Laire José Giraud se aposenta como despachante, mas não para pesquisa

Agora, Lairé se dedicará a sua paixão: o resgate do passado do complexo marítimo

30/10/2017 - 12:51 - Atualizado em 30/10/2017 - 13:31

Giraud têm mais de 4,5 mil fotos e cartões postais retratando o Porto e a Cidade (Foto:Fernanda Luz/AT)

Aos 73 anos, o despachante aduaneiro Laire José Giraud entregou seu credenciamento na Alfândega, encerrando uma carreira de 43 anos no desembaraço de cargas no Porto de Santos. Deixou de lado a rotina do escritório, no Centro de Santos, e uma mesa repleta de documentos urgentes, para se dedicar ao descanso da aposentadoria e ao lazer. Mas nem por isso vai abandonar o amor que tem pelo passado e pelo presente do cais santista, seus navios e a Cidade – e que o tornou uma referência no estudo da história do complexo marítimo. 

Laire iniciou a carreira como ajudante de despachante aduaneiro aos 26 anos. À época, o desembaraço de uma carga levava, ao menos, sete dias e eram muitos os documentos necessários. O trabalho era duro e as idas ao cais, diárias. “Isso tudo me custou duas pontes de safena. A pressão dos clientes era demais. Hoje, com a informática e esses avanços todos, tudo mudou. Hoje, se faz tudo pela internet”, afirmou. 

Nesses 43 anos, não faltaram casos curiosos e cargas inusitadas que desembaraçou no principal porto do Brasil. A lista inclui a importação de café da África, em uma época em que o produto brasileiro era muito caro e empresários buscaram opções fora do País. E ainda houve a exportação de 10 mil toneladas de paralelepípedos, para o piso de um estacionamento em Boston, nos Estados Unidos. A importação das chapas de aço utilizadas na construção da Ponte Rio-Niterói, na década de 70, também passou por suas mãos. 

“Certa vez, embarcaram vários contêineres com casulos de bicho da seda para o Japão e os bichinhos começaram a nascer e andar pelo navio. Isso causou pânico e foi preciso mudar o sistema para evitar que eles saíssem andando”, relembra o despachante hoje aposentado. 

Laire acompanhou de perto várias mudanças no Porto, desde a implantação de novos terminais até, mais recentemente, a adoção de sistemas de inteligência e controle remoto para a fiscalização das mercadorias. Uma realidade bem diferente da que encontrou quando entrou na profissão, época em que o meio de comunicação mais utilizado era o Telex. “Lembro do dia em que um cliente alemão me perguntou qual era o número do meu fax. Eu não tinha ideia do que era aquilo, mas não podia dizer que não sabia do que se tratava. Na Europa, já era usado e eu corri para comprar e não ficar atrás. A gente precisa se modernizar sempre”, comenta. 

Do passado, as melhores lembranças remetem à convivência diária com outros profissionais em pleno cais, o que hoje não é permitido por questões de segurança. Até fiscais da Receita Federal mais criteriosos estão na memória. Alguns viraram amigos, assim como colegas de profissão, principalmente os vinculados ao Sindicato dos Despachantes Aduaneiros de Santos e Região, entidade cuja diretoria passa a integrar agora. “Participar do sindicato e da Soamar (Sociedade Amigos da Marinha) me deu a oportunidade de conhecer muitas pessoas e ampliar meu leque de amizades. O trabalho no Porto me proporcionou muitas coisas boas como esta”, destacou.

Para Laire, largar a profissão não foi fácil 
(Foto: Fernanda Luz/AT)

Aposentadoria

Há oito anos, os filhos de Laire, Roberta e Gustavo, começaram a atuar no setor portuário. Hoje, os dois são responsáveis pela empresa, a W. Port Aduaneira e Logística. Em casa, o suporte é da esposa, Creuza, parceira há 43 anos.

Largar a profissão não foi fácil, admite o agora ex-despachante. “Fiquei relutando em entregar o credenciamento na Alfândega e fui segurando. Mas eles já estavam levando aqui e, assim, passei o bastão para a Roberta e o Gustavo. Agora eles vão tocar. Fiquei meio perdido nos dois primeiros dias. Comecei a ficar triste. É uma mudança brusca, a gente fica tonto quando para. Estou me sentindo como um camarada bem trajado, bem vestido, mas com o sapato fora de sintonia, mas estou me acostumando”. 

