Profª Lisete defende maior exploração do turismo na Baixada Santista

Candidata do PSOL é a primeira professora da USP a se candidatar ao Governo do Estado

03/09/2018 - 15:27 - Atualizado em 03/09/2018 - 15:27

Em entrevista, professora criticou atuação do PSDB no Governo do Estado (Foto: Folhapress)

Primeira professora da Universidade de São Paulo (USP) a concorrer ao Governo do Estado, Lisete Arelaro é a única mulher a disputar o cargo nas eleições deste ano. A docente se diz surpresa com o volume de problemas e equívocos de gestão cometidos pelo PSDB ao longo dos últimos 24 anos em diversas áreas, em especial educação, saúde e segurança. 

Lisete é defensora de consórcios intermunicipais e acredita que o turismo na região precisa ser mais bem explorado. Se eleita, ela declara que a população terá voz ativa na tomada das decisões de governo.

O que motivou a senhora a disputar esse cargo?

Fiquei absolutamente surpresa ao assistir a votação da aprovação da Emenda Constitucional 95, que ficou conhecida como a “PEC (Proposta de Emenda Constitucional) do fim do mundo” por congelar os investimentos públicos por 20 anos. Não há nenhuma experiência no mundo ocidental que tenha aprovado uma irresponsabilidade desse gênero. Em seguida, vi a aprovação da reforma trabalhista, que retirou, em uma tarde, mais de 100 artigos que custaram 80 anos para conquistarmos. É impossível assistirmos a isso e acharmos que está tudo bem. Por isso, coloquei meu nome à disposição do PSOL e tive o privilégio de ser escolhida por unanimidade. Estamos aqui nesta ousadia salutar e pedagógica de disputar o Governo do Estado.

A interligação viária entre as cidades da Baixada Santista pelo transporte intermunicipal tem deficiências. Como melhorar o serviço? A sra. pensa em alternativas de transporte, como ferrovias ou veículos leves sobre trilhos (VLTs)?

Existe um atraso nas balsas, uma demora que não tem sentido. Existem embarcações mais modernas. E fico surpresa pelos governos não investirem na modernização desse sistema. Ao contrário de um dos meus adversários, que já anunciou que vai privatizar esse serviço, vejo que essa medida é um dos grandes equívocos cometidos pelo PSDB em todas as áreas. Sou favorável à construção de um túnel (entre Santos e Guarujá), com passagem do VLT, bicicletas e pedestres. Sei que temos um VLT que poderia atender outras cidades da região, de Guarujá a Praia Grande. A gente fica surpresa ao se deparar com algumas coisas após 24 anos de PSDB. Isso também foi uma motivação para disputar o governo, após observar as irracionalidades cometidas pelos tucanos, que se apresentam como bons gestores. Não tenho dúvidas de que se tivermos mais ônibus, com diversas opções de linhas, teríamos um atendimento bastante razoável. Vamos adotar o bilhete único estadual para permitir que o cidadão pague menos nos transportes, porque muitas pessoas não conseguem circular por falta de dinheiro. Implantaremos a tarifa zero aos finais de semana e feriados. Os nossos pedágios são quase pornográficos. No primeiro mês de governo, vamos reduzir em 50% o preço dos pedágios para poder estudar os contratos. 

A Região Metropolitana tem um Conselho de Desenvolvimento, o Condesb, com representação paritária dos nove municípios e do Estado. Porém, como a maioria das prefeituras é governista, costumam prevalecer pontos de vista do Palácio dos Bandeirantes em decisões colegiadas. Qual a possibilidade de que, em uma gestão sua, o Condesb tenha maior autonomia para fazer valer de forma prioritária as decisões municipais?

Sou uma defensora de consórcios intermunicipais. Acho que os municípios trabalham, em geral, muito voltados para si mesmos e perdem uma visão mais ampla de sua própria cidade. Portanto, apoio muito um movimento que tenha alguma característica de uniformidade. O que falta para o funcionamento autônomo é, de fato, se o Governo do Estado e as prefeituras abrirem o debate. O PSDB não pergunta nada para ninguém. Eles são a verdade, o caminho e a luz. Não estão interessados no que a população pensa e nem admitem que ela possa ter sugestões mais competentes do que a dos dirigentes. Se você abre a discussão para o povo, sempre surgem propostas e é criada uma convergência que não seja voltada às grandes empresas. Sem exageros, o lobby praticamente domina a maioria dos conselhos e consórcios. Portanto, podemos chegar a um bom equilíbrio. Não temo ter adversários políticos por serem prefeitos de outros partidos. Quando há o interesse da população, essas divergências se acomodam.

