TNT estreia sua primeira série original de ficção: Rua Augusta

Produção em parceria com a 02 Filmes tem Fiorella Mattheis no papel principal

13/03/2018 - 09:16 - Atualizado em 13/03/2018 - 10:09

Fiorella Mattheis interpreta Mika, uma jovem com um passado obscuro (Foto: Divulgação)

Na quinta-feira (15), às 22h30, mais um canal fechado promove sua entrada no mercado de séries originais. A bola da vez é a TNT, que chega com a produção Rua Augusta. Inspirada na israelense Allenby St, a série ganhou uma adaptação bem paulistana. 

Dirigida por Pedro Morelli, Rua Augusta tem como protagonistas os atores Fiorella Mattheis (Vai que Cola) e Lourinelson Vladimir.

A produção conta a história de Mika (Fiorella Mattheis), que ganha a vida dançando na Boate Love e se divertindo na balada Hell. As casas, uma de frente para a outra, são o cenário central, que unem o submundo das drogas, prostituição e diversão a qualquer custo. Lá, Mika construiu uma vida e deixou para trás um passado pouco conhecido.

Nos dois primeiros episódios, o público encontra uma trama bem amarrada e com boas doses de adrenalina. A primeira temporada conta com 12 episódios. Uma segunda etapa não está descartada. “Existe essa vontade, sem dúvida! Mas ainda não há nenhuma confirmação de que isso vá acontecer”, comentou o diretor da série, Pedro Morelli.

De acordo com ele, a TNT foi quem indicou a adaptação da série. Ao todo, foram seis meses trabalhando no roteiro e mais vários para a preparação do elenco.

“A religiosidade em Israel com certeza tem outro peso em comparação ao Brasil. Esse tema era central na série original e afetava o comportamento de vários personagens, de forma que não caberia na realidade brasileira. Optamos por tirar essa questão da trama, e substituir por questões mais brasileiras”, comenta o diretor sobre uma das principais mudanças no roteiro.

Mika (Fiorella Mattheis) e Alex (Lourinelson Vladimir) na trama (Foto: Renato Amoroso / Divulgação)

Se a religiosidade foi deixada de lado, Morelli apostou em outro tema bem atual, o feminicídio. “Acredito que nossa série como um todo pode contribuir para isso (debate sobre a violência contra as mulheres). A direção optou por um caminho muito inteligente, da não glamuri-zação da prostituição e humanizamos esses personagens”, comenta Fiorella.

A atriz, que protagoniza algumas cenas quentes, afirma não ter sentido nenhuma dificuldade em gravar esses momentos. “Cenas quentes como as de nudez e outras quando não são gratuitas e com uma equipe cuidadora, vira apenas uma cena. E eu tive essa sorte! Nosso corpo é nossa ferramenta de trabalho, em cena é a personagem e ela pedia isso”.

Para Fiorella, a relação com o pai, Maurício Amaral (Carlos Meceni), um empresário de muito sucesso, que sabe que fez mal à filha no passado, foi fundamental para a mudança de comportamento dela. “É uma relação complicada, desgastada e falta amor. Ela foge de casa aos 15 anos e se encontra na Rua Augusta. É um grito de liberdade”.


Conhecida por seus papéis em comédias, Fiorella disse que se apaixonou pelo projeto como um todo. "Trabalhar com a O2 (produtora) sempre foi um sonho. O roteiro de Rua Augusta é eletrizante. Esta é minha primeira protagonista e ela é bastante desafiadora. Estava com saudades da entrega que é um personagem dramático. O mergulho que se faz para encontrar essa personagem dentro de mim. É um processo longo, dolorido, que você fica com dúvidas e insegura. Mas tem uma hora que você simplesmente encontra e aí começa a se divertir com isso e a criar. É um processo muito realizador, que preenche", comenta.

Outro destaque na série é o ator Lourinelson Vladimir, que interpreta Alex, o dono da balada Hell. “O mais interessante deste personagem é o modo como ele transita de um universo para outro sem deixar de ser uno. Quero dizer: ele não tem duas personalidades ou qualquer tipo de esquizofrenia. Ele apenas transita de um lugar para outro se adaptando, modulando, mas sempre a partir de um mesmo centro de valores e desejos”, argumenta o ator. 

De acordo com Vladimir, isto não quer dizer que não sofra com as contradições que sua vida dupla gera. “Ele assume sem grandes arrependimentos os erros que comete, porque tem fé nas suas apostas. Ele tem uma atitude bem propositiva, seja em relação à filha, ao seu envolvimento amoroso, aos enormes e gigantescos problemas que isto gera. Neste aspecto, acho que ele é bem rock n’ roll”.




