Uma arte conectada com o mundo digital

Bienal de Arte Digital, no Rio de Janeiro, evidencia novo universo

11/02/2018 - 18:57 - Atualizado em 11/02/2018 - 19:08

Há tempos, a pintura deixou de ser o único meio privilegiado de representação da realidade e das utopias humanas nas artes visuais. Num mundo cada vez mais conectado pela tecnologia, hoje, a arte é eminentemente digital. Tanto que, para as novas gerações, chega a ser redundante afirmar isso. 

“Nossa relação com o mundo e os outros é mediada pelo digital. A Geração Z, por exemplo, que nasceu nesse mundo digital, é a mais conectada da história. A arte, para eles, é digital, naturalmente. Pode ser estranho para os mais velhos, mas não para os ‘Z’”, diz o criador multimídia Wagner Merije. 

Mineiro radicado em São Paulo, ele é doutorando na área de Humanidades Digitais pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, em Portugal, e coordena o projeto Minha Vida Mobile, com o qual percorreu 150 municípios brasileiros, ensinando possibilidades criativas nos territórios digital e mobile, em escolas públicas.

Atento a esse contexto, um grupo de criadores, pesquisadores e produtores culturais criou a Bienal de Arte Digital. 

Inaugurada no último dia 5, no Rio de Janeiro, a primeira edição do evento pode ser vista até 18 de março, no Centro Cultural Oi Futuro. Depois, segue para Belo Horizonte, onde permanece de 26 de março a 29 de abril, no Museu de Arte da Pampulha (MAP).

A Bienal reúne obras de 30 artistas de nove países: Alemanha, Brasil, Canadá, China, Estados Unidos, Itália, Reino Unido, México e Suécia, selecionados por edital que obteve 675 trabalhos inscritos. “Recebemos obras de muita qualidade e com forte conexão com o tema linguagens híbridas”, destacou o curador e idealizador do evento, Tadeus Mucelli.

A exposição nasceu do FAD – Festival de Arte Digital, um projeto sobre exploração inventiva de novas tecnologias no campo da arte e da comunicação, realizado há dez anos em Belo Horizonte.

Inteligência artificial
Apesar do nome, a Bienal de Arte Digital não abarca somente arte computadorizada, trabalhada digitalmente, ou a web arte. O conceito do que é digital vai muito além dos suportes e linguagens utilizados pelos artistas, cujos temas, processos e pesquisas se aproximam dos campos científico e biológico.

Como destacam os curadores, são obras que utilizam linguagens híbridas, em que o digital e o analógico, o natural e o artificial, o real e o virtual, se atravessam. É o caso de obras como a do curitibano Jack Holmer, intitulada Manifesto Contra a Gravidade, que tem como ponto de partida as pesquisas sobre Inteligência Artificial e robótica, e consiste em esculturas tridimensionais flutuantes, sensíveis à presença humana. 

Outro exemplo é a do artista-cientista brasileiro Ivan Henriques, radicado na Holanda, que apresenta, na Bienal, seu mais recente experimento: Caravel, uma escultura cinética capaz de gerar energia a partir de bactérias anaeróbicas. A obra foi desenvolvida com a Faculdade de Bioengenharia da Universidade de Gante, na Bélgica, com a proposta de criar novas formas de comunicação entre humanos e outros organismos vivos.

Há trabalhos, ainda, que exploram e combinam música, performance, vídeo, instalação e arte algorítmica.

Mucelli destaca que a relação arte e tecnologia é debatida há mais de 40 anos. “Como hoje, grande parte das pessoas tem smartphone e está conectada digitalmente, essa discussão tornou-se mais passível de ser compreendida, absorvida”.

Merije reflete que essa arte pode ser apreciada por qualquer espectador, sem exigir dele compreensão dos vários conceitos que guiaram o artista até ali. “Agora, se esse mesmo espectador quiser saber os conceitos, vai ter que estudar, ler”.

Serviço – o centro cultural oi futuro fica na Rua 2 de Dezembro, 63, no Flamengo, telefone: (21) 3131-3060. Abre de terça a domingo, das 11 às 20h. Entrada franca.

Jack Holmer quer mandar sua arte para o espaço

Jack Holmer criou suas primeiras obras em 3D com 16 anos (Foto: Divulgação)

A arte tecnológica e o nome de Jack Holmer estão associados desde a adolescência do artista, quando, em 1997, com 16 anos, ele criou suas primeiras obras em 3D e as enviou a Diana Domingues, referência no estudo de novas tecnologias nas artes visuais. 

“Depois da minha mãe, que tem formação em arte, a Diana foi a primeira pessoa a me incentivar no campo da arte”, lembra Holmer. Em 2007, Diana orientou o artista no mestrado e escreveu o texto do catálogo da primeira individual dele, em 2013, em Curitiba. 

A pesquisadora defende a existência de artistas-cientistas, que utilizam os novos meios tecnológicos na busca de uma poética voltada ao mundo contemporâneo. No último dia 5, ela ministrou a palestra magna da Bienal de Arte Digital. 

Holmer participou do seminário da Bienal e estreitou laços com outro artista-cientista, o norte-americano Joe Davis, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). “Estou tentando fazer uma inteligência artificial plena, só que através da poética e da semiótica. Mas para programar isso, preciso entender como o ser humano funciona. Tem muito estudo nisso”, reconhece Holmer, que desenvolveu as esculturas cinéticas da obra Manifesto Contra Gravidade, numa residência artística de oito meses (entre 2016 e 2017) em Jackson Hole, em Wyoming, nos EUA.

O seu projeto é ambicioso e visa ocupar o espaço sideral. “Nem o céu é o limite. Quero colocar uma escultura para fora da estação espacial. Falei com o Joe (Davis) sobre isso. Ele tem contato com a Nasa e me deu várias ideias sobre que tipo de material usar. Comprei uma impressora 3D e estou fazendo uma nova versão das esculturas”, explica. Veja um curta de documentário sobre o artista no site oficial dele

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