De janeiro de 2011 a julho deste ano, o Estado destinou R$ 74,71 bilhões do total arrecadado nesse período para o financiamento de obras, instalações e equipamentos. Se o conceito de divisão per capita desses recursos fosse respeitado pela Administração, as nove cidades juntas, que concentram 4,05% dos habitantes, deveriam ter recebido o montante de R$ 3,025 bilhões e não R$ 1,406 bilhão, o equivalente a 1,88% do total. Como reverter isso? 

Podemos defender o direcionamento de recursos com base no número de habitantes, mas precisamos olhar a região como um todo. O dinheiro precisa ser voltado para toda a região. No início dos anos 1970, achava estranho que Santos, que já era considerado um município rico, tivesse várias palafitas e fiquei surpresa que ainda temos essa realidade. Parece que nada foi feito. Faltou política pública e decisão política para acabar com essa realidade. Além da distribuição per capita dos recursos, precisamos dirigir alguns investimentos para solucionar problemas graves e que agora são crônicos.

Historicamente, a Baixada Santista ocupa as últimas colocações em expectativa de vida e mortalidade infantil do Estado. O que precisa ser melhorado na região em termos de saúde pública?

Com uma atuação minimamente competente, é possível melhorar significativamente o serviço. Vamos fortalecer o trabalho de prevenção, mas precisamos ter mais leitos de UTI neonatal e pediátrica. Precisamos ter o SUS funcionando bem nos municípios e ter uma boa retaguarda para salvar a vida de crianças. Precisamos rever as parcerias público-privadas para qualquer coisa. De fato, o atendimento médico em hospitais comandados por organizações sociais (OSs) não é melhor do que a administração direta. Tenho visitado grandes hospitais estaduais que foram terceirizados e constatei algo que já foi denunciado no último relatório do Tribunal de Contas do Estado (TCE), como a falta de pessoal e a quarteirização (empresas terceirizadas que subcontratam outras empresas para a execução dos serviços). As filas dos hospitais continuam e a população segue sem ser atendida. Vou rever os contratos. 

Depois da Capital, consta que a nossa região tem o maior deficit habitacional do Estado. Como e em que cidades agir, de forma prioritária, para amenizar a situação?

Temos na Baixada Santista muitos terrenos vazios. Em Guarujá, por exemplo, os ricos invadiram as áreas que quiseram e não aconteceu nada. Quando os pobres fazem um pequeno acampamento, a polícia já está em cima ou não faz absolutamente nada para eles. Precisamos avançar na regularização fundiária. Se nada foi feito há mais de dez anos, que tal reconhecer o direito de o cidadão permanecer naquela comunidade e investir para ter escola e posto de saúde? É bom lembrar que uma norma da Constituição é a função social do terreno e da moradia. Em São Paulo, a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional Urbano) está praticamente às moscas. Se você tem um órgão para a construção de moradias populares, que tem um acúmulo de tecnologia muito interessante, está na hora de termos um programa para priorizar essas áreas mais antigas.

Qual vocação econômica da região seu eventual governo pretende explorar? Ou, ainda, que aspectos econômicos menos explorados hoje poderão ser fontes de emprego, renda e desenvolvimento socioeconômico

A vocação natural da região é o turismo. De uma maneira geral, a gente valoriza muito pouco esse setor como uma fonte de renda e de geração de empregos. A Baixada Santista praticamente não recebe turistas estrangeiros. Trabalhadores de outros países podem vir para a região, que tem um turismo nacional. Temos várias possibilidades de crescimento, como o hostel, que é um turismo mais barato. Podemos incentivar o ecoturismo, estimulando a realização de trilhas e passeios diferentes, atraindo mais pessoas para as pensões. 

Dados oficiais apontam que a região está atrás do Interior do Estado no que se refere à atração de investimentos privados. Que características da Baixada Santista devem ser mais bem aproveitadas, no seu ponto de vista, para se diminuir essa diferença perante outras localidades?

Precisamos ter um mínimo de infraestrutura para ser uma região competitiva. Se abandonar as obras desse tipo e o Estado não bancar o investimento, não avançaremos. As firmas irão para lugares onde o acesso é mais fácil. A ligação Santos-Guarujá está atrasada há décadas. A falta de investimento é uma opção política e não um impeditivo financeiro. Precisamos ver onde o dinheiro vem sendo colocado. 

