Por dentro do ateliê de Luciana Futuro

Pintora de Santos cria suas obras no Morro Santa Terezinha, com vista privilegiada para a baía

10/09/2018 - 10:35 - Atualizado em 10/09/2018 - 11:03

A artista em seu ateliê no Morro Santa Terezinha (Claudio Vitor Vaz/Colaboração)

"Sou apenas uma pintora que gosta de pintar”. É assim, de um jeito simples e direto, que a santista Luciana Futuro se define. Para que sua labuta com a tela e o lúpus seja leve, ela ergueu para si um ateliê que é um sonho: no alto do Morro Santa Terezinha, com vista privilegiada para a Ilha de Urubuqueçaba e todo o horizonte dividido entre céu e mar.

Dali, ela vê os prédios da orla, os navios, os nasceres de sol e as tempestades chegando – cenários que preenchem criações pictóricas cheias de formas, cores e movimentos. 

Luciana foi a primeira artista a retratar, em tela, os famosos prédios tortos da orla santista, e eles parecem dançar em suas pinturas, assim como todos os elementos que compõem a paisagem praiana: muretas, leão do jardim, cargueiros, contêineres, igrejas. 

“Tudo é muito colorido e detalhado”, descreve ela, enquanto pinta uma grande tela com todos os detalhes da orla e da baía de Santos, exceto a figura mitológica de uma sereia. “Esse quadro faz parte da série da orla de Santos. Estava meio de lado, mas é um tema de que gosto bastante. Os prédios, tortos, comecei a pintá-los na época em que eu corria na praia e observava muito isso”, conta. 

Com 49 anos, Luciana pinta desde os 16. Não tem formação em Artes Plásticas. “Sem seguir diretrizes, descubro técnicas para mostrar o belo da maneira que percebo”, escreveu a artista, num catálogo bilíngue (português e inglês) com reproduções coloridas de suas telas, bancado por ela, em 2012.

Luciana mostrou sua arte em todo o Brasil, Estados Unidos, Inglaterra e Paris, no Museu do Louvre, em 2010. Superou a fadiga e as dores provocada pelo lúpus – doença autoimune, que desenvolveu no início deste século –, carregando suas telas por aeroportos estrangeiros e enfrentando, com um sorriso, a recepção fria de agentes de imigração. 

Ela conta que tudo começou em casa. “Quando eu era pequena, pintava para minha mãe (Lúcia). Gostava quando ela me elogiava. Acho importante elogiar uma criança quando ela faz uma pintura, um desenho, porque o que não é nada para o adulto, é muito para a criança. Acho que isso me fez ir adiante, o elogio, e assim vim pintando minha vida inteira”. 

Assista ao vídeo:

Coruja da madrugada

Luciana recebeu a reportagem de A Tribuna numa manhã ensolarada e fria de segunda-feira. Localizada numa subida do morro, sua casa possui uma arquitetura e uma decoração toda própria. Duas esculturas imponentes de leões, vindas de um artista de Minas Gerais, vigiam a porta dos fundos, assim como outras esculturas espalhadas pela casa, como uma coruja feita de sucata – a ave aparece representada nas pinturas da santista: “Eu pinto coruja porque eu sou uma, por ficar acordada de madrugada”.

Há muitos anos, a artista trocou o dia pela noite. “Eu fico acordada até as 6 da manhã. Gosto de pintar de madrugada, ouvindo música. Ouço de tudo. Zé Ramalho, Queen. Rock eu amo! 

Gosto de Def Leppard, Iron Maiden, Supertramp”, elenca ela, que, observando bem, possui mesmo um visual roqueiro: calça jeans 'boca de sino', botas, pulseiras, colares, cabelos compridos e tatuagens de estrelinhas coloridas, que preenchem todo o braço direito, desde a mão até o ombro.

E ali, em sua casa-ateliê no alto do morro, onde vive com o marido e três filhos homens (dois adultos e um menino), ela pinta numa espécie de retiro artístico e espiritual: 

“Se me deixar, fico aqui dias e dias pintando, sem parar para comer. Para ir a uma exposição, então, é uma guerra!”, declara Luciana, cercada de grandes cavaletes e potes de tinta acrílica, telas de todos os tamanhos, fotos de família, livros de arte, esculturas, brinquedos... memorabilia de uma vida rica de experiências.

De sua janela, ela tem vista para a Ilha de Urubuqueçaba, na divisa com São Vicente (Claudio Vitor Vaz/Colaboração)

Temas espirituais

Seu estilo livre e quase primitivo de representar os cenários em que vive surgiu entre 1989 e 90: “Foi quando comecei a pintar com esse estilo e fui aprimorando, inserindo sereias, ratos, as bicicletas, as plantas do jardim que é maravilhoso. Tem sempre o peixe em preto e branco, que simboliza o Santos Futebol Clube, os navios, os contêineres, a igreja do Embaré”, descreve. 

Ela reconhece sofrer um pouco para seguir com uma série temática, porque gosta de criar desenhos e temas novos:

“Agora mesmo estou com ideia de pintar circos. Já tenho um que pintei, mas estou prestes a colocar uma tela enorme aqui e pintar outro circo”, diz a artista, mirando o cavalete. “Mas eu tenho que começar e terminar um trabalho”. 

Entre outros temas que pinta estão as mulheres, especialmente figuras indígenas, baianas e carnavalescas, assim como imagens de santos, como São Jorge e Nossa Senhora, e de orixás como Iemanjá. 

Gosto de pintar a mulher brasileira, com corpo sensual, cinturinha, coxa grande”, descreve Luciana, que continua: “Mas depois que tive o lúpus, acho que fiquei mais espiritual. Hoje eu penso que as coisas têm uma razão de ser, que tudo tem um lado bom, por pior que seja. Foi quando comecei a pintar São Jorge. Fiz várias versões dele, sempre muito colorido. Gosto de tudo o que é feliz. Você não vai ver quadro meu triste. São todos alegres, com energia boa”.

Com influências que vão de Matisse a Picasso, Portinari, Aldemir Martins e Cícero Dias, Luciana declara que o que faz uma obra ser arte é ela vir de dentro de quem está criando. “Acho que meu trabalho é assim, porque eu consegui desenvolver um estilo só meu, que é uma coisa da qual me orgulho”.

Segundo ateliê

Luciana também mantém um ateliê-galeria na Rua Minas Gerais, 83, no Boqueirão, em Santos, que tem vitrine com suas pinturas. Conheça mais o trabalho da artista no site www.lucianafuturo.com.br.

A pintora mostra outro tema que gosta de pintar: mulheres (Claudio Vitor Vaz/Colaboração)

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