Por dentro do ateliê da artista santista Ana Akaui

Artista santista parte do breu para uma explosão de cores e formas inspiradas na natureza

08/07/2018 - 17:29 - Atualizado em 08/07/2018 - 19:27

Ana Akaui recebeu influência das suas avós materna e paterna (Foto: Claudio Vitor Vaz/Colaboração)

O grande retrato de uma menina de olhos puxados e meigos chama atenção de quem entra na sala de estar da artista plástica santista Ana Akaui. Feita por ela, a partir de uma fotografia, a pintura mostra Ana pequena, em torno de 4 anos, sentada numa mureta, com uma roda de charrete e uma vegetação em tons avermelhados ao fundo.

A imagem revela uma infância bucólica e solitária, em meio às flores e plantas do sítio da avó materna, Joana – que pintava telas. Filha única, de pais viajantes, Ana cresceu sob os cuidados de tias e avós. 

Do convívio com Joana e Celina, avós materna e paterna,que também pintavam, ela despertou para as artes.

“Uma (Celina) pintava em porcelana, lindamente, com muita técnica; a outra, que era autodidata, pintava vários tipos de temas como cavalos, paisagens, rostos e flores. Tinham uma sensibilidade incrível para as cores, e acabaram sendo pessoas muito especiais que enriqueceram minha vida profissional”, escreveu Ana, na introdução de sua dissertação de mestrado pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), em 2014.

A artista lembra que Joana tinha um caderninho de estudo das cores. “Eu estava sempre com ela, no sítio em Sorocaba. Minha avó pintava por horas e só parava para tomar café e fumar. Era quando me desafiava a olhar qualquer coisa e responder que cores eu usaria se fosse pintar aquilo”. 

Artista trabalha pinturas figurativas com visão detalhista (Foto: Claudio Vitor Vaz / Colaboração)

Ana se tornou especialista em química e composição de pigmentos. Hoje, aos 49 anos de vida e 35 de arte, incentiva seus alunos na busca das cores. 

Paralelamente à produção artística autoral, Ana se dedica a uma intensa carreira acadêmica. Formada em Pintura, Escultura e Gravura, com especialização em Pintura pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo, foi professora nos cursos de Arquitetura e Urbanismo e Design de Interiores da UniSantos – pela qual iniciou, em 2017, doutoramento com bolsa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), na área da arte-educação. 

Séries simultâneas
A artista recebeu a reportagem de A Tribuna em sua sala avarandada e transformada em escritório e ateliê, num apartamento no Boqueirão, onde mora com os filhos Gabriel, 18, e Ana Clara, 9. As paredes estão forradas por grandes telas de sua autoria. São pinturas figurativas e abstratas, nas quais predomina uma visão detalhista e, às vezes, microscópica da realidade, traduzida em linhas coloridas, tonalidades intensas, luzes e sombras.

Estantes com livros e duas grandes mesas preenchem o ambiente: sobre uma delas, notebook, livros e um caderno com anotações de Ana para sua pesquisa de doutorado; sobre a outra, potes de tinta, pincéis e decalques. 

Ana trabalha sobre duas telas, simultaneamente, cada uma pertencente a uma pesquisa: a série De Dentro da Mata é baseada em fotos feitas pela artista, numa expedição ao Parque Nacional de Teresópolis, no Rio de Janeiro; e a série Memórias de uma Árvore Morta, para a qual a artista transporta a imagem captada por meio da técnica do frottage (decalque) sobre troncos de árvore. 

Uma tela de Ana Akaui é concluída em dois ou três dias (Foto: Claudio Vitor Vaz/Colaboração)

“Em De Dentro da Mata, quero passar a sensação de que o espectador está olhando para as copas das árvores. Memórias de uma Árvore Morta é um trabalho meticuloso e introspectivo. Não posso nem falar enquanto pinto”, diz ela, segurando a respiração quando puxa uma longa linha verde sobre a tela, com o pincel.

Ana sempre teve fascinação por linhas, que estão presentes em todos os seus trabalhos. “Olho para a natureza e vejo linhas em movimento, numa composição rítmica”, explica.

Ela pinta rápido. Em dois ou três dias, termina uma nova tela, sempre de grandes dimensões. “Toda baixinha tem mania de grandeza”, brinca. 

Uma característica marcante de seu processo criativo é o fundo preto. Toda pintura de Ana começa da não-cor, do breu e o resultado são cores e formas vivazes, cheias e luz e contrastes. “Venho pintando do fundo para fora, do preto para o branco. Quando a última cor aplicada na tela é quase branca, sei que o trabalho está pronto. Aí eu paro, tomo um café e fumo, como minha avó fazia”, remete a artista. 

Do tempo do curso na Belas Artes, na década de 1990, Ana guarda uma lição do professor João Paulo de Latorre: “Enquanto você não acordar pintura, tomar café pintura, andar na rua pintura, ver sua casa pintura, você não será um pintor”, declama Ana, querendo dizer que respira pintura, 24 horas por dia. Antes de dar aulas, Ana fez parte do Atelier 44, