''O Estado precisa ser mediador de projetos regionais", diz major Costa e Silva

Candidato a governador por São Paulo abre série de entrevistas de A Tribuna

20/08/2018 - 15:26 - Atualizado em 20/08/2018 - 15:27

Major Costa e Silva é candidato pelo partido Democracia Cristã, antigo PSDC (Foto: Irandy Ribas/AT)

O major Costa e Silva (DC) é o primeiro entrevistado de uma série que A Tribuna publicará nos próximos dias com os candidatos ao governo do estado. A ideia dessas entrevistas é mostrar aos eleitores o que os concorrentes ao Palácio dos Bandeirantes pensam a respeito da Baixada Santista e de diversos assuntos relacionados ao dia a dia do cidadão, como educação, geração de empregos, saúde e segurança. A segunda entrevista da série será com o candidato Cláudio Fernando de Aguiar (PMN) e sairá publicada no próxima sexta-feira (24). 

O que motivou o senhor a disputar esse cargo?

A gente tem aquele hábito de reclamar que são sempre os mesmos políticos, que nada muda e que é melhor anular o voto. Como via novamente os mesmos de sempre se candidatando neste ano, resolvi tirar a farda e colocar a cara na rua para ser uma opção para os eleitores de São Paulo. Ao contrário de outros nomes que já vinham trabalhando há muito tempo para viabilizar suas candidaturas, eu apenas comecei a fazer um trabalho nesse sentido há poucos dias, porque ainda precisava me descompatibilizar do cargo no Exército, o que só é possível três meses antes da eleição. Terei como adversários representantes de alguns partidos com muito mais recursos do que a Democracia Cristã. Será uma campanha com base na sola de sapato, rede social e muito boca a boca para conquistar os eleitores que buscam a renovação, novos valores e outros rumos para o País.

A interligação viária entre as cidades da Baixada Santista pelo transporte intermunicipal tem deficiências. Como melhorar o serviço? Pensa em alternativas de transporte, como ferrovias ou veículos leves sobre trilhos?

Penso que poderia haver uma espécie de parceria entre as prefeituras e o Governo do Estado para determinadas demandas, como já existe na Capital, com as linhas de metrô e trens. Entendo que hoje as ferrovias e algumas obras viárias de grande porte sempre são necessárias, principalmente aquelas que permitem você sair do núcleo urbano, desviando das áreas mais centrais. Em Santos, uma das áreas mais complicadas é a região da entrada da Cidade pela Via Anchieta. As carretas têm apenas uma única entrada para o Porto. Sou entusiasta da ideia de ampliar a malha ferroviária e recriar uma ligação entre a Baixada Santista e a Grande São Paulo. Temos também de melhorar o escoamento de cargas para o Porto. No ano passado, tivemos o cancelamento de uma grande compra de grãos por parte da China, porque nosso modal logístico não atendia a demanda. Temos de ter uma nova ligação rodoviária para essa finalidade e concretizar o projeto da Rodovia de Parelheiros, uma nova estrada da Capital com o Litoral Sul. Não tivemos grandes obras de infraestrutura nos últimos anos. Estamos à beira de um apagão logístico em São Paulo.

A Região Metropolitana tem um Conselho de Desenvolvimento, o Condesb, com representação paritária dos nove municípios e do Estado. Porém, como a maioria das prefeituras é governista, costumam prevalecer pontos de vista do Palácio dos Bandeirantes em decisões colegiadas. Qual a possibilidade de que, em uma gestão sua, o Condesb tenha mais autonomia para fazer valer de forma prioritária as decisões municipais?

Vejo que o Estado deve atuar como um conciliador, como um julgador de prioridades. Ninguém melhor do que o próprio prefeito ou munícipe para saber o melhor para sua cidade, para sua região. O Estado não consegue chegar tão próximo da população para conhecer a fundo seus problemas, demandas e vicissitudes. O Estado precisa ser um mediador para viabilizar projetos regionais. A ideia é fazer um governo onde os prefeitos tenham maior participação junto ao Governo do Estado para trazer demandas e seus problemas.

De janeiro de 2011 a julho deste ano, o Estado destinou R$ 74,710 bilhões do total arrecadado nesse período para o financiamento de obras e compra de equipamentos, por exemplo. Se o conceito de divisão per capita desses recursos fosse respeitado pelo governo paulista, as nove cidades juntas, que concentram 4,05% dos habitantes, deveriam ter recebido o montante de R$ 3,025 bilhões e não R$ 1,406 bilhão, o equivalente a 1,88% do total. Como reverter isso?