Em breve, mais um livro

Recém-aposentado como despachante aduaneiro, Laire José Giraud pretende se dedicar a seus maiores prazeres. Autor de seis livros sobre a história do Porto e da Cidade, ele já planeja preparar o sétimo. Seu acervo com mais de 4,5 mil imagens, entre fotografias e cartões postais, será a base para o próximo trabalho. 

A paixão pelo Porto e seus navios foi uma influência do pai, Laire Giraud. “Meu pai era médico do Instituto dos Marítimos, do Sindicato dos Operários Portuários. Tudo isso vai influenciando. Ele gostava muito de navios e me contava muitas coisas. Íamos para a Ponta da Praia ver os navios saindo e eu ficava fascinado”, contou. 

Parte da coleção de cartões-postais e fotografias é herança do pai. No início, Laire encarava as imagens como uma lembrança mas, aos poucos, se apaixonou pelos registros das escalas de embarcações no Porto e dos cenários da Cidade. Entre os navios, o preferido é o português Vera Cruz, que transportou milhares de imigrantes para o País, inclusive seu avô em uma das idas a sua terra natal. 

Essa paixão pelos navios de passageiros deu origem a dois livros: Transatlânticos em Santos, seu preferido, e Transatlânticos de Cruzeiros Marítimos.

 Laire ainda é autor de Photografias e Fotografias do Porto de Santos, com imagens antigas do cais santista, e Cia Docas, editado em comemoração aos 500 anos do Descobrimento do Brasil e que retrata a construção do segundo trecho do cais, entre Paquetá e Outeirinhos, em 1902. Já Memórias da Hotelaria Santista mostra parte da história do turismo santista.

A Tribuna

Laire também atuou como colaborador de A Tribuna ao escrever a coluna Memória, onde contava histórias de navios e falava sobre antigas operações do cais santista. Ele estima que tenha feito mais de 200 artigos e lembra com saudades dos agitos da redação ao som das máquinas de escrever. 

Mas o gosto pelo jornalismo vem de muito antes, de quando ainda estava aprendendo as primeiras palavras e se mantém vivo até hoje. E a prioridade continua a mesma: o Porto. “A primeira vez que li o caderno Porto & Mar de A Tribuna foi em 1952 (ano em que a editoria foi lançada), quando tinha 7 anos e nunca mais parei. Passei por todos os repórteres e editores. É a primeira página que leio todos os dias. Costumo ouvir quando entregam o jornal e já logo pego para ler. Primeiro as notícias do Porto e depois, o resto”. 

Uma história com Laire

Era início de 97 e eu tinha apenas seis meses de jornal. Estava produzindo matérias para o caderno de aniversário de Santos, e uma das pautas era procurar personagens da Cidade que colecionassem cartões postais e fotos antigas. Pauta boa pra procurar quem? O Laire, claro! E lá fui eu para o escritório dele na Martim Afonso, aqui bem perto do jornal.

Eu não o conhecia, mas assim que entrei, a receptividade foi tão grande que logo sumiu a pressa característica de todo jornalista. Um quadro específico na parede de seu escritório me prendeu a atenção, e logo o Laire percebeu. “O que você tanto olha nesse quadro?”, perguntou. Era do navio Vera Cruz, um vapor que durante anos trouxe centenas de milhares de portugueses para o Brasil. Entre eles, minha mãe, no início dos anos 60, então uma jovem com pouco mais de 20 anos. Deixava sua aldeia pela primeira vez. E para tão longe!

Hoje com 80 anos, minha mãe sempre falava do Vera Cruz com certa saudade, como se lembrasse do momento em que deixou do outro lado do Atlântico sua família, os namoricos, os sonhos, as amigas da aldeia. Mas vinha em busca de trabalho, como tantos outros naqueles idos de 50/60. 

Contei pro Laire essa passagem e a tristeza que minha mãe sentia por não ter sequer uma imagem do Vera Cruz. Ele apenas perguntou o nome dela e continuamos a entrevista.

Três ou quatro dias depois, fui surpreendida por um pacotinho em cima da minha mesa, na Redação do jornal. Estava sem remetente, apenas o meu nome escrito. Lá dentro havia um tesouro: um cartão-postal do Vera Cruz, original, e um bilhete do Laire pra minha mãe: “Dona Maria Rosa, receba esta lembrança para que a senhora tenha sua história sempre presente”. Nem acreditei!

Incrédula também ficou a minha mãe quando cheguei na casa dela com o Vera Cruz enquadrado, em um daqueles almoços em família. 

O porta-retratos está na sala dela até hoje, em local visível, para que ela sempre guarde sua história. E eu, a minha com o Laire!

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