Três escritoras da região viajam a eventos nos EUA e Alemanha

Vanessa Ratton, Cláudia Marczak e Susana Ventura representam o País em conferência, feira e sarau

27/02/2018 - 11:21 - Atualizado em 27/02/2018 - 11:59

Vanessa Ratton viaja para a Alemanha
(Foto: divulgação)

No conto "Vi um anjo de azul e vermelho", a escritora e jornalista Vanessa Ratton, de Guarujá, escreveu uma reflexão sobre o quanto o nosso destino é definido pela geografia: “Ouvi uma vez que nosso destino é decidido não por quem somos ou por nossos dons, mas pelo espaço geográfico. O país onde nascemos determina as oportunidades que teremos”. 

A autora criou o texto motivada por uma imagem que consternou o mundo em 2015: a foto do corpinho de Alan Kurdi, refugiado sírio de 3 anos de idade, numa praia da Turquia, após se afogar no mar Egeu.

Outra autora a escrever sobre a tragédia foi a educadora Claudia Marczak, de Santos, que compôs um poema em que fala da cegueira do mundo e de sonhos naufragados.


Ambos os textos (leia abaixo) integram o livro "Mulherio pela Paz", uma coletânea de 50 contos e poemas de 50 autoras. Organizada por Vanessa Ratton, a obra vai representar o Brasil num evento internacional, na Alemanha: o 4º Sarau da Paz, na cidade de Augsburgo. 

Vanessa viaja para lá dia 16 e participa do sarau nos dias 17 e 18 de março, a convite do Grupo de Mulheres pela Paz (Frauen für Frieden). “Mas a coletânea será lançada em Ausburgo dia 8 de março, no Dia Internacional da Mulher”, orgulha-se a autora, que enviará a publicação antes.

Cláudia Marczak não irá para a Alemanha, mas marcará presença em outro evento internacional: a 5ª Conferência Mundial sobre Ensino, Promoção e Manutenção do Português como Língua de Herança, que inclui a 3ª Feira do Livro Infantojuvenil da Língua Portuguesa. 

Será entre 31 de maio e 3 de junho, em dois lugares: no Massachusetts Institute of Technology (MIT), em Cambridge, e em Somerville, ambos nos Estados Unidos. 

“Vai ter gente de todo o mundo falando sobre leitura, escrita e atividades para manter a língua portuguesa nas comunidades de imigrantes brasileiros”, conta Cláudia, que vai ministrar uma palestra e uma oficina no evento. 

Cláudia Marczak vai palestrar sobre o projeto
O Periscópio (Foto: divulgação)

A conferência nos EUA contará ainda com a participação de outra escritora de Santos: Susana Ventura, que irá como embaixadora da Língua Portuguesa – ao lado da escritora Ana Maria Machado, do chef Alex Atalla, do cantor Gilberto Gil e da apresentadora Bela Gil, entre outros nomes do País. “A gente vai com o compromisso de promover a organização sem fins lucrativos, com sede em Nova Iorque, a Brasil em Mente (realizadora do evento). Esperamos conseguir um espaço maior para leitura em português por lá”, diz Susana.

Esta visibilidade e convites internacionais são fruto do esforço de cada uma das três autoras, mas também da participação delas num grande movimento de escritoras, chamado Mulherio das Letras. O movimento começou em 2016, como uma reação à pouca representatividade feminina nos encontros literários. 

Rapidamente, conseguiu a adesão das escritoras e, em novembro do ano passado, no primeiro encontro realizado em João Pessoa (PB), reuniu mais de 500 autoras brasileiras. O próximo encontro será entre 2 e 4 de novembro deste ano, em Guarujá. “Tudo começou com esse movimento”, assume Vanessa. “Hoje, o nosso grupo no Facebook reúne mais de 6 mil mulheres. São escritoras brasileiras que também moram e se organizam no exterior”.

Susana Ventura será embaixadora na
conferência no EUA (Foto: divulgação)

Como exemplo, ela cita Augsburgo, onde atua a escritora brasileira radicada na Alemanha Alexandra Magalhães Zeiner, que é a embaixadora da paz naquela cidade e diretora do grupo Mulheres pela Paz – que fez o convite para Vanessa lançar a coletânea "Mulherio pela Paz" (independente). 

Alexandra explica que o grupo na Alemanha é composto por dez mulheres de diferentes países (Brasil, Bolívia, Turquia, Croácia, Alemanha). “É um grupo pequeno e forte, que já fez vários eventos. O nosso encontro anual começou em 2014 e reúne mulheres da comunidade internacional, a maioria brasileira. Elas declamam e cantam seus textos no idioma de sua terra e em alemão”.

Leia os textos:

Vi um anjo de azul e vermelho

Conto de Vanessa Ratton

        Um menino de bermuda azul e camisa vermelha podia ser o meu filho, o seu... O mundo parou por alguns segundos. Todos os olhos olhavam para a tragédia... O ano era 2015, um corpo de uma criança fora trazido pelo mar Egeu. A família fugia da Turquia em busca de refúgio. Morreram afogados a mãe, o irmão de 5 anos e o pequeno Alan, mas apenas o seu corpo chegou à praia. O pai voltou à cidade natal para enterrar seus mortos. Será que realmente se sente vivo?    

       Não importa se abro ou fecho os olhos, o menino está lá na praia. Sua inocência, sua infância, sua dor não existem mais. Mas, abriu-se uma profunda ferida em muitos corações, em todos os cantos. As lágrimas escorrem dolorosamente do fundo da alma. Sinto vergonha da humanidade, me sinto impotente. Hoje resolvi falar sobre o menino-anjo que foi manchete mundial, que virou charge, poesia, grafite... Alan se transformou no símbolo dos refugiados da Síria.

       Ouvi uma vez que nosso destino é decidido não por quem somos ou por nossos dons, mas pelo espaço geográfico. O país onde nascemos determina as oportunidades que teremos, numa única e frágil vida que nos é concedida. Alan não teve muitas chances. Morrer na Síria num bombardeio ou morrer no mar, faria diferença? Que oportunidades terão crianças na Somália, na África, na Síria, na Etiópia, na favela ou no sertão do Brasil? 

    Eu fecho os olhos e vejo o menino. Vejo a violência da guerra, da fome, da peste, da morte, do preconceito, da ignorância, da exploração, da corrupção. Uma guerra urbana não declarada que faz milhares de vítimas todos os dias.

Não importa se abro ou fecho os olhos, o menino está lá na praia. São tantas guerras, mortes, lágrimas... Não é possível mais calar. A Ciência não foi capaz de nos dar inteligência. De que adianta a tecnologia se ainda vivemos a barbárie do capitalismo globalizado ? 

      Eu ainda sonho que uma nova geração vai mudar tudo isso. Deveria ter sido a minha ou uma anterior... Fracassamos todos. Tento usar as palavras para plantar sementes. Acredito que é pouco, insignificante, mas não consigo silenciar.

      Não importa se abro ou fecho os olhos, o menino está lá na praia... E eu sinto uma extrema necessidade, um desejo, uma vontade de construir a PAZ!

Poema de Claudia Marckzac:

o corpo do menino

deu na praia

parecia só

mas carregava

em seus ombros 

milhares de almas 

que partiram

tentando partir

o corpo do menino

deu na praia

e meus olhos 

se encheram de mar

e sangraram

a dor da cegueira

do mundo

o corpo do menino

deu na praia

parecia só

mas carregava em seus ombros

o sonho naufragado

de um mundo

que nunca verá

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