Teatro Oficina remonta "O Rei da Vela", 50 anos depois, em São Paulo

Peça de Oswald de Andrade volta aos palcos no Sesc Pinheiros, para temporada até 19 de novembro

23/10/2017 - 10:16 - Atualizado em 23/10/2017 - 10:50

Renato Borghi como o agiota Abelardo I, na nova montagem (Foto: Jennifer Glass/Divulgação)

“Manter vigilância rigorosa nas fábricas. Evitar a propaganda comunista. Denunciar e perseguir os agitadores. Prender. Esse negócio de escrever livros de sociologia com anjos é contraproducente. Ninguém mais crê. Fica ridículo para nós, industriais avançados. Diante dos americanos e dos ingleses”.

Se o parágrafo acima guarda alguma semelhança com a atual realidade brasileira não é mera coincidência. Poderia ser proferido hoje, por algum político ou membro de um grupo conservador, mas foi escrito há 74 anos, por Oswald de Andrade, na peça "O Rei da Vela".

Oswald (1890-1954) foi um dos cabeças, ao lado de Mário de Andrade, do Movimento Modernista de 1922, onde defenderia e estabeleceria conceitos estéticos de vanguarda para o teatro brasileiro. 

Curiosidade: no ano em que escreveu a peça, em 1933, ele estava casado com Patrícia Galvão (Pagu), com quem conviveu de 1930 a 1935. Mas "O Rei da Vela" só seria publicada em livro em 1937 e ganharia a primeira montagem em 1967, com o grupo Teatro Oficina, em sua sede no Bixiga, em São Paulo, tendo Zé Celso Martinez Correa na direção e Renato Borghi como o protagonista.

Portanto, a peça está completando 80 anos de sua primeira publicação e 50 anos de sua estreia nos palcos. No último sábado (21), "O Rei da Vela" voltou aos palcos com o mesmo grupo, diretor e ator principal de 1967, na véspera do aniversário de morte de Oswald (22 de outubro). 

A remontagem estreou no Teatro Paulo Autran, no Sesc Pinheiros, onde ficará em cartaz até 19 de novembro, sempre aos sábados e domingos.

Sônia Migliaccio e Renato Borghi na primeira montagem, de 1967 (Foto: Arquivo Teatro Oficina)

Borghi participará da peça somente durante esta temporada. Depois, será substituído pelo ator do Oficina, Marcelo Drummond.

A cenografia é de Hélio Eichbauer (o mesmo da montagem original), com palco giratório e painéis artísticos idênticos aos utilizados em 1967.

Além da meia década da montagem original, a reestreia celebra 80 anos de Zé Celso e Renato Borghi, que nasceram em 30 de março de 1937 e são grandes parceiros no teatro.


Momento oportuno 

"O Rei da Vela" fala de um Brasil subjugado por empresários e pelo capital norte-americano. De um jeito alegórico, retrata a corrupção e a decadência da burguesia por meio de uma empresa de agiotagem comandada pelos irmãos Abelardo I (Renato Borghi) e Abelardo II (Tulio Starling), cercados de personagens inescrupulosos. 

Foi Renato Borghi quem leu o livro de "O Rei da Vela" para Zé Celso e sua trupe e o convenceu a montá-lo. Desta vez, foi Zé quem convidou Borghi, que, ao ensaiar o texto novamente, se surpreendeu como lhe vinham trechos inteiros à cabeça. “É como se todo esse tempo não tivesse passado”. Mas sentiu no corpo a diferença. “Eu não posso saltar de cima de mesas, como fazia na época. Tenho uma coluna operada com titânio”.

Renato Borghi e Zé Celso durante processo de
remontagem de "O Rei da Vela" (Foto: Jennifer Glass)

Para o ator, o texto está mais vivo do que nunca. “É só você pensar no que está acontecendo no Brasil nesse intercâmbio entre empresas, deputados e senadores, com o povo à parte. O momento não poderia ser mais oportuno para voltarmos a provocar o público a repensar o País”. 

Em 1967, durante a ditadura militar, Borghi lembra que a encenação do Oficina causou perplexidade no público. “As pessoas não sabiam o que pensar. O teatro brasileiro tinha um jeito realista, com uma clareza de dramaturgia e, de repente, chega Oswald, que é anarquista, cubista”. 

Agora, ele acredita que a peça será melhor absorvida, apesar de achar que haverá reações contrárias. “Ainda mais nesse momento, em que se quer proibir exposições, peças. E é terrível ver jovens metidos nisso”. 

Paralelamente, o Teatro Oficina, tem sua sede ameaçada por um projeto de construção de torres em seu entorno (leia mais abaixo).

Serviço – Até 19 de novembro, Sábados, 19h e domingos, 18h. o teatro fica na 

Rua Paes Leme, 195, Tel.: (11) 3095-9400. Ingressos: R$ 50,00, R$ 25 ,00 e R$ 15,00 (credencial plena). Duração: 3h30. Classificação etária: 16 anos.