A sra. considera que, independentemente de quem vencer as eleições presidenciais, o Porto de Santos, que está sob administração federal, precisa ter gestão compartilhada com Estado e prefeituras portuárias ou, então, ter seu controle transferido para Estado e municípios?

Já ouvi alguns prefeitos reivindicando que algumas questões fossem exclusivas dos municípios. Sei que Santos critica o Governo Federal, mesmo tendo bons amigos lá, por causa de problemas que não foram solucionados porque a União não quis. Vejo que o Porto de Santos necessariamente tem que ser uma ação de cooperação interfederativa. Não temos tradição nisso. Quando entra a União, nós achamos que ela deve mandar. Esse é o equívoco. Precisamos ter uma gestão tripartite. 

São Paulo é o estado mais rico da federação, mas os indicadores do ensino aferidos na rede pública ainda deixam a desejar. Estruturas precárias e falta de valorização dos professores contribuem para o agravamento da situação. Se eleito, o que a sra. pretende fazer diferente no setor educacional?

Fico surpresa com o fato de o PSDB se apresentar como defensor da educação. Não conheço nenhum dirigente de ensino no mundo que tenha defendido o fechamento das escolas. Apesar de os estudantes ocuparem as escolas, derrubarem um secretário de Educação (Herman Voorwald, em dezembro de 2015) e o ex-governador (Geraldo Alckmin) ter se comprometido em suspender o fechamento das unidades, esse processo continua por meio do fechamento de salas de aula, que acontece diariamente. Isso é um processo deliberado de privatização do ensino. Quanto pior ficar, melhor. Temos uma rede tradicional com os professores mais bem titulados do Brasil. Portanto, não falta mão de obra qualificada. Pretendemos que os jovens tenham acesso à escola de tempo integral e ganhem uma bolsa de estudo para não trabalharem. Hoje, ao invés de manter uma sala com 32 alunos, temos 42. É como se estivéssemos discutindo sacos de farinha e não pessoas. Esse é o crime planejado pelo PSDB no Brasil e em São Paulo. A reforma do Ensino Médio que está se forçando a ser adotada no Brasil tem o PSDB como grande articulador, que é a Marina Helena Castro (ex-secretária estadual de Educação no governo de José Serra e ex-presidente do Inep durante a gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso). Essa medida representará a destruição do Ensino Médio para que parte do currículo seja feito a distância. Estamos em uma fase de destruição proposital da nossa juventude. Mexeremos no salário do professor. O estado mais rico do País não cumpre sequer o piso nacional do magistério. Isso é uma vergonha. 

Apesar da melhoria de alguns índices de criminalidade, a sensação de insegurança ainda é muito grande entre os moradores da Baixada Santista. Defasagem de policiais militares e civis, fechamento de delegacias e falta de estrutura e equipamentos são alguns dos problemas locais. Como é possível reverter isso?

Tenho conversado com alguns colegas e representantes dos sindicatos dos policiais civis e dos delegados e fiquei surpresa positivamente com a posição deles a respeito de vários temas. Primeiro, fiquei absolutamente surpresa que eles são favoráveis à desmilitarização da polícia. Existe um equívoco na política do Governo do Estado que diz, simplesmente, que violência se trata com violência. Os policiais cobram maior investimento em ciência e tecnologia. Na Polícia Civil, eram 41 mil integrantes na década de 1990 e, hoje, esse número é de 27 mil. O normal era ter 50 mil. A PM teve aumento do efetivo, mas há reclamação de que muitos fazem trabalho burocrático. Eles dizem que algumas armas estão antigas e falta treinamento para manusear as novas. Há uma desorganização que apenas beneficia o PCC. O Estado peca na ausência de políticas sociais. 

A senhora gostaria de fazer mais alguma consideração aos eleitores?

Fiquei assustada ao tomar conhecimento da gravidade e da irresponsabilidade de permitir a construção da cava subaquática (em Cubatão). Espero que toda a Baixada Santista tenha a consciência de que isso vai prejudicar toda a população. Chegou a hora da rebelião dos prefeitos. Se eles quiserem ser lembrados com o mínimo de dignidade, precisam se posicionar contra essa obra. Quem se calar neste momento será maldito na história. 

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