Justiça condena assassino de dentista a 25 anos de prisão

Laudo necroscópico revelou morte por asfixia; Jeremias Batista, de 55 anos, ainda furtou pertences da vítima antes de fugir

19/09/2018 - 21:40 - Atualizado em 19/09/2018 - 22:32

Jeremias (foto) conheceu Pedro pela internet e, no
segundo encontro, matou a vítima (Alberto Marques/AT)

Cinco mulheres e dois homens sorteados para julgar Jeremias César Batista, de 55 anos, pela morte por asfixia do dentista Pedro Garcia Fernandes Neto, de 53, o consideraram culpado pelo crime, em julgamento realizado nesta quarta-feira (19) no Fórum de Santos. A pena fixada foi de 25 anos de reclusão, sem direito de recorrer em liberdade.

O veredicto foi anunciado pelo juiz André Diegues da Silva Ferreira, às 21h30. O Conselho de Sentença reconheceu a tese de que foi cometido um latrocínio (roubo seguido de morte), sustentada pelo promotor Fernando Reverendo Vidal Akaoui e pelo advogado Armando de Mattos Júnior, assistente da acusação.

A advogada Andréa Dias Poli, defensora do réu, argumentou que ele não teve intenção de matar o dentista e nem assumiu o risco de provocar a sua morte. Ela queria que os jurados o condenassem por roubo e homicídio culposo (sem intenção), decorrente de suposta imprudência ao ministrar 15 comprimidos do calmante Lorax à vítima.

Jeremias e Pedro se conheceram pela internet. Após os primeiros contatos virtuais, eles combinaram um encontro real. Casado e pai de seis filhos, o réu viajou de ônibus de São Paulo, onde morava, até Santos, no dia 13 de março de 2016. O crime aconteceu no apartamento da vítima, na Avenida Almirante Saldanha da Gama, na Ponta da Praia.

O dentista era solteiro e residia só. Laudo necroscópico revelou que ele morreu de asfixia e detectou lesões internas na traqueia. Segundo o promotor e o advogado assistente da acusação, além da superdosagem de Lorax que o réu ministrou à vítima, ele imprimiu força física no pescoço de Pedro para forçá-lo a ingerir o medicamento.

Para reforçar a finalidade patrimonial do crime, Armando de Mattos destacou aos jurados que Jeremias roubou vários objetos do dentista e ainda utilizou cartões bancários da vítima com as respectivas senhas para obter dois empréstimos de R$ 10 mil cada. O promotor Akaoui acrescentou que o réu fazia desse tipo de delito um meio de vida.

Imagens flagraram Jeremias e Pedrinho caminhando na Ponta da Praia antes do crime (Reprodução)

Outra vítima do réu depõe no júri 

“Ele fala tudo aquilo que você quer ouvir. Percebeu que eu estava carente. Consegue enrolar qualquer um porque tem uma boa lábia”. A declaração foi de um homem, ouvido nesta quarta-feira (19) como testemunha no Plenário do Júri.

Antes de o dentista ser morto em Santos, a testemunha foi vítima de Jeremias, em São Paulo, e não teve dúvidas em reconhecê-lo durante o julgamento. Ela e o réu se conheceram em uma sala de bate-papo na internet e combinaram um encontro real.

De forma dissimulada, ainda conforme a testemunha, Jeremias a dopou amassando com um garfo comprimidos de Lorax em bolinhos de bacalhau. Os salgadinhos foram comprados em um bar para ambos o consumirem no apartamento da vítima.

Após o seu alvo perder a consciência, Jeremias roubou objetos de valor do apartamento e fugiu. A vítima ficou desacordada durante três dias. Recobrou os sentidos desidratada porque foi deixada despida ao lado de uma janela, exposta ao sol.

“Fiquei quatro dias hospitalizado e, até hoje, faço tratamento psicológico. Foi um trauma”, finalizou o homem. Além dele, mais sete testemunhas depuseram em Plenário, entre as quais um delegado e três investigadores que esclareceram a morte do dentista.

Jeremias dopou a vítima com 15 comprimidos de Lorax; remédio foi achado na casa do réu  (Alberto Marques/AT)

“Foi um acidente terrível, que acabou com duas vítimas”

Jeremias foi interrogado por aproximadamente uma hora e começou procurando minimizar a sua conduta: “Foi um acidente terrível, que acabou com duas vidas”, referindo-se a si próprio e ao dentista.

O réu argumentou não ter cogitado a morte de Pedro, mesmo após o juiz observar que a bula do Lorax prevê a morte na hipótese de superdosagem. Jeremias ministrou 15 comprimidos do medicamento ao dentista.

Na época da morte de Pedro, Jeremias viajou de ônibus de São Paulo para Santos portando documento falso. Condenado por roubo, na modalidade conhecida por Boa Noite, Cinderela, ele era foragido da Justiça, porque não retornou ao presídio após ser contemplado com o benefício de saída temporária.

O acusado alegou ter dado 15 comprimidos de Lorax ao dentista, porque essa quantidade seria a recomendada para golpes do Boa Noite, Cinderela, conforme lhe ensinaram especialistas na modalidade criminosa, que classificou de “banal”.

Ainda conforme Jeremias, ele aplicou o golpe contra o dentista e mais quatro vítimas, todas de São Paulo, porque passava por dificuldades econômicas. Porém, o promotor ressalvou que o réu confessou à polícia mais crimes em outros estados.

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