Após eleições, analistas já projetam cenário para disputas municipais em 2020

Enfraquecimento de legendas tradicionais e conservadorismo podem alterar panorama na região

10/10/2018 - 16:31 - Atualizado em 10/10/2018 - 17:17

Corrida pela Prefeitura de Santos pode ter a presença de novas figuras (Foto: Luigi Bongiovanni/AT)

Assim que acabam as eleições, é comum cientistas políticos, dirigentes partidários e jornalistas começarem a esboçar e projetar cenários para o pleito seguinte. Baseiam-se no desempenho das urnas de alguns nomes, devido às peculiaridades de cada cidade. Porém, o panorama local poderá ter grandes variações, dependendo dos vencedores para a Presidência da República e o Governo do Estado. O recado dos cidadãos no pleito deste ano ainda precisará ser digerido pelos caciques partidários para se definirem estratégias às disputas municipais de 2020, segundo especialistas consultados por A Tribuna.

Para a cientista política Clara Versiani, as eleições atuais derrubaram certezas, como a influência do tempo de TV e do dinheiro arrecadado para a consolidação de um nome. “Além disso, ficou evidente que a gente não tinha noção da força das redes sociais, e ficou comprovado que elas podem servir tanto para o bem como para o mal”, disse ela, que é professora das universidades Santa Cecília (Unisanta) e Metropolitana de Santos (Unimes).

Na visão dela, partidos tradicionais que perderam força, como o PSDB, podem chegar enfraquecidos em 2020. Um panorama muito diferente de 2016, quando a sigla elegeu sete dos nove prefeitos da Baixada Santista. A consolidação de candidaturas mais conservadoras e o fortalecimento do PSL podem ocorrer, caso Jair Bolsonaro saia vencedor da disputa presidencial.

O coordenador do Instituto de Pesquisas A Tribuna (IPAT), Alcindo Gonçalves, concorda com Clara ao dizer que o Brasil passa por um período de transformações político-partidárias, devido ao encolhimento de grandes bancadas no Congresso Nacional e à consolidação nacional do PSL.

“Temos de verificar se o comportamento dos eleitores de uma profunda rejeição vai se manter em 2020 ou se teremos uma acomodação de uma nova realidade que será criada. É um quadro confuso que causará impacto”, justificou.

Gonçalves, também cientista político, entende que aqueles que tiveram bom desempenho nas urnas ganham cacife para disputar as próximas eleições majoritárias.

Um exemplo nesse sentido é Kenny Pires Mendes (PP), que nunca escondeu o desejo de comandar a Prefeitura de Santos. No último domingo (7), ele foi eleito deputado estadual com 117.567 votos.

Em Santos, o futuro parlamentar obteve 64.855 sufrágios. O desempenho dele na Cidades superou o de Paulo Alexandre Barbosa (PSDB) em 2010 (59.997), quando disputava a reeleição à Assembleia Legislativa. Dois anos depois, o tucano foi eleito prefeito.

Outro nome que sai fortalecido nesse processo é o da jornalista Rosana Valle (PSB), que se elegeu deputada federal e pode ser uma opção da sigla para disputar o Executivo.

De outra forma, o deputado federal João Paulo Papa (PSDB) sai enfraquecido para uma possível disputa em 2020 por não ter sido reeleito, segundo Gonçalves. Mas conta a favor do parlamentar o fato de ter tido um governo bem avaliado quando foi prefeito, entre 2005 e 2012.

Pela mesma lógica, São Vicente tem três potenciais candidatos ao Executivo em 2020: o deputado estadual Caio França (PSB), o federal eleito Júnior Bozzella (PSL) e o candidato Kayo Amado (Rede), que não conseguiu a vaga na Câmara, apesar dos 37.094 votos conquistados na Cida

Júnior Bozzella (PSL) e Kenny Mendes (PP) podem aparecer como candidatos ao Executivo (Foto: Reprodução)

Combinação

Doutor em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), André Rocha Santos crê que uma combinação dos resultados da eleição estadual e federal poderá reverter a onda conservadora.

“Caso o governador Márcio França (PSB) seja reeleito, ele dificilmente abrirá mão de lançar um nome do PSB para a Prefeitura de Santos. A vitória de Fernando Haddad (PT) para o Palácio do Planalto, aliada a um possível avanço na economia e à retomada da geração de empregos, e a reeleição de França podem resultar em uma maré de candidatos competitivos de centro-esquerda para as prefeituras da região”, explicou.

Votação vira credencial para 2020

A Rede Sustentabilidade perdeu a oportunidade de eleger, pela primeira vez, um deputado federal no Estado. Se a legenda tivesse alcançado pouco mais de 15 mil votos além dos obtidos no domingo, o vicentino Kayo Amado estrearia na Câmara Federal em de fevereiro próximo.

Ao obter 54.944 sufrágios, ele foi o nome mais votado na legenda para o Legislativo e já adiantou que disputará a Prefeitura de São Vicente, de novo, daqui a dois anos.

Em 2016, Amado superou nomes tradicionais da política e terminou o pleito na segunda colocação, com 48.641 votos. “Durante toda a campanha deste ano, fiquei respondendo à pergunta se seria ou não candidato a prefeito em 2020. Sei que muitas pessoas não votaram em mim por esse motivo”.

E completou: “Disseram que, em 2016, éramos apenas uma bolha, e provamos o contrário, fazendo agora 37.094 votos (em São Vicente), em um cenário com várias candidaturas. Existe um grupo político consolidado que não cede à essa pressão e a jogo de poder e dinheiro do (governador) Márcio França (PSB). E vamos encarar de novo esse desafio daqui a dois anos”.

A advogada Ana Paula Lourenço, de Guarujá, estreou na política neste ano. Os 23.709 sufrágios conquistados a deixaram como terceira suplente do Novo na Assembleia Legislativa. A sigla fez quatro das 94 cadeiras do Parlamento.

“Fiquei muito feliz por ter contribuído com o meu partido e ajudado a eleger pessoas muito comprometidas. Estou muito orgulhosa pelo meu desempenho. Foi uma experiência maravilhosa”, disse.

Ela admite que é uma “ilustre desconhecida” no Município por causa de sua atividade profissional, mas está disposta a participar do pleito de 2020. “Eu topo qualquer coisa. Quero e tenho o poder de fazer o bem, seja no Executivo, seja no Legislativo daqui a dois anos ou concorrendo a deputada estadual de novo”, destacou.

O diretor do Sindicato dos Petroleiros do Litoral Paulista (Sindipetro) Fábio Mello (PSOL) concorreu a deputado federal e obteve 7.679 votos, dos quais 3.111 em Cubatão, onde tem uma forte atuação política.

Na Cidade, ele teve desempenho inferior apenas ao de dois nomes eleitos – Rosana Valle (PSB, 8.566) e Eduardo Bolsonaro (PSL, 4.859).

“Foi um período curto de campanha e não deu para chegar em toda a Baixada Santista. Ela se restringiu à Zona Noroeste de Santos e a Cubatão. O resultado é reflexo da relação que tenho com os trabalhadores. Já estive hoje (ontem) na frente da refinaria defendendo o interesse deles”, afirmou.

Segundo o sindicalista, que tem domicílio eleitoral em Santos, onde teve 1.774 sufrágios, ainda é prematuro dizer o que será do pleito de 2020. Segundo ele, o partido ainda precisa discutir a questão. “O PSOL está crescendo. Vamos ver qual é a melhor forma de contribuir com a sociedade”, frisou.

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