Aos 63 anos, estivador se torna gestor portuário

Agora, Geraldo Abreu pensa em dar um salto na carreira e seguir novos rumos

26/02/2017 - 17:29 - Atualizado em 26/02/2017 - 17:44
 Graduação aconteceu na última terça-feira (21) , no Clube de Regatas Vasco da Gama (Foto: Irandy Ribas)

Iniciar um curso de graduação e acrescentar a rotina de estudos ao dia a dia é uma tarefa que requer muito esforço e dedicação. Mas para Geraldo Abreu, de 63 anos, esse desafio teve ainda um outro sentido: a possibilidade de dar um salto na carreira e seguir novos rumos. Mas o estivador, que está há 49 anos no Porto de Santos, nem pensa em abandonar o ambiente marítimo agora que se tornou um gestor portuário. 

Geraldo frequentou, por três anos, a Faculdade de Tecnologia (Fatec) Baixada Santista – Rubens Lara, que fica no bairro Aparecida, em Santos. O curso escolhido, Gestão Portuária, foi o que mais se relacionava com a rotina e com a paixão do aluno pelo Porto de Santos.

“Eu acho que, antes de escolher um curso, é preciso saber o que ele vai abordar. Pensei: vou fazer faculdade para saber, aprender e descobrir se o que eu fiz era o certo. A gente estuda para depois trabalhar. Eu fui criando dentro do meu trabalho aquilo que eu aprendi depois, durante os três anos, para ver se eu tinha feito aquilo certo”, destaca o gestor portuário.

Para ele, todos os trabalhadores deveriam buscar novos conhecimentos, relacionados ou não com a atividade profissional. Por isso, ele já soma 28 cursos em diversas áreas. Mas a graduação é o grande trunfo e a porta para novos caminhos profissionais.

A graduação aconteceu na última terça-feira, no Clube de Regatas Vasco da Gama, na Ponta da Praia. Agora, o gestor portuário já pensa em estender os estudos para uma pós-graduação, também direcionada ao setor.

“No meu desempenho profissional, a faculdade vai agregar porque, como eu conheço Porto, cais, armazenagem e logística, para mim, vai ser tudo mais fácil. Mas eu tenho outro objetivo, que é fazer pós em Direito Marítimo, porque aí sim eu vou usar uma coisa que eu gostaria de fazer”, destaca.

Os planos do estivador incluem ainda voos mais altos. Geraldo cogita pleitear uma vaga de emprego em terminais portuários instalados na Região Nordeste, como outros colegas fizeram. Segundo ele, alunos da própria Fatec garantiram uma colocação profissional no Pará, estado que está em forte expansão portuária por conta da implantação de Terminais de Uso Privado (TUPs) voltados às operações de granéis sólidos de origem vegetal.

“A primeira coisa, em qualquer lugar, é gostar do que faz. É preciso isso. Quem quer pode e quem pode faz, sempre”.

Desafios

Geraldo precisou vencer algumas barreiras quando decidiu ingressar em uma universidade. Ele teve de cursar o Ensino Médio em uma unidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA). Os três anos foram concluídos no prazo de sete meses.

“Eu comecei tudo ao contrário, trabalhei muito cedo. Arranjei emprego na farmácia, mas não era isso o que eu queria. Queria o Porto, que era o emprego da época. Ensacador, estivador e eu enveredei pelo caminho do trabalho. Foi dando certo e eu fui ficando, mas acabei deixando os estudos em segundo plano”, relembra.

Outro grande desafio foi conciliar as aulas e o trabalho no cais santista. Mas, para ele, isso foi fácil e faz parte da receita do sucesso dentro da vida profissional. “É preciso começar a trabalhar antes da faculdade para saber o que se quer, onde há chance. É preciso ter um objetivo na vida”, destaca. 

Convivência

Geraldo passou parte dessa experiência para os colegas de sala de aula. Alguns tinham a idade do seu neto mais velho, 21 anos. Mas, a diferença de gerações não foi empecilho para uma convivência saudável que vai deixar saudades. 

“No começo foi meio difícil, mas é bom demais depois. Tenho os amigos do grupo e a molecada. Todos são meus amigos, assim como os velhos. Eles são fora de série. Alguns me chamam de segundo pai. A Gestão Portuária, para mim, foi uma realização pessoal e profissional”. 

Qualificação mostra mudança de perfil

Geraldo Abreu é o primeiro estivador a concluir o curso de Gestão Portuária na Faculdade de Tecnologia (Fatec) Baixada Santista – Rubens Lara, que fica no bairro Aparecida, em Santos. Mas, além dele, outros 19 profissionais procuraram o Ensino Superior para ampliar conhecimentos ou dar uma guinada na carreira. 

Para o especialista em Recursos Humanos (RH), Fabio Sartori, da Sartori Desenvolvimento Humano e Organizacional, essa busca dos estivadores é resultado das mudanças que ocorreram se setor portuário e na legislação nos últimos anos. 

“O Porto mudou, a necessidade de se reinventar passa por qualificação profissional e comportamental também. Há uma tendência forte e o estivador que não olhar com atenção para qualificação vai diminuir a empregabilidade no mercado, que é exigente”, destaca. 

Para ele, com o passar do tempo, e principalmente após a promulgação da nova Lei dos Portos, a nº 12.815, de 2013, o perfil do portuário foi modificado. 

“Esse trabalhador, agora, é alguém que conhece as atividades. Alguém que tem comprometimento forte com a empresa a que está se candidatando, tem flexibilidade e aceita mudanças e novas tendências. Não pode ser tão engessado na ideia inicial e deve ser alguém com comportamento adequado à cultura e aos valores da empresa”, destaca Sartori. 

Para o consultor portuário Sérgio Aquino, essa mudança de postura do trabalhador portuário é natural diante das mudanças impostas pelo setor nos últimos anos. Isto porque, segundo ele, o modelo atual substitui a capacitação física pela capacitação intelectual. 

“Primeiro é preciso reconhecer a dedicação e a preocupação desses trabalhadores em buscar ampliação de qualificação. Isso mostra que os trabalhadores que buscam se aperfeiçoar terão condições diferenciadas nas oportunidades”.

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