O que é?
No título da peça, a palavra 'vela' significa 'agiotagem', que é o empréstimo de dinheiro a juros extorsivos. O protagonista, Abelardo I, é proprietário de uma firma de agiotagem, a Abelardo & Abelardo. Seu sócio, Abelardo II, vestido de domador, recebe clientes que saem de uma jaula.

Projeto de Lina Bo Bardi em risco
Fundado em 1958, na Rua Jaceguai, 520, o Teatro Oficina faz parte da história do tradicional bairro Bixiga, em São Paulo, chegando a contar com a participação de moradores em montagens como "Os Sertões".

O prédio, agora, corre o risco de perder seu projeto original, assinado pela arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992), com a construção de três torres pelo Grupo Silvio Santos, que adquiriu o terreno anexo ao teatro, há mais de 30 anos. Ocorre que, desde 1982, a sede e seu entorno são tombados como patrimônio histórico e cultural nas esferas municipal (Conpresp), estadual (Condephaat) e Federal (Iphan), mas corre o risco de perder o projeto original de Lina, que prevê a construção de um teatro de arena no lugar.

Croquis do arquiteto francês Jeremy Galvan para o Teatro de Estádio no terreno anexo ao Oficina

O Grupo Silvio Santos entrou com recurso no Condephaat para rever o tombamento, com o objetivo de construir um complexo com torres que encobririam a sede do Oficina e inviabilizariam a construção do teatro ao ar livre, que o diretor Zé Celso chama de Teatro de Estádio. O recurso será votado amanhã, na sede do Condephaat, na Capital.

Em entrevista a A Tribuna, Zé Celso lamentou que a construção das torres acabaria com o projeto original, que inclui a iluminação natural do interior do teatro, e até de uma árvore que Lina plantou há 24 anos e dá sombra ao terreno.

O Oficina tem uma passarela como palco, arquibancadas verticais e paredes de vidro que deixam a luz do sol entrar. Foi o último projeto assinado por Lina, feito após o teatro perder sua primeira sede para um incêndio, em 1966. 

“Esta é uma luta que travo há 37 anos e que só tem me inspirado em aumentar a crueldade e a fome antropofágica de 'O Rei da Vela'”, disse Zé Celso. “Estão querendo nos expulsar do Bixiga porque não temos contrato com o Estado. Eu não quis assinar, porque quem fez esse teatro fomos nós”. Ele compara o atual momento político e sociocultural com o da primeira montagem, e conclui que piorou: “Apesar da ditadura, tínhamos o Cinema Novo, o Hélio Oiticica, o Gil e o Caetano com a Tropicália, o Chico Buarque, de quem vou remontar o texto 'Roda Viva'”, adiantou. "A peça de Chico, com o Oficina, estreou em 1968 e, em 15 de janeiro daquele ano, entrou para a história quando o Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu o Teatro Santa Isabel, no Rio de Janeiro, e espancou os atores.


O jornalista João Batista Cesar é vizinho e
frequentador do Teatro Oficina (Foto: Acervo Pessoal)

Depoimento do jornalista João Batista César, que mora no bairro Bixiga:

"Passava na porta do Oficina, na Jaceguai, todo dia para sair de casa. Reparei pela primeira no teatro, pelo aglomerado que se formava em frente, toda noite. Era tempo do golpe militar de 1964 e 'Os Pequenos Burgueses' era uma luz naqueles tempos de guerra. Depois o 'O Rei da Vela', do Oswald de Andrade, que morava na Dr, Ricardo, ali do lado. E o 'Roda Viva', atacado pelos fascistas. Jô Soares e Plínio Marcos, junto com guerrilheiros de verdade faziam a segurança do Oficina, pela ruas do Bixiga. Na 'Selva de Cidades', de Brecht, em que Lina Bo Bardi fazia um cenário novo a cada dia, com os detroços das obras do Minhocão. que rasgaram o bairro no meio. E o 'Gracias Señor'. em que comunidades hippies da Humaitá e da Jupurá eram prolongamentos do palco. Judite Malina, a vovó monstro da Família Addams, vendendo quentão na Jaceguai, para arrumar dinheiro para os companheirpos presos. Depois expulsa do Brasil com o Living Teathre. Os primeiros shows de rock; Urubu Roxo, 'The Brazilian Ridiculous Sound'. Os ternos da Ducal, da Brigadeiro, com que deixaram o Bixiga para o exílio em Portugal. A Revolução dos Cravos. A luta pelo teatro, o túmulo de Sêmele. A Cacilda do TBC ali do lado, uma das almas do Bixiga. A Vai Vai, a Acchiropita. O Oficina transborda para o Anhangabaú. O terreno está ali, no sertões do Bixiga, do Saracura, esperando ser ocupado. São Paulo merece".

Assista, abaixo, trecho da montagem original, de 1967:

Veja Mais