Após 12 anos foragido, ex-presidente da Sangue Jovem tem crimes prescritos e reaparece

Condenado a 13 anos de reclusão por tráfico, associação para o tráfico e porte ilegal de arma, ele cursa Direito em Santa Catarina

19/08/2018 - 10:35 - Atualizado em 19/08/2018 - 14:38

Ricardo Przygoda: com penas prescritas, ele voltar
para Santos (Foto: Rogério Soares)

O apelido de Gordo ficou para trás já faz algum tempo. Com 40 quilos a menos, o ex-presidente da Torcida Sangue Jovem, Ricardo Przygoda, vira agora mais uma página de sua vida, deixando no passado a decisão judicial que o condenou a 13 anos de reclusão.

No último dia 8 de agosto, prescreveram duas penas de cinco anos cada referentes aos crimes de tráfico de drogas e associação para o tráfico. Em 6 de agosto de 2015, já havia prescrito sanção de três anos por porte ilegal de arma de fogo.

Sem dever mais nada à Justiça, Przygoda é um homem livre. Quer reconstruir a sua vida trabalhando como advogado criminalista, voltar a morar em Santos, sua cidade natal, e poder acompanhar os jogos do time de coração, na Vila Belmiro e em outros estádios, sem correr o risco de ser capturado.

Em entrevista exclusiva para A Tribuna, ele conta sobre a sua prisão em flagrante por crimes considerados graves, a absolvição em primeira instância, a condenação em segundo grau e, a partir desta decisão, os 12 anos durante os quais ostentou a condição de procurado, embora tenha se matriculado em uma faculdade de Direito com o nome verdadeiro.

Vamos começar pelo fim. Como você conseguiu ficar 12 anos foragido até ser beneficiado pela prescrição?

Eu me senti injustiçado com a condenação e no direito de me evadir. Não pegaram nada comigo e o que acharam não era meu. Não aprenderia nada na cadeia e nela só regrediria. Então, decidi sair de Santos, mas nunca usei um documento falso.

Para onde você foi e como se manteve durante esse tempo?

Fui para Santa Catarina e não trabalhei nesse período para reduzir os riscos de ser descoberto e preso. Minha família é de classe média, tem uma estrutura e me ajudou. A minha esposa trabalhou por mim e por ela.

A sua mulher foi com você para o Sul desde o início? Vocês tem filhos?

Ela ainda ficou em Santos por uns seis anos, porque poderiam investigá-la para me localizarem. Depois, se mudou. Não temos filhos.

A escolha por Santa Catarina teve algum motivo?

Por causa da minha descendência europeia (polonesa), não chamei a atenção pela aparência. Sou loiro, de olhos azuis e isso auxiliou a me inserir no ambiente.

Sem trabalhar no Sul, não fazia nada?

Decidi cursar faculdade de Direito. Eu me matriculei na faculdade com o RG, a certidão de nascimento, o Título de Eleitor e o Certificado de Dispensa de Incorporação verdadeiros. Como falei, nunca falsifiquei um documento. Comecei a estudar e estou no 9º semestre. Completei 46 anos de idade e me formo na metade de 2019. Quero advogar na área criminal.

Mas não achou arriscado ser descoberto cursando a faculdade?

Sim, mas quis e precisava seguir a vida. Quero ser reconhecido como uma boa e nova pessoa. Na chamada de classe, os professores dizem o meu nome e sobrenome. Sempre tive medo de alguém fazer uma pesquisa no Google e aparecer tudo lá.

Como era a sua rotina diária?

De casa para a faculdade, da faculdade para casa. Estudo de manhã para evitar exposição. Não frequento bares, baladas. Nada de vida social. Vivia na sombra, sem amigos. Meus contatos eram restritos aos colegas de classe. Nunca estagiei em escritório de advocacia para não aumentar o risco. Estágio, só o obrigatório, da própria faculdade, atendendo a população carente.

Na época da Sangue Jovem, você era conhecido por Gordo. Mas agora está bem magro. Só foi regime?

Pesava 115 quilos. Estou com 75 agora. A minha vida mudou em tudo. Pratico meia maratona. Saí de Santos para mudar todo o meu conceito de vida.

Mas vai querer voltar a morar em Santos?

Sim, sinto saudade da Cidade, mas vou me formar antes em Santa Catarina. Termino o curso na metade do ano que vem e volto para Santos para trabalhar, residir e retomar a minha vida.

Pretende retornar à Sangue Jovem?

Fui fundador da torcida e presidente por duas gestões. Quero retornar sim à agremiação e também ao Conselho Deliberativo do Santos. Era conselheiro quando tive os meus problemas do passado, mas não fui eliminado, apenas afastado.

Como avalia a condição atual do seu time de coração?

Como santista, acredito que ele vai se recuperar no Campeonato Brasileiro. Porém, o mais importante é que todas as correntes políticas do clube se unam em prol do Santos.

Agora a parte menos agradável. Em fevereiro de 2003, policiais do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) apreenderam quase 20 quilos de cocaína e quatro pistolas em um apartamento da Rua Governador Pedro de Toledo, no Boqueirão. O que teria a dizer sobre o assunto?

O material não era meu, não tinha nada ver com o apartamento. Fui preso no bar que tinha na Vila Belmiro, sem nada. O porteiro do prédio disse em juízo que nunca me viu lá e fui absolvido na 6ª Vara Criminal, mas depois o Tribunal de Justiça decidiu me condenar.

Chegou a ficar quanto tempo preso e em quais locais?

Fiquei preso quase um ano, até ser absolvido (em 9 de janeiro de 2004). Passei pelos CDPs (centros de detenção provisória) do Belém e de Osasco. Depois, o Ministério Público recorreu e o Tribunal de Justiça me condenou (em 12 de abril de 2006). Porém, antes que fosse expedido o mandado de prisão, fui para o Sul.

Na última segunda-feira (dia 13), a juíza Silvana Amneris Rolo Pereira Borges, da 6ª Vara Criminal de Santos, declarou extinta a sua punibilidade, em razão da prescrição desde o dia 8, e expediu o seu contramandado de prisão. Na quinta-feira, você já estava na Cidade. Veio por algum motivo especial?

Fui ao Poupatempo providenciar a emissão de vias atualizadas de alguns documentos, falar com o meu advogado (João Manoel Armôa Júnior) e rever amigos e familiares, mas já estou retornando a Santa Catarina. Não quero perder as aulas na segunda-feira.

Resumo processual

Ricardo Przygoda foi defendido inicialmente pelo advogado Walter de Carvalho e o juiz Frederico dos Santos Messias, da 6ª Vara Criminal de Santos, o absolveu em 9 de janeiro de 2004. O Ministério Público apelou e o TJ-SP condenou o réu a 13 anos por tráfico, associação para o tráfico e porte ilegal de arma, em 12 de abril de 2006.

Devido ao falecimento de Carvalho e após a condenação se tornar definitiva, o advogado João Manoel Armôa Júnior foi constituído por Przygoda. Em 12 de setembro de 2014, a juíza Silvana Amneris Rôlo Pereira Borges indeferiu pedido da defesa para declarar prescrito o porte de arma. Armôa recorreu e o TJ-SP reconheceu a prescrição deste delito, em 6 de agosto de 2015. No último dia 13, Silvana Borges declarou prescritos o tráfico e a associação para o tráfico. 

Veja Mais