Cláudia Coutinho supera afogamento do pai e vira nadadora

Filha do ex-treinador da seleção brasileira e Flamengo, Claudio Coutinho, ela se tornou médica e compete em águas abertas

18/03/2018 - 15:38 - Atualizado em 18/03/2018 - 16:47

Cláudia é médica especialista e atleta master de natação em águas abertas (Foto: Natasha Guerrize/Divulgação)

O baiano Dorival Caymmi disse, em uma de suas mais célebres canções, que é doce morrer no mar. A delicadeza em relação às águas poderia ter terminado para a carioca Cláudia Coutinho naquele 27 de novembro de 1981. Aos 16 anos, ela perdeu o pai, Cláudio Coutinho, técnico da Seleção Brasileira terceira colocada na Copa de 1978, na Argentina, e do Flamengo, campeão carioca de 1978-1979 e brasileiro de 1980. 

Coutinho curtia férias – ele treinava o Los Angeles Aztecs, dos Estados Unidos –, e praticava um de seus hobbies, a pesca submarina, nas Ilhas Cagarras, arquipélago localizado a cinco quilômetros da Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro. Ele morreu afogado, aos 42 anos, mas não enterrou o amor pelo mar da filha. Aos 53 anos, é atleta master de águas abertas há 18, além de médica especialista em esporte, área pela qual se interessou a partir de 2011.

“Minha paixão pelo mar veio dele. Cheguei a mergulhar com ele, porém em Angra (dos Reis) e em Búzios. Minha ligação é anterior ao que aconteceu com ele. A morte dele causa impacto em mim até hoje. Não há um dia em que eu não pense nele. Mas o mar não tem culpa disso”, comenta Cláudia, que participou no sábado (17) do Simpósio de Alta Performance, na Unimes (Universidade Metropolitana de Santos).

Ao contrário do irmão Paulo César Coutinho, o Cascão, que foi até dirigente do Flamengo, Cláudia nunca ligou muito para futebol. “Ele ia até para o banco com meu pai, mas eu não podia entrar no vestiário”, conta, rindo. 

A superstição, porém, estava presente. “Achava que tinha que ficar andando na rua, pois dava mais sorte. Mas, se na hora do gol, minha mãe tivesse bebendo água e minha tia, no banheiro, no jogo seguinte era igual”, relembra.

A projeção do pai causava embaraços para os filhos. Pequenos e grandes. Enquanto Cláudia era apresentada como a “filha do Coutinho”, o irmão teve problemas sérios durante o Mundial de 1978. “Ele tinha 10 anos e estudava no São Bento, um colégio de homens. Os outros garotos faziam-no comer terra se meu pai não escalasse o jogador que eles queriam. Minha mãe teve que tira-lo de lá”, conta.

Chamar o Brasil de campeão moral da Copa da Argentina, em função da suspeitíssima goleada sofrida pelo Peru diante dos donos da casa, que acabaram erguendo a taça, foi criação de Cláudio Coutinho. Tanto quanto as expressões overlapping (deslocamento sem a bola para atrair a marcação), ponto futuro (fazer a jogada com o companheiro pensando onde irá receber a bola mais à frente) e polivalência (atuar em várias funções), comuns há tempos e, na época, estranhas.

“Acredito que o tempo fez justiça. Ele estava muito à frente. Trouxe ciência e compilou muito de outras escolas, como estudioso que era, dando a visão dele. Ser lembrado depois de quase 37 anos da morte dele é um reconhecimento incrível”, afirma Cláudia. Doce mesmo, parafraseando Caymmi, é viver na memória do futebol.

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