Uma história de amor, luta e defesa do anarquismo

Guarujaense resgata história do casal Carlo e Anita Aldegheri, que trocou a miséria na Itália pelo Brasil

20/02/2018 - 10:24 - Atualizado em 20/02/2018 - 10:49

Carlos Aldegheri (segundo, à esq.) e seus amigos anarquistas, em São Paulo (Foto: divulgação)

Marcolino Jeremias se aproximou do movimento anarquista em 1994. Morador de Guarujá, ele ainda não sabia que, numa casa em frente ao ponto em que tomava ônibus todos os dias, na Avenida Puglisi, vivia um famoso casal de imigrantes anarquistas: o sapateiro italiano Carlo Aldegheri e sua mulher de origem espanhola, a tecelã Anita. Carlo morreria no ano seguinte, aos 93 anos. Anita, em 2015, aos 108. 

“Infelizmente, eu não tive tempo de conhecê-lo pessoalmente. Soube depois que o Carlo, por se sentir sozinho, costumava ir ao ponto de ônibus puxar assunto com as pessoas”, lamenta Marcolino, que hoje, aos 40 anos, transformou sua admiração por Aldegheri e o anarquismo numa biblioteca popular e num livro editado de forma independente. 

A Biblioteca Carlo Aldegheri foi fundada em 2012, no bairro Ferry Boat (Rua Luiz Laurindo Santana, 40, Sala 1), graças aos esforços de um coletivo de estudos anarquistas de Guarujá. 

Já a biografia "Carlo & Anita Aldegheri – Vidas Dedicadas ao Anarquismo" é fruto da pesquisa de Marcolino, que também escreveu a obra de 115 páginas. O livro foi impresso com apoio da Biblioteca Carlo Aldegheri e do Centro de Cultura Social de São Paulo (CCSSP). 

O autor explica que o objetivo da biografia é resgatar a história de luta pela emancipação social e de resistência ao fascismo empreendida pelo casal Carlo e Anita, principalmente na Europa. Uma história que, por pouco, não foi completamente esquecida.

Anita e Carlo, na década de 1980, em sua casa em Guarujá (Foto: reprodução)

O casal viveu em Guarujá por mais de 40 anos. “A historiografia oficial apaga ou deturpa o protagonismo anarquista em vários contextos históricos de transformação social. Cabe a nós, libertários, resgatar nossa própria história”, destaca Marcolino, que iniciou as pesquisas para o livro em 2001. 

“Foi depois de muita procura que consegui encontrá-la, em 1999, num novo endereço. Anita estava com 94 anos, lúcida e com excelente memória. Recebeu-me muito bem”, lembra.

Após a morte do marido, a anarquista se mudou para a Rua Cavalheiro Nami Jafet. Marcolino só a encontrou depois de procurar pelo sobrenome dela numa lista telefônica. “Quando cheguei lá, a Anita estava fazendo tricô no quintal da casa. Falei com ela e marquei uma entrevista para o dia seguinte. Foi o início de uma amizade que durou de 2001 até a morte dela, em 2015”.

Contra o fascismo

O casal, quando jovem, na Europa
(Foto: reprodução)

Anita e Carlo se casaram em 1934. Ela já tinha uma filha, chamada Primavera, de outro relacionamento. “Eu nunca soube nada sobre isso. Era o único assunto que Anita se recusava a falar, sobre o pai da Primavera”, comenta o autor. 

No livro, Marcolino conta a trajetória de luta do casal contra o fascismo na Europa e as perseguições que sofreu em nome do ideal anarquista. Também destaca as várias vezes em que Anita sobreviveu sem a presença do marido (muitas vezes, sem qualquer notícia dele), quando Carlo foi levado a campos de concentração.

Marcolino lembra que isso foi durante o período da Revolução Espanhola e da Segunda Guerra. Devido à Revolução e, depois, com as prisões de Carlo, eles ficaram separados durante dez anos. “Só conseguiram viver juntos novamente a partir de 1946, na Itália, após o fim da Segunda Guerra. Daí vieram ao Brasil e viveram juntos a vida toda (leia trecho abaixo). A história deles é, também, uma linda história de amor e superação”, considera. 

Das visitas à casa de Anita, em Guarujá, Marcolino lembra das conversas: “Falávamos sobre a vida dela e do Carlo. Da Revolução Espanhola, da Segunda Guerra, de quando chegaram no Brasil. Mas também falávamos do cotidiano dela e da atualidade. Aprendi muito escutando-a, mais do que em todos os livros que pude ler”, lembra o autor. 

Em Guarujá, o casal viveu do ofício de sapateiro de Carlo. Também fundou uma gráfica, na qual imprimiam livros de conteúdo anarquista. “Um detalhe interessante: apesar de serem anarquistas e ateus, eles contribuíram financeiramente com o padre italiano Don Domênico, quando ele estava juntando dinheiro para a construção do Hospital Santo Amaro, em Guarujá”.

Anarquia não é bagunça

Para Marcolino, o livro é mais uma ação para tentar reverter a ideia errada de que o anarquismo é caos, bagunça. Segundo ele, o ideal anarquista visa uma sociedade sem poder. “O anarquismo propõe a criação de uma sociedade sem a centralização do poder político, criando um 'poder social', tudo de forma horizontal e sem hierarquias. É o que chamamos de autogestão”. O livro custa R$ 30,00 e pode ser adquirido pelo e-mail nelca@riseup.net.

Leia trecho:

“Em 1946, na Itália, a família Aldegheri começou a reconstruir sua vida. Anita voltou a trabalhar em uma fábrica como tecelã e Carlo continuou a desenvolver seu ofício de sapateiro. A Itália do pós-guerra enfrentava uma situação de extrema miséria, com várias localidades bombardeadas ou destruídas pela guerra. A família passou muitas dificuldades nessa época. Foram quatro anos até que eles decidiram mudar-se para o Brasil.

Carlo veio sozinho e chegou ao Porto de Santos em 23 de julho de 1950. Inicialmente, dormiu ao relento até conseguir se instalar no Largo Monte Alegre, número 5, no bairro do Valongo, próximo ao Porto. 

Em seguida, muda-se para a cidade de Guarujá. Após muito trabalho, conseguiu enviar dinheiro suficiente para que Anita e Primavera se mudassem definitivamente para o Brasil. Mãe e filha chegaram ao Porto de Santos em 14 de março de 1952. 

Carlo e Anita se dedicaram à fabricação de calçados, principalmente sandálias para os turistas. Trabalharam dia e noite, ininterruptamente, até conseguirem se estabelecer e fixar residência no Guarujá, onde construíram uma casa na Avenida Puglisi, 300 – fundos”. 

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