Vítima de acidente, santista consegue superar o preconceito

História de Tejon, que teve o rosto desfigurado, assemelha-se ao drama Extraordinário, em cartaz nos cinemas

09/12/2017 - 20:03 - Atualizado em 09/12/2017 - 21:52

História do santista assemelha-se ao filme Extraordinário (Foto: Alberto Marques/AT)

Toda quinta tinha feira livre no bairro. Era nesse dia da semana que o menino José Luiz Tejon tinha que acordar cedo e fugir da mãe. Invariavelmente, escolhia o telhado da casa onde morava na Vila Belmiro para abrigar-se. Lá, dona Rosa não o alcançava e ele se livrava do horror de ir à feira. Com o rosto desfigurado por um acidente doméstico, enfrentar a rua era algo a ser evitado a todo custo. Até o dia que acordou, numa quinta, amarrado aos braços da mãe. Dona Rosa vencera e ele não teve como fugir da vida.

Tejon chegou ao Brasil, ainda na barriga de uma espanhola pobre, que não teve condições de criá-lo. Aprendeu a chamar de pais o casal que o adotou: seu Antonio, um português, e dona Rosa, alemã. Aos quatro anos, brincava no quintal, enquanto a mãe encerava a casa. Ela, para derreter e aproveitar o final da cera no fundo da lata, jogou um tanto de gasolina e ateou fogo. 

As chamas subiram e para evitar um incêndio, dona Rosa lançou a lata em direção ao quintal. Quis o destino que o menino Tejon estivesse correndo para a cozinha naquele exato momento, em que virou alvo das chamas. “Não morri por sorte. Quem salvou minha vida foi uma vizinha que conseguiu pular o muro com uma manta e abafar as chamas”, conta Tejon, hoje com 65 anos.

Em alguns momentos, a história do santista assemelha-se ao drama Extraordinário, que estreou esta semana nos cinemas do Brasil. Baseado no best-seller de mesmo nome – e em uma história real – o filme narra as experiências do pequeno Auggie, que nasceu com uma síndrome genética responsável por uma deformidade facial. 

Assim como o menino do filme, Tejon ficou anos semi-internado, passando por incontáveis cirurgias plásticas. “Ao contrário de Auggie, que de cara foi para uma escola regular, comecei os estudos em um colégio da Santa Casa de Santos, a escolinha Nossa Senhora de Lourdes, ao lado do hospital. Era uma escola para as crianças internadas. De certa forma, um ambiente protegido”.

Proteção

Mas Tejon não conseguiria viver em uma redoma. E foi na feira, que dona Rosa começou a mostrar-lhe isso. E também que seria possível enfrentar. Naquela época, os meninos ajudavam as mães na feira. “Mas a feira era muito impactante, um burburinho, onde a fofoca acontecia”, lembra.

No dia em que a mãe o amarrou a ela, porém, ele não conseguiu fugir e, mesmo arrastado, chorando, chegou à feira. Lá, recebeu a orientação: prestar atenção nas batatas. Pegar e colocar na sacola. Não desviar a atenção das batatas.

“Logo veio uma mulher, grandona. Quando me viu, ficou impactada e começou a chorar, abraçando minha mãe e gritando: meu deus! Olha como seu filho ficou! Quando eu ia olhar, minha mãe me dava uma reprimenda. Depois, veio uma mãe com um menino, apontando o dedo pra mim e dizendo: olha, quando eu digo para não brincar com fogo. Se brincar, olha como vai ficar”.

E novamente, quando Tejon ia olhar, dona Rosa o chamava atenção. “Ela me carregou nessa experiência, me fazendo prestar atenção na batata, na cebola, na laranja. Quando voltamos, me abraçou e disse: obrigada, filho. Ninguém pode dizer que não sabemos te dar educação”. E foi a primeira ida à feira, que fez desmoronar uma barreira dentro de Tejon.

Príncipe

Apesar disso, assim como foi para Auggie, o santista conta que estudar em uma escola regular - no caso dele a Olavo Bilac - despertou medo. Mas o encorajamento da família foi fundamental. Auggie ouvia da mãe que era extraordinário e Tejon, que era um príncipe.

“Tem moleque ruim? Tem. Tem moleque mau? Tem. Eu tive os meus. Mas uma coisa importante é perceber nessa vida que eles não são a maioria. Na minha infância tinham dois ou três com instinto predador, que quando me viam já começavam: 'churrasco! queimado!'”, relembra.

Mas, Tejon teve muitos amigos. “Também tinham meninos valentes e bons. Em várias situações, eles deram força para que enfrentasse os que me insultavam”.

Amor e música decisivos

O filme Extraordinário não foca a adolescência de Auggie, época que para José Luiz Tejon foi a mais complicada. É nesta fase que todos querem ser iguais ao grupo ou mostrar as qualidades, inclusive físicas, para conquistar os primeiros amores. E Tejon não vislumbrava como faria isso ao se olhar no espelho. Na verdade, ele não olhava e nem queria ser visto. Chegou ao ponto de, para evitar olhares para seu rosto, não andar, mas correr pelas ruas. 

Nesta época, depois de um esforço tremendo da mãe, começou a estudar no Colégio Canadá, em Santos. E, mais uma vez, empurrado para o público, fez ruir mais uma barreira. Desta vez, com ajuda da música. “Eu comecei a criar música aos 15 anos. No (colégio) Canadá teve um festival e eu fui. Ao subir no palco, o violão era minha proteção e as pessoas gostaram. Eu me senti tão bem. Uma sensação de que havia algo maior que o problema do meu rosto”. 

Ele continuou fazendo cirurgias plásticas até os 16 anos. “Minha pálpebra caiu e fiz um enxerto para ela subir. Quando saí do hospital, jurei que não faria mais. Decidi que não era mais importante. Foi o momento de me aceitar e perceber que estava cansado daquilo. Fora que o poder da música já estava comigo”.

Foi aí que aconteceu o que considera extraordinário. Um amigo ouviu uma de suas composições e sem que soubesse, a inscreveu no Festival de Música Popular da Secretaria de Cultura de Santos. Era época da ditadura militar e também do sucesso dos grandes festivais.

''Minha música foi selecionada e eu teria que me apresentar. Isso sim foi um choque! No (colégio) Canadá, estudou comigo o Roberto Shinyashiki – hoje médico e escritor - e ele tinha uma banda. Ficou definido que a banda dele iria tocar e eu cantar. Eu não queria, mas ele disse que como a música era minha, eu deveria estar à frente. Tinham 10 mil pessoas no ginásio. A partir dali, minha vida mudou” .

Tejon foi convidado para compor música para o teatro. O convívio com a arte, jogou fora de sua cabeça o rosto queimado. Casou, foi para São Paulo trabalhar com marketing. Escreveu livros ligados a sua carreira. Depois, escreveu sobre sua vida. Teve três filhos, separou-se, e casou novamente.

''Recebi muito amor e encorajamento da minha família adotiva. O ambiente que você vive, o olhar com o qual você é olhado e como te ensinam a olhar, é muito importante na superação. Eu poderia editar coisas ruins na minha cabeça, mas elas não foram a maioria. Não quis e nunca vou me vitimizar”, diz ele com um tom leve que teve durante toda a entrevista.

Pergunto se essa leveza foi adquirida com a experiência e ele diz que não, que isso o acompanha desde sempre. Dona Rosa e seu Antonio o ensinaram a lutar, mas também a ter mais foco no que era positivo, sem perder a doçura. “A vida é um pressuposto de luta. A terra não é um lugar seguro e a pior escolha é se esconder”. 

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