Confira abaixo entrevista com Lourinelson Vladimir


O seu personagem tem um lado doméstico, que cuida da filha, mas ao mesmo tempo é proprietário de uma casa noturna, onde lida com propina, violência e outros problemas. Como você acha que o seu personagem lida com isso?
Pra mim, o mais interessante deste personagem é o modo como ele transita de um universo para outro sem deixar de ser uno. Quero dizer: ele não tem duas personalidades ou qualquer tipo de esquizofrenia, ele apenas transita de um lugar para outro se adaptando, modulando, mas sempre a partir de um mesmo centro de valores e desejos. Isto não quer dizer que ele incorra e não sofra com as contradições que suas "vida dupla" gera. Mas ele assume sem grandes arrependimentos os erros que comete, porque tem fé nas suas apostas. Ele tem uma atitude bem propositiva, seja em relação à filha, ao seu envolvimento amoroso, aos enormes e gigantescos problemas que isto gera. Ele avança mesmo assim, apesar e, contra as contradições. Neste aspecto acho que ele é bem rock n' roll.

A sua carreira como ator teve algumas idas e vindas. Como esse trabalho em Rua Augusta tem motivado você? Se sente mais confortável na TV? Ou o teatro é o lugar que mais te encanta?
De fato, em 2010 eu estava cansado de São Paulo depois de seis anos e tinha uma vontade enorme de vir morar no Rio. Então voltei a advogar. O objetivo era morar nesta cidade cheia de contradições, mas cujo desejo me fez avançar apesar, e contra elas. No entanto, no início de 2011 fui contemplado com uma bolsa, eram apenas 20 para todo o Brasil, para executar um projeto que eu havia proposto para a Funarte em 2009: ensinar récita de poemas épicos em cidades de baixo IDH.

Abandonei a advocacia pela segunda vez e voltei para as artes. Dois anos depois, fui chamado para o longa Para Minha Amada Morta, do Aly Muritiba, que abriu muitas portas, inclusive foi por ai que Diana Galantini, produtora de elenco de Rua Augusta, me conheceu. 

A motivação é enorme porque é meu primeiro protagonista em séries; o nosso projeto é de fato muito bom e foi realizado com muito prazer e afinco. Eu sempre apostei no crescimento deste formato 'séries' e é muito gratificante estar na ponta de lança de uma produção como essa, tocada pela O2, que é uma referência do nosso audiovisual, sendo o primeiro projeto deste tipo da TNT Brasil. Me sinto honrado e realizado. Eu me sinto feliz e confortável em trabalhar com gente bacana, inteligente, que leva as coisas à sério, seja no audiovisual, seja no teatro.

Você buscou referências reais para interpretar o Alex? Chegou a ter contato com donos de casas noturnas? O que trouxe de experiência própria ou influências para esse papel?
Eu busco compreender a partir do roteiro, das falas, da conversa com a direção, de qual é o universo cultural do personagem, seu meio e origem social, sua persona, sua estética, seu gestus. Depois disto fico antenado em tudo que possa dizer deste universo, pessoas na rua, objetos, músicas, lugares, e vou emulando aquela subjetividade, misturando a minha. É um processo muito racional no início, , mas depois vai se abrindo, se tornando intuitivo, até ficar meio caótico, quando as coisas vão atravessando sua sensibilidade, pelo viés do personagem. Por exemplo, você está na rua e uma tal música toca, aquilo não diz respeito a você mas diz muito ao personagem, as antenas captam, fazem associações, permitem revelações sobre o personagem que você não teria alcançado sem esbarrar naquela música. É o caos criativo. É um barato. 

Em tempos de retrocesso político e sociológico no Brasil, como a série Rua Augusta pode contribuir para um diálogo mais plural?
A Rua Augusta é lugar múltiplo, diverso, ao mesmo tempo alegre e agressivo e é um enclave da resistência quanto à liberdade de comportamento. Pessoalmente - é a idade -,  não me sinto mais envolvido por aquela atmosfera, mas vibro com sua existência, com sua possibilidade. Gosto de passar por ela e sentir aquela alegre agressividade juvenil, porque é necessária, é um antídoto aplicado a todos que se permitem respirar aquele ar. 

A série toca nessa atmosfera, absorve aquela eletricidade e acho que isto é importante em muitos aspectos, seja pra viralizar este antídoto, seja para registrar aquele espaço-tempo. A série é uma obra de ficção, etc, mas as locações são todas reais, a Rua Augusta é cenário, e isto já é muito importante. Numa noite o Pedro (um dos diretores) saiu com uma equipe pequena fazendo tomadas minhas e da Fiorella andando pela Augusta. Um de cada vez - Mika e Augusta, depois Alex e Augusta.

E eu me dei conta de quão importante era aquilo que o Pedro estava fazendo: reverenciar o lugar e suas pessoas, aquilo que ele tem de material e de imaterial, aquilo que faz dele um epicentro da cultura. A Rua Augusta é isto, um epicentro da cultura da diversidade e a série mostra, e tensiona, essa diversidade.

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