Tarsila do Amaral, inventora do modernismo brasileiro, enfim nos EUA

Exposição estreia domingo no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA)

09/02/2018 - 11:51 - Atualizado em 09/02/2018 - 12:17

Obra de Tarsila do Amaral tem tido amplo destaque no noticiário internacional (Foto: Divulgação)


Tarsila do Amaral, a inventora da arte moderna no Brasil, chega aos Estados Unidos pela primeira vez com seus cactus sensuais e seus humanos de pés enormes, quase meio século após sua morte. A primeira exposição nos Estados Unidos desta pioneira, que começa no domingo no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), se concentra nos anos 1920, quando a artista viajava entre Paris e São Paulo, digerindo a arte destes dois mundos.

Nascida em 1886 em uma família da elite paulista e criada em uma fazenda nos arredores de São Paulo, Tarsila inventou a iconografia da antropofagia, o movimento que imaginou uma cultura brasileira nascida da digestão simbólica das influências europeias, um "canibalismo artístico" que libertaria finalmente o Brasil do trauma colonial.

"Quero ser a pintora do meu país", escreveu em Paris à sua família em 1923, aos 37 anos.

Forçar os limites

Foi pioneira também ao se divorciar nessa época. Já com sua única filha, nascida de seu primeiro casamento, voltou a se casar com o poeta Oswald de Andrade, e junto com ele e com poetas como Mario de Andrade, formou o "Grupo dos Cinco", que discutia poesia e arte enquanto viajava pelo Brasil.

Em algumas de suas viagens, eram acompanhados pelo poeta suíço Blaise Cendrars, cujo livro "Feuilles De Route" foi ilustrado por Tarsila.

Foi um presente de aniversário para Oswald, um quadro pintado em 1928 de uma figura alongada onde predominam as cores da bandeira brasileira, que inspirou o poeta a escrever seu "Manifesto Antropófago".

Oswald chamou a obra sem nome de Abaporu, uma combinação de duas palavras da língua indígena tupi-guarani, aba (homem) e poru (que come carne humana).

Essa pintura e outras duas incluídas na exposição formam o tríptico oficioso de suas grandes obras-primas.

São a anterior A negra, a radical imagem, para a época, de uma mulher negra nua, para o curador Luis Pérez Oramas "uma das grandes banhistas da arte moderna" que evoca a emancipação racial e política em um dos últimos países a abolir a escravidão, em 1888, dois anos depois do nascimento de Tarsila. 

E a posterior Antropofagia, onde a artista fusiona essas duas pinturas para oferecer uma representação inédita da natureza brasileira e a figura humana.

"Tarsiwald"

Muitas décadas antes das combinações de nomes de casais famosos nos últimos anos, já tínhamos Tarsiwald, como batizou seu amigo Mario de Andrade em uma poesia: Tarsila e Oswald, uma dupla inseparável em sua história de amor canibal.

Para Tarsila, que em Paris estudou na prestigiosa Académie Julian e com o artista cubista Fernand Léger, o cubismo foi "como a escola militar". Mas a sua destreza como pintora lhe acrescentou precisão matemática na distribuição da composição e a cor.

Tarsiwald teve um final infeliz. Oswald deixou Tarsila por uma atriz mais jovem em 1930. A artista, sozinha e à beira da falência, pintou nesse ano uma só obra, maravilhosamente triste: uma mulher vestida de lilás, em pé e de costas para o quadro em uma vasta planície, com uma longa cabeleira ondulada que escapa da moldura como a fumaça de uma chaminé.

Com a crise de 1929, que quebrou a indústria do café, e a chegada ao poder de um governo autoritário, Tarsila abraçou o ativismo social em sua pintura, por exemplo em Operários, onde reflete a industrialização e o caldeirão de raças e a mestiçagem no Brasil.

Voltou a se casar, desta vez com o intelectual marxista Osorio César, teve exposições na Rússia e no final dos anos 1960, antes de sua morte em 1973, entraria no cânon brasileiro graças ao movimento Tropicália de Helio Oiticica, Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre outros, que abraçou os preceitos da antropofagia.

Para eles, já era hora de que a saturada e cansada Europa devorasse o Brasil e sua cultura. Porque como escreveu Oiticica, protagonista de uma bem-sucedida exposição no Museu Whitney de Nova York no ano passado, "antes de que os portugueses descobriram o Brasil, o Brasil havia descoberto a felicidade".

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