Fracasso e racha interno levam PSDB à crise; Paulo Alexandre é enquadrado

Para diretório paulista do PSDB, prefeito de Santos precisa decidir entre Doria e França

11/10/2018 - 10:54 - Atualizado em 11/10/2018 - 11:13

Paulo Alexandre posou com para foto com o deputado estadual Caio França e apoiadores (Foto: Divulgação)

O fraco desempenho do ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) na disputa presidencial deste ano, a resistência de tucanos em apoiar João Doria (PSDB) ao Palácio dos Bandeirantes e a possibilidade de a sigla perder o comando de São Paulo após 24 anos evidenciam a maior crise da história da sigla. A situação se refletiu até mesmo na Baixada Santista, com o prefeito de Santos Paulo Alexandre Barbosa causando questionamentos sobre de que lado está na disputa estadual entre Doria e o governador Márcio França (PSB), candidato à reeleição.

Após a agremiação ter sido a grande vencedora do pleito de 2016, por poder comandar 28 das 92 cidades do País com mais de 200 mil eleitores, como Praia Grande, Santos e São Paulo, o ex-governador ficou na quarta colocação na corrida ao Palácio do Planalto, com 4,76% dos votos válidos (5.096.349).

Um dos pivôs da crise é França, que herdou o cargo em abril, quando Alckmin renunciou para concorrer a presidente. A ideia inicial de ter um único candidato governista no Estado caiu por terra com a decisão de Doria de deixar a Prefeitura da Capital, após ter vencido as prévias do partido.

Com essa situação, tucanos optaram por deixar a legenda para continuar no Estado com França, como o subsecretário de Assuntos Metropolitanos, Edmur Mesquita.

Outros passaram a integrar a gestão, como o secretário de Educação, João Cury, e foram expulsos. Há quem admita campanha para a reeleição do governador, como o vereador vicentino Felipe Rominha, e esteja com um pé fora do PSDB.

O presidente do Conselho Estadual de Ética e Fidelidade do partido, Raul Christiano, informou não haver mais nenhuma denúncia, em análise, de supostos casos de infidelidade partidária por filiados da região.

Rominha foi chamado pela direção executiva estadual da sigla a se manifestar. Christiano disse que apresentará, na segunda-feira, um relatório para pedir a expulsão do vereador. A decisão caberá à direção paulista.

Nesse pedido, Christiano solicitará à agremiação que peça explicações aos outros vereadores do PSDB na cidade – Joseval Rodrigues Bezerra, o Jabá, e Higor Ferreira –, que estariam fazendo campanha para o deputado estadual Caio França (PSB). “Em sua defesa, o Rominha apresentou fotografias que mostravam os colegas com o Caio”.

Rominha ressalta que o compromisso dele sempre foi com o ex-governador Geraldo Alckmin e com Márcio França. Julga que seu pedido de expulsão se deva ao fato de não cumprir a orientação do PSDB para apoiar a candidatura de Doria.

“Colocaram o nome do Doria goela abaixo. E eu mantive meu compromisso. Não mudei a minha palavra. Estou muito tranquilo”. E completa: “O PSDB acabou pelo fato de a vaidade estar acima da ideologia. As eleições deste ano mostraram isso. Nosso candidato a presidente teve apenas 4% dos votos de todo o País. Se for expulso, saio de cabeça erguida, pois ajudei a legenda, que nunca existiu de fato em São Vicente”.

A Tribuna contatou Jabá, mas a assessoria do vereador explicou que ele viajou às pressas para a Alagoas para visitar o pai, hospitalizado. Higor Ferreira estava em reunião, na tarde desta quarta-feira (10) e pediu para a Reportagem ligar depois, mas ele não foi encontrado.

Paulo Alexandre recebe França de braços abertos na entrada da Prefeitura (Foto: França Vanessa Rodrigues/AT)

Enquadro

“O Paulo precisa saber o que ele quer da vida. Ele tem que deixar claro onde vai ficar: apoia o João Doria (PSDB) ou o Márcio França (PSB) na disputa do segundo turno para o Governo do Estado”.

A frase, relacionada ao prefeito de Santos, Paulo Alexandre Barbosa (PSDB), é do deputado estadual e presidente do diretório paulista do PSDB, Pedro Tobias.

Em entrevista para A Tribuna, o parlamentar deixou claro não ter gostado da atenção que Barbosa deu a França na segunda-feira (8), quando o governador veio à Baixada Santista agradecer aos eleitores pela votação na região.

Na chegada ao Palácio José Bonifácio, Barbosa recebeu o governador de braços abertos e com entusiasmo. França falou à imprensa ao lado do tucano, muito próximo a Geraldo Alckmin (PSDB).

Além desse gesto, a Reportagem teve acesso a duas imagens. Em uma delas, Barbosa está ao lado de uma mulher. Ambos seguram uma camisa amarela com os dizeres “Márcio França, acredito em você”.

Na outra foto, o prefeito aparece com um grupo de guardas municipais ao lado do deputado estadual Caio França (PSB) e tem colado à camisa um adesivo com o número deste.

“O Paulo é meu amigo e vamos conversar pessoalmente na próxima semana. O ato de receber um governador é algo institucional. Mas precisamos ser honestos com nós mesmos. Quem é do PSDB precisa apoiar candidaturas do partido. Caso contrário, é melhor sair”, ressaltou.

Tobias nega que Doria tenha pedido a expulsão do prefeito do PSDB. A assessoria do candidato a governador diz o mesmo. O presidente do Conselho Estadual de Ética e Fidelidade do partido, Raul Christiano, afirma não ter recebido nenhum pedido.

“O Paulo Alexandre é um cara diferenciado. É uma pessoa muito próxima do Geraldo Alckmin e uma grande liderança estadual e nacional do PSDB”, diz Christiano. A Tribuna tentou contato com Barbosa, mas sem sucesso até a publicação desta matéria.

Raul destaca importância de se discutir os
rumos do partido (Foto: Alberto Marques/AT)

"Pior momento"

Fundador do PSDB, o jornalista Raul Christiano já observou altos e baixos desde 1988, mas este “é o pior momento da história” da legenda. 

O tucano acredita que, desde 2013, já havia indícios que era necessário discutir os rumos da sigla. Naquele ano, ocorreram grandes protestos populares, e muitos manifestantes tinham repulsa por partidos. O mesmo se viu nas mobilizações de 2015 e 2016 que defendiam o impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT). 

“O PSDB não parou para pensar sobre o momento que estava atravessando”, disse. Na visão de Christiano, a legenda foi para a eleição deste ano com feridas e fraturas expostas. 

“Precisamos pensar em uma refundação do PSDB ou de um freio de arrumação (controle da situação). O partido passa por uma fadiga de material”, destacou.

O presidente estadual da legenda, Pedro Tobias, alegou que a imprensa, às vezes, exagera, mas admite uma crise na sigla, principalmente após o mau desempenho nas urnas de Geraldo Alckmin (PSDB) na disputa para a presidência. “Se o PSDB não ganhar o Governo de São Paulo, a crise vai ficar muito mais aguda”, desabafou. 

Mestre e doutorando em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP), Rafael Moreira destacou que o PSDB vive divisão interna há anos. Também sofre com a renovação político-partidária do campo da direita, em razão do crescimento do PSL e do Novo, que absorveu parte do eleitorado cativo dos tucanos. 

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