Com certeza é preciso mudar esse critério. O critério principal para a distribuição dos recursos deve ser o percentual da população atingida. Obviamente, existem grandes obras que irão favorecer mais de uma região e acabam tendo uma certa prioridade. Não dá para direcionar recursos a mais a determinados locais e deixar milhares de cidadãos desassistidos.

Historicamente, a Baixada Santista ocupa as últimas colocações em expectativa de vida e mortalidade infantil do Estado. Como melhorar a saúde pública na região?

Primeiramente, precisamos ter um trabalho de prevenção muito mais efetivo do que hoje. Embora isso seja uma atribuição das prefeituras, penso que o Estado poderia atuar mais forte nessa questão, dando mais apoio às cidades. Ainda precisamos avançar bastante nas questões relacionadas ao saneamento básico e à construção de novas moradias populares, pois a região tem um grande número de favelas e ocupações irregulares. Se a gente conseguir avançar nessas questões, conseguiremos dar um salto importante. Queremos construir centros de excelência para atendimentos mais complexos em cada macrorregião. Assim, os atendimentos mais simples e pequenas cirurgias poderão ser feitos em hospitais de menor porte. Isso vai garantir uma melhor aplicação dos recursos estaduais no setor. Em relação aos exames, a melhor alternativa é a parceria público-privada (PPP) para atender mais rapidamente essa demanda.

Depois da Capital, consta que a nossa região tem o maior déficit habitacional do Estado. Como e em que cidades agir, de forma prioritária, para amenizar a situação?

Estou trabalhando em um projeto para trazer para o Estado a construção de smart cidades, que são minicidades construídas no entorno dos grandes centros a fim de atender a população de baixa renda, mas com algumas diferenças em relação ao que é feito hoje. Uma delas é a aplicação de métodos de construção mais rápidos e baratos. Temos centros de pesquisa de excelência formando engenheiros que podem desenvolver projetos para essa demanda. Por exemplo: existe uma técnica de construção realizada na China que é uma casa pré-moldada com paredes feitas a partir da mistura de concreto com polímero. Hoje, se você pegar um contêiner de 40 pés, é possível fazer três casas completas, de 65 metros quadrados e dois quartos cada. Um grupo de cinco homens consegue montá-las em pouco mais de uma semana. O custo da unidade deve sair na casa dos R$ 65 mil, mas temos tecnologia para fazer algo semelhante a um custo menor ainda. A ideia é que esses novos centros tenham infraestrutura para a instalação de pequenos comércios e uma área mais próxima, com isenção de impostos ou outros benefícios, para atrair empreendimentos comerciais de grande porte, gerando emprego para a população do entorno.

Qual vocação econômica da região seu eventual governo pretende explorar? Ou, ainda, que aspectos econômicos menos explorados hoje poderão ser fontes de trabalho, emprego, renda e desenvolvimento socioeconômico?

A Baixada Santista fica um pouco saturada pela presença dos turistas paulistanos. Quando chega um feriado, todo mundo quer descer para o Litoral. Isso gera uma grande demanda para o setor do turismo, mas essa vinda em massa vem diminuindo por conta da crise. Essa é a oportunidade para investirmos mais e atrair pessoas de outras regiões do Estado e do Brasil para conhecer a Baixada Santista. Temos o Porto de Santos que não consegue desenvolver mais seu potencial por conta dos gargalos logísticos. Com novas obras de infraestrutura e novos acessos ao Porto, ele poderá ampliar sua capacidade, o que ampliará o número de vagas de emprego no serviço, comércio e transporte, bem como a circulação de dinheiro nas cidades da região.

Dados oficiais apontam que a região está atrás do Interior do Estado no que se refere à atração de investimentos privados. Que características da Baixada Santista devem ser mais bem aproveitadas, no seu ponto de vista, para se diminuir essa diferença perante outras localidades?

A região tem uma dificuldade geográfica, que é a Serra do Mar. Isso provoca um isolamento, o que impede o crescimento da região. Se a gente melhorar a infraestrutura e viabilizar essas grandes obras de mobilidade para facilitar o escoamento da produção brasileira, vamos conseguir superar essa dificuldade.

