"Roma" ganha Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza

Dirigido por Alfonso Cuarón, o filme é um retrato das diferenças sociais e raciais no México

10/09/2018 - 10:34 - Atualizado em 10/09/2018 - 10:34

Roma é um filme intimista, todo em preto e branco, que se inspira na família do diretor mexicano (Foto: Divulgação)

O filme Roma, do diretor mexicano Alfonso Cuarón e distribuído pela Netflix, ganhou o Leão de Ouro de Melhor Filme na 75ª edição do Festival de Cinema de Veneza no último sábado (8).

O júri, presidido por seu compatriota Guillermo del Toro, vencedor do mesmo prêmio no ano passado, reconheceu a obra de forte tom autobiográfico, que se passa no México dos anos 1970. "Aqui julgamos a qualidade das obras, independentemente do país de origem, ou do nome do diretor", alertou Del Toro antes da decisão.

Sem celebridades, o filme mais intimista do cineasta mexicano, em preto e branco, se inspira em sua própria família, nos amores e desamores de criados e patrões, um documento emocionante e comovente sobre as diferenças sociais e raciais de seu país.

Depois do hollywoodiano Gravidade, vencedor em 2013 de sete prêmios Oscar, o cineasta mexicano volta a filmar em espanhol para narrar a América Latina que conhece, onde contrastes sociais convivem em um universo repleto de sentimentos, reflexões e diferenças culturais que se cruzam e se alimentam.

Na lista de favoritos desde o início, Roma, nome do bairro onde cresceu, recebeu a nota máxima (5) de cinco dos dez críticos internacionais - os outros cinco lhe deram 4,5 - consultados pela Ciak, a revista oficial da Mostra.

A vitória de Cuarón relança também o debate sobre a Netflix, gigante audiovisual que produziu e distribuiu o filme, e abre caminho para outro Oscar do diretor mexicano.

Realizado com técnicos mexicanos, o longa poderia concorrer como Melhor Filme Estrangeiro em Hollywood, um troféu que o mexicano ainda não tem.

Cuarón também recebeu, o prêmio SIGNIS da Associação Mundial Católica da Comunicação por Roma, indicaram os organizadores.

Classificado por vários críticos italianos como uma "obra-prima", "épico" e "deslumbrante", o filme é dedicado a Libo, a babá de Cuarón. Sua personagem, a doméstica de origem indígena Cleo, é interpretada magistralmente por Yalitza Aparicio. "Ela foi minha babá na infância e depois se tornou parte da família, e nós viramos parte de sua família", afirmou o diretor.

O filme The Favourite ganhou o Grande Prêmio do Júri e o Leão de Prata no festival (Foto: Divulgação)

Latino-americanos premiados 

O Leão de Prata e Grande Prêmio do Júri foram para The Favourite, do grego Yorgos Lanthimos, um filme sobre o poder e as mulheres, baseado em fatos reais, do século XVIII na corte da Inglaterra, com três grandes atrizes: Emma Stone, Olivia Colman e Rachel Weisz.

O francês Jacques Audiard, com seu primeiro faroeste Os Irmãos Sisters, ganhou o prêmio de melhor diretor, com um filme que é uma reflexão sobre a fraternidade com Joaquin Phoenix, John C. Reilly e Jake Gyllenhaal.

A atuação impressionante do americano Willem Dafoe como o pintor Vincent Van Gogh em At Eternity's Gate de Julian Schnabel lhe rendeu o prêmio Volpi de melhor atuação masculina. Entre as mulheres, Olivia Coleman levou o troféu por seu papel em The Favourite.

A lendária atriz britânica Vanessa Redgrave ganhou um Leão de Ouro pelo conjunto de sua carreira, bem como o diretor canadense David Cronenberg.

O filme guatemalteco José, do diretor e roteirista sino-americano Li Cheng, uma chocante história de amor homossexual em uma Guatemala pobre, foi premiado com o Leão Queer pela Associação para a Visibilidade do Mundo Homossexual.

O prêmio acontece em um momento importante no país, devido ao debate interno provocado por um projeto de lei que demanda o reconhecimento da identidade de gênero da população transexual.

Já o documentário do cineasta sérvio Emir Kusturica, sobre a vida do ex-guerrilheiro uruguaio José Mujica, com o título Pepe, uma vida suprema, uma coprodução argentino-uruguaia, foi premiado pelo Conselho Internacional de Cinema e Televisão da Unesco.

Mujica se tornou, involuntariamente, a estrela do festival de cinema de Veneza, provocando aplausos por sua simplicidade e seu desejo de ser uma referência ética para o mundo depois de sua passagem na segunda-feira pelo tapete veneziano.

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