Por dentro do ateliê de Augustine Kawoh, em São Vicente

Artista plástico nigeriano escolheu a Baixada Santista para dar asas às suas inspirações

12/05/2018 - 17:19 - Atualizado em 13/05/2018 - 19:54

Augustine ou Austin (para os amigos) pinta sob encomenda também (Foto: Claudio Vitor Vaz/AT)

Num modesto apartamento na Vila Cascatinha, em São Vicente, cabe a África. Ou, pelo menos, a saudade daquele continente, traduzida em pinturas que retratam a fauna, a flora, as crianças, as mulheres e a emigração.

O nigeriano Augustine Kawoh, de 38 anos, é o autor das telas cheias de cor, vibração e emoção que decoram todos os ambientes do apartamento, dividido com a mulher, a brasileira Dayana, e a filha, Pérola Okeoghene Marques Kawoh, de 3 anos. “Okeoghene é uma palavra do idioma urhobo, que significa presente de Deus”, explica Augustine (ou Austin, como os amigos o chamam).

Nascido na cidade de Lekki e crescido em Warri, ele já pintava e trabalhava como mergulhador quando deixou a mãe e os nove irmãos para tentar uma vida melhor no Brasil, em 2012. Passou por Búzios e Macaé, no Rio de Janeiro, voltou para a Nigéria e, em dezembro do mesmo ano, desembarcou em Santos. O momento da chegada virou tema de uma pintura dele, que decora sua sala. 

A pequena Pérola, de 3 anos, adora acompanhar o pai durante as pinturas (Foto: Claudio Vitor Vaz/AT)

Admirador do espanhol Salvador Dalí, ele gosta de inserir toques surrealistas misturados a elementos tribais em suas pinturas, como é possível observar em várias de suas obras.

Outra pintura que chama atenção é o retrato de uma mulher africana, com turbante. “É a minha mãe, Patience, que tem 76 anos e quer vir ao Brasil para conhecer a neta. Eu gosto de pintar a maternidade, porque são as mães que suportam e lutam contra todas as coisas só para ver os filhos vencerem”, reconhece Augustine. 

Em Santos, ele se fixou após tirar certificado de mergulhador pela Faculdade de Educação Física de Santos (Fefis) e conhecer sua mulher, a agente de viagens Dayana, com quem se casou em 2013. 

Assista ao vídeo feito no ateliê do artista:



No País, trabalhou como mergulhador para empresas no Porto de Santos. Em paralelo, ia produzindo suas pinturas. “Cada trabalho que eu fiz na minha vida, eu botei minha arte no meio dos meus outros trabalhos, para todo mundo saber que eu sou artista”, disse ele, que realizou suas primeiras exposições profissionais no Brasil, aqui e em Sorocaba, no Interior. 

Augustine fala de forma pausada e com certa dificuldade de conjugar sujeito e verbo: suas línguas nativas são o inglês e o iorubá. Apesar de viver há cinco anos no País, ele está aprendendo português. Afinal, nasceu e cresceu num país colonizado pelos ingleses. “Eu ainda penso em inglês e falo em português”, explica o artista. 

Austin pintou o próprio retrato, quando jovem, recém-chegado a Santos (Foto: Claudio Vitor Vaz/AT)

Incentivado pelo pai, que era costureiro, começou a pintar aos 9 anos. “Ele criou uma competição, em casa, entre eu e meus irmãos, para que fizéssemos uma pintura de Natal. Eu ganhei e tomei gosto”, lembra ele, que nunca fez um curso formal de pintura.

Expôs em salões e individuais e ganhou prêmios de associações, mas ainda não está inserido no mercado da arte. Suas pinturas são compradas pelos clientes de sua estamparia e pelos fiéis de uma igreja evangélica. Ali, ele se surpreendeu com a grande procura por sua pintura. “Nunca pensei em vender arte para a igreja. Para mim, arte foi sempre na rua. Muita encomenda que eu tenho agora é de cristão”, revela ele, que costuma atender a pedidos de leões e retratos de Jesus para a igreja. 

Questionado sobre o motivo de ter vindo morar no Brasil, ele respondeu: “As pessoas saem para os Estados Unidos para viver de 'american dream' (sonho americano). Chegam lá e voltam para casa de novo. Brasil é ruim? Não é, Brasil é bom? Não é. Brasil é um País que abraça as pessoas. Não é país de sonho grande, é país onde, se você trabalhar, você ganha”. 

Retrato quando jovem

Em sua casa, o artista pinta num ateliê improvisado no quarto de Pérola – a pequena dorme junto com os pais, no quarto ao lado. Quando A Tribuna visitou o espaço, Augustine iniciou uma nova pintura, com técnica diferente: colagem com jornal sobre tela, enquanto contava sua história, sob o olhar da filha. 

Ele escolheu pintar um retrato de si mesmo, mais jovem, olhando para o alto, tendo ao fundo um horizonte ensolarado e repleto de edifícios (numa clara referência a Santos). O tema é inspirado nos sonhos que ele carregava quando chegou ao Brasil. 

Enquanto não vive de sua pintura, Augustine toca a própria empresa, a Adara Art’s – Viva África, e afirma colocar o coração em tudo o que faz: “Sobrevivência é uma coisa de coração. Hobby também é de coração”.


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