CAS diz que Valcke garantiu acordo milionário para filho em Copacabana para Copa

Ex-secretário teria usado posição dentro da Fifa para ajudar filho com parceiros comerciais da Fifa

24/09/2018 - 16:21 - Atualizado em 24/09/2018 - 16:45

Valcke foi demitido e banido do futebol (Foto: Philipp Schmidli/Getty Images Sport)

Principal responsável na Fifa pela organização da Copa do Mundo de 2014, Jérôme Valcke operou nos bastidores para que seu filho conseguisse comissões de R$ 2,8 milhões para montar um stand na praia de Copacabana durante o torneio. Os detalhes do caso fazem parte dos documentos da Corte Arbitral dos Esportes (CAS, na sigla em inglês) que revelam ações do ex-secretário-geral da Fifa, afastado depois de o Estado e outros jornais revelarem como ele negociou entradas para jogos da Copa com redes de cambistas.

Demitido e banido do futebol, Valcke recorreu à CAS, em Lausanne Mas seu recurso foi rejeitado. De acordo com o tribunal, ele "usou sua posição dentro da Fifa para ajudar seu filho a obter remuneração de parceiros comerciais da Fifa".

Em 8 de julho de 2013, Valcke, o então diretor de marketing da Fifa, Thierry Weil, e o filho do cartola, Sébastian Valcke, viajaram até a cidade de Manchester para um encontro na sede da empresa EON Reality Inc., especializada em realidade virtual. De acordo com os documentos da CAS, Valcke mantinha uma relação com a empresa, especializada em fazer hologramas.

"Naquela reunião, EON apresentou uma nova tecnologia que poderia ser usada na Fan Fest da Fifa no Rio de Janeiro, durante a Copa", disse o documento. O holograma, em questão, era da taça da Copa do Mundo, que acabou atraindo milhares de pessoas para a praia de Copacabana.

Weil, em um depoimento, disse que a ideia da reunião veio de Valcke, "com base numa proposta de seu filho". "Jérôme veio a mim e disse que seu filho tinha uma empresa que fazia algo realmente especial que seria completamente novo e não tinha sido visto antes", disse Weil. "Isso poderia ser de interesse da Fifa", completou. Segundo ele, Valcke sugeriu que os dois fossem até a Inglaterra visitar a empresa.

Depois do encontro, a equipe de Weil manteve as negociações com a EON, em nome da Fifa. Em 16 de janeiro de 2014, um contrato de serviço foi assinado entre a empresa e a organização esportiva.

Os documentos revelam como Valcke se envolveu diretamente para garantir o contrato a seu filho. Em vários e-mailS, ele "aconselhei seu filho sobre como conduzir as negociações (com a Fifa) e negociar sua posição com a EON". Valcke, como secretário-geral da Fifa, era o responsável por organizar a Copa, o que também incluía a Fan Fest.

Em 18 de julho de 2013, por exemplo, Valcke escreveu para seu filho para orientar como deveria ser o contrato de Sebastien com a empresa. Dez dias depois, o contrato estava assinado. Em 28 de agosto, Valcke enviaria ao filho uma lista de itens que teriam de ser realizados para que projeto avançasse.

Em 27 de outubro de 2013, Sébastien escreveria a seu pai contando a conversa que teve com o presidente da EON, Lejerskar. Se ele convencesse a Fifa a assinar o contrato, seria compensando em um primeiro momento por US$ 709 mil (R$ 2,887 milhões, na cotação atual).

Valcke então orientou seu filho sobre quem ele deveria contactar dentro da Fifa para fechar o acordo. "Entre com contato com Thierry (Weil). Diga que você o explicará as novas condições de um acordo com a Fifa", escreveu. "No dia 4 de novembro de 2013, Sébastien Valcke enviou um e-mail a seu pai para dizer que a Fifa havia respondido positivamente e que pediria que Weil enviasse o contrato de serviço FIFA-EON para ser assinado", relata o documento.

Dez dias depois, Valcke enviaria outro e-mail a Weil perguntando se ele iria finalizar o acordo com seu filho. "Weil imediatamente respondeu que a Fifa enviaria o acordo no mesmo dia", indicou o documento, que aponta que o pai ainda enviaria a informação a seu filho.

Em 16 de janeiro de 2014, EON e a Fifa assinaram um acordo de serviços e, no dia 13 de fevereiro de 2014, a Fifa pagou para a EON US$ 709 mil, exatamente o valor da comissão do filho de Valcke.

O caso ainda revela como Valcke agiu nos bastidores para garantir ingressos no mercado negro e ainda fez a Fifa gastar mais de US$ 11 milhões (R$ 44,8 milhões) em jatos privados em três anos para suas viagens e de sua família. As viagens incluíram destinos como o Taj Mahal, na Índia, e encontros com o emir do Catar.

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