Por dentro do ateliê de Olegário Monteiro

Lixo marinho é matéria-prima de suas obras

12/08/2018 - 15:43 - Atualizado em 12/08/2018 - 16:11

Artista usa manto inspirado em Arthur Bispo do Rosário e óculos encontrados na praia (Foto: Claudio Vitor Vaz)

Assim como fazem os pescadores, diariamente, antes do sol despontar, Olegário Monteiro já está a caminho da praia, ansioso para mais uma coleta. Mas ele não embarca sobre as águas. Sua pescaria é em terra firme. Com os olhos atentos nas areias, procura objetos trazidos pelas ondas, durante a madrugada.

Quando a pescaria é boa, ele volta para casa, na Vila Belmiro, com quilos de resíduos de todas as formas, cores e origens, descartados de maneira errada pela população. O que é lixo para a maior parte das pessoas, para Olegário, é matéria-prima para sua arte.

Até a tela que o artista santista de 39 anos preparou para esta reportagem foi garimpada de suas andanças. Para pintar, ele colocou a tela sobre uma superfície plana, no quintal da casa em que mora com os pais, a irmã e nove gatos. 

O processo utilizado por Olegário lembra a action painting de Jackson Pollock: de maneira vigorosa e quase aleatória, ele despeja tintas de todos os tipos e cores, e cola sobre a tela, assim como serragem e areia. Depois, seleciona pequenos objetos coletados da praia (previamente higienizados), e os distribui sobre a tela. 

Mas não acabou: os objetos ainda receberão várias camadas de tintas, até se amalgamarem à tela, formando uma pintura abstrata tridimensional. O trabalho final convida o espectador a passear com os olhos pela tela, descobrindo as formas dos objetos. 

Jovem procura objetos trazidos pelas ondas, durante a madrugada (Foto: Claudio Vitor Vaz)

“Penso que muitos desses resíduos vão parar no mar não por maldade das pessoas. Quando a maré bate nas palafitas, revira tudo e traz muita coisa para a praia. Mas tem muita gente porca mesmo e que joga tudo na água”, acredita Olegário, que reaproveita tudo o que coleta, até a areia que fica depositada na cuba da pia, após a higienização dos objetos.

“Eu deixo a areia secando no sol e guardo para usar nas minhas colagens”, revela. Em sua obra, tudo se transforma dentro do conceito de arte sustentável defendida pelo pintor e amigo Costa Villar – que foi tema da quarta matéria da série, publicada em 10 de junho. 

“Nada se perde nas minhas mãos. Eu ressignifico cada objeto, que eu chamo de lixo marinho. Num dia bom de coleta, volto para casa com mais de 300 fragmentos plástico e vidro. Gosto muito de cacos coloridos. O que eu faço é quase um garimpo, uma coisa de arqueologia. Eu catalogo tudo e ponho datação. Faço um inventário diário das peças”, explica.

A história por traz dos objetos também provoca sua imaginação: “Quando eu pego o fundo de uma garrafa de vinho, por exemplo, penso em como a pessoa bebeu. Estava solitária? Estava feliz? É quase como uma intimidade. O fundo da garrafa traz informações de onde veio e foi fabricado aquele vinho. Dependendo da marca, eu faço uma ideia da pessoa”.

Estados de humor

Olegário não se preocupa com tema na hora de criar. Ele transmuta sensações e estados de humor em formas plásticas cheias de ritmo, muitas vezes inspirado nas músicas que escuta com fones enquanto faz a coleta na praia. 


Na sua playlist tem muita música clássica: Mozart, Beethoven, Vivaldi. Na cabeça, imagens dos filmes aos quais assistiu na véspera ajudam a formar uma tela surreal. Olegário é cinéfilo e traça relações entre vida e ficção: “Muitos de nós compramos o que não precisamos. É uma coisa meio Clube da Luta (1999). Quando o personagem (o deprimido Tyler Durden, vivido por Edward Norton) perde tudo, primeiro no aeroporto e, depois, quando chega ao apartamento destruído, ele começa a se adaptar e entender que o excesso estava dominando-o”. 

Os temas que pinta surgem desse emaranhado de referências: “É uma questão de emoção, sentimentos, estados de espírito, e quase sempre tem ligação com a natureza. Mas não espero muito do resultado. Deixo-me surpreender com a mistura das cores e tintas, com a plasticidade e como o objeto se comporta”, descreve. 

Filho, sobrinho e irmão de advogado, Olegário quebrou a tradição familiar ao estudar Artes Plásticas, na Universidade Santa Cecília (Unisanta), por onde se formou em 2002. “Eu nasci artista. Só estava relutando em não querer ser. Meus pais queriam que eu fosse advogado, mas eu seria infeliz”, reconhece. 

Durante a faculdade, ele pintava temas como natureza-morta. “Era um figurativo bem pobre. Sempre fui ruim de desenho. Então, me dizia surrealista. A única professora que dizia que eu chegaria em algum lugar era a Simone Marie, uma holandesa de sotaque carregado”, lembra.

O interesse pela pintura gestual e abstrata e pelos objetos surgiu entre 2006 e 2007, após assistir à cinebiografia Pollock (2001). 

Outra faceta de sua produção são os mantos inspirados nos parangolés de Hélio Oiticica e na obra de Arthur Bispo do Rosário. Os mantos são feitos com lonas e colagens.

Exposição

Uma instalação com dez telas do artista está em cartaz até sexta-feira, na exposição Conexão, na Galeria Patrícia Galvão, no Teatro Municipal Braz Cubas, em Santos.

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