-feira, a história se repetiu. "O elevador era diferente e a motorista não sabia operar. A plataforma ficou suspensa e a porta não fechava. Eu ia tirar foto, mas a motorista foi embora mesmo assim, com a porta aberta. O ônibus estava lotado", conta.


"Fico irritado com a falta de responsabilidade da Piracicabana e a EMTU por não fazerem a manutenção adequada e a falta de treinamento que deveriam dar aos motoristas. A empresa não se preocupa em checar se a plafaforma está funcionando antes de colocar o ônibus na rua", afirma.


Além dos problemas com as plataformas, a espera é um dos fatores que dificultam o transporte até a faculdade. "Alguns (ônibus) passam reto. Geralmente os motoristas são muito atenciosos, mas uma ou duas vezes por semana acontece de não pararem por só ter eu para embarcar e ninguém para desembarcar".


As dificuldades para chegar ao curso não desanimam o rapaz e não fazem com que ele queira abandonar os estudos. "Eu não desanimo, porque tenho muita vontade de estudar. Mas não dá para aguentar as dores o tempo todo por esse tipo de transporte".


Por outro lado, a atitude de algumas pessoas deixa o estudante desanimado. "Fico inconformado com os passageiros. Eles me veem como um atraso. Como se aquele um ou dois minutos que eu gasto para subir e descer do ônibus fosse responsável pela demora da viagem. Isso sim me desanima. Faz com que eu me sinta indesejado naquele ambiente", conclui.


Petição


Jackson Paula, de 38 anos, também mora em Praia Grande e passa pelas mesmas dificuldades do colega Bruno. Ele tem uma doença neuro-muscular chamada amiotrofia espinhal progressivo tipo 2, que afeta a musculatura e permite, atualmente, que Jackson movimente apenas o pescoço, a face e a mão esquerda.


O estudante, matriculado no curso de Direito, mora na Vila Caiçara e precisa pegar dois ônibus para chegar até a Universidade Católica de Santos (Unisantos), onde estuda. "A minha estrutura física não suporta os trancos dos ônibus todos os dias. Eu uso o transporte público, mas saio pouco, umas duas vezes por semana. Os meus músculos são muito fracos, então sempre quando eu uso o ônibus fico todo dolorido e com o pescoço duro. Minha coluna e quadril doem bastante. Não vou aguentar essa rotina diariamente, por 5 anos"

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Limitações de Jackson não impediram que ele participasse do trote de Direito no primeiro dia de aula

Na luta pelo direito de ter um transporte adequado para levá-lo até a faculdade, Jackson criou uma petição na internet, com o objetivo de divulgar a sua história e chamar atenção das autoridades. A lista, em três dias, conseguiu mais de mil assinaturas.


> Assine aqui a petição


A ideia de criar a lista de assinaturas surgiu depois que Jackson teve resposta negativa dos órgãos que procurou. "A Prefeitura está sendo muito contraditória, pois ela fala que não tem obrigação e nem recursos para nos atender, pois ensino universitário é de responsabilidade do governo federal. Mas a mesma prefeitura fornece 80 vales-transportes universitários para quem estuda fora da cidade, e também oferece 100 bolsas de estudos em uma faculdade local".

 

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Em três dias, petição teve mais de mil assinaturas

"Com a petição pretendo colher o maior número possível de assinaturas daqueles que sabem que não estamos pedindo nada demais, queremos ter apenas as mesmas condições para poder estudar dignamente. Afinal, Justiça é trazer a igualdade entre os desiguais e, às vezes, a lei que determina isto não está escrita. Depende apenas do bom senso", afirma Jackson.


Ainda segundo o calouro em Direito, a busca pelo transporte público começou em outubro do ano passado, antes mesmo de ter a confirmação de que entraria na faculdade.


Jackson foi aprovado no vestibular em primeiro lugar pelo Programa Universidade para Todos (Prouni). Ele conta que, até o ano passado, não havia concluído o Ensino Fundamental. “Fiquei 23 anos sem estudar, não tinha nem a 8ª série completa. Algo me fez querer voltar a estudar e, em seis meses, eu terminei a 8ª série. Fiz parte do Ensino Médio, fiz o Enem e fui bem. Prestei três vestibulares e fui aprovado nos três”.