Sob administração federal, o Porto de Santos precisa ter gestão compartilhada com Estado e prefeituras locais ou, então, ter seu controle transferido para o Estado e municípios?

O ideal seria que as prefeituras tivessem um papel de responsabilidade na gestão dos portos, como acontece em países desenvolvidos. A gente centraliza muitas responsabilidades e questões administrativas no Governo Federal, que não tem como gerenciar todas as peculiaridades de Brasília. Sou a favor que os municípios tenham maior participação sobre suas áreas. Acho que deveria haver uma parceria entre União, Estado e prefeituras para gerenciar o Porto de Santos. Não dá para o gestor local ficar de braços cruzados vendo os erros que estão acontecendo.

São Paulo é o estado mais rico da federação, mas os indicadores do ensino aferidos na rede pública ainda deixam a desejar. Estruturas precárias e falta de valorização dos professores contribuem para o agravamento da situação. Se eleito, o que senhor pretende fazer diferente no setor educacional?

A área educacional é a mais importante das responsabilidades do Estado. Segundo um presidenciável, o professor que quisesse ganhar dinheiro teria de trabalhar na rede particular de ensino. Acho que este senhor nunca foi professor e nunca sentou para conversar com um para entender o que se passa na cabeça de um docente. Assim como os militares, os professores procuram essa profissão por vocação. E é o amor pela docência que faz muitos seguirem trabalhando, mas ninguém vive só de amor. A questão remuneratória é importante, mas não posso te dar um posicionamento hoje sobre este aspecto, porque não tenho ainda a perfeita noção das contas públicas do Estado. A falta de reconhecimento torna o trabalho mais duro. Precisamos devolver ao professor o respeito que é merecido. O aluno precisa reconhecê-lo como a primeira autoridade fora de sua casa. O professor é alvo de xingamentos e agressões hoje. O menor infrator, com ligação com o tráfico de drogas, já ameaça o docente e decide se ele pode ou não dar aula. Esse profissional não tem a chance de se aperfeiçoar. Recentemente, eu conheci um professor da Capital que estava morando na própria escola, com a autorização da direção, porque o salário líquido dele era de R$ 1,8 mil e ele gastava R$ 950 em uma pós-graduação para viver a sua vocação. O docente precisa ter novamente o poder de reprovar o aluno. Precisamos acabar com os turistas na escola, apenas para mostrar nas estatísticas que está tudo bem. Temos que trazer esses números para a realidade por mais feia que ela seja. Vamos garantir o ensino das matérias básicas sem ideologia. Escola não é lugar de doutrinação política. Sou favorável ao retorno das disciplinas de Educação Moral e Cívica e de Organização Social e Política do Brasil. Precisamos voltar a desenvolver nas crianças o sentimento patriótico.

Apesar da melhoria de alguns índices de criminalidade, a sensação de insegurança ainda é muito grande entre os moradores da Baixada Santista. Defasagem de policiais militares e civis, fechamento de delegacias e falta de estrutura e equipamentos são alguns dos problemas locais. Como é possível reverter isso?

Vou sair do micro para o macro. O policial militar está saindo de casa hoje com o colete vencido, com uma arma de eficiência duvidosa e munição velha. Se você perguntar para qualquer policial a última vez que ele foi a um estande de tiro, alguns nem vão lembrar, mas a gente sempre está cobrando o PM de estar na rua, em condição de usar, se necessário, aquela a arma e o proíbe de atingir qualquer pessoa, inclusive um bandido. Temos um Ministério Público que, ao ver um bandido morto por um policial, parte do princípio que o policial é um assassino e o bandido era uma vítima. Hoje nós não damos respaldo ao nosso policial, que vai para rua sozinho, sem o apoio da instituição e do Estado. O governador é o chefe da PM, mas nunca se posiciona assim e se coloca como um ente político à parte e sempre é o primeiro a apontar o dedo. Também está errado o governador se aproveitar de um caso de repercussão para se autopromover enquanto político, sem dar o respaldo para o policial. Falta de efetivo existe, mas talvez o cenário não seja tão grande assim. Se você for à Secretaria de Segurança Pública, você verá dois PMs atendendo, fazendo o trabalho de recepcionista ao invés de estarem na rua. O mesmo acontece no Palácio dos Bandeirantes, que tem um efetivo enorme de PMs. Outros exemplos devem ocorrer no Estado. Não podemos subempregar o policial.

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