"Eu só consegui ir no primeiro dia de aula, porque o pessoal do centro acadêmico fez questão de dar um jeito de vir me pegar para participar do trote, algo marcante para qualquer pessoa que sonha entrar em uma faculdade. Eles acharam que não seria nada justo eu perder isso", diz Jackson.



Praia Grande


A Prefeitura de Praia Grande informa que "o Ensino Superior não está compreendido como competência constitucional do Município na área educacional, logo, não é possível (por parâmetros legais) investimentos por parte da Administração para realizar a ação, uma vez que são proibidos gastos com recursos educacionais para fins diversos do disposto na legislação".


A Prefeitura informa ainda que 100% de sua frota de ônibus municipal está adaptada e apta a receber passageiros com deficiência. O transporte escolar gratuito só é disponibilizado para alunos matriculados em escolas da rede municipal (ensino infantil e fundamental) que ficam no perímetro de dois quilômetros de distância de onde residem e crianças com necessidades especiais (deficiência auditiva), matriculados em um dos quatro pólos educacionais voltados para este público.


A Administração Municipal diz também que a Secretaria de Educação (Seduc) realizou, entre os dias 10 e 14 de janeiro, inscrição para 80 bolsas de transporte escolar gratuito para universitários. Essa bolsa em questão custeia o transporte em ônibus intermunicipal.


EMTU


Em nota, a EMTU/SP informa que na região da Baixada Santista a frota dos ônibus metropolitanos é de 520 veículos e 90% deles, ou 465 ônibus, já são acessíveis. A empresa informa ainda que diariamente os ônibus passam por vistorias técnicas que incluem itens de segurança e condições gerais do veículo, inclusive as condições das rampas e dos elevadores para deficientes e cadeirantes.


"Quanto à reclamação de que os operadores não sabem ou desconhecem a forma de manusear o equipamento,  informamos que as empresas responsáveis tem em sua grade de cursos, um específico para a operação dos elevadores instalados nos ônibus urbanos da região. Estes cursos são acompanhados por técnicos". Já com relação à denúncia de que os motoristas não param no ponto quando o usuário dá o sinal, a empresa solicita que o passageiro anote o número do ônibus, dia  e o horário da ocorrência para que o condutor seja advertido e reorientado quanto às normas de atendimento aos usuários.


Viação Piracicabana


A Viação Piracicabana afirma que "todos os ônibus que compõem a frota, sem exceção, passam pela manutenção preventiva de todos os itens, incluindo os cintos de segurança". "Os equipamentos, principalmente os elevadores, são testados e revisados antes de saírem da garagem, resultando em um número muito reduzido de ocorrências de falhas nessas plataformas", diz a nota.  A empresa afirma ainda que em caso de quebra ou acidentes durante o percurso, os motoristas são orientados a entrar em contato com a empresa, avisar o ocorrido e seguir as orientações para o reparo na hora, quando é possível, ou ainda, recolher o ônibus para a garagem, onde é realizado o reparo necessário para voltar a operar normalmente.


A empresa reforça que os motoristas passam por treinamento "constante, no qual, além de informações sobre postura de atendimento para idosos e pessoas com deficiência, são orientados sobre o manuseio e funcionamento dos elevadores. A empresa conta com dois tipos de equipamentos: um hidráulico e outro pneumático. O sistema operacional é igual em todos os equipamentos, não existindo variação em seu modo de operar".


Com relação à conduta dos motoristas, a empresa ressalta que "todos passam por treinamento constante, onde são tratados, entre outros, a postura de atendimento". Os usuários que, de alguma forma se sintam lesados pelos condutores podem registrar uma reclamação pelo 0800-771 7778 informando a linha, horário, prefixo do ônibus, e se possível o nome do motorista,que é convocado pela empresa e orientado sobre a sua conduta e postura profissional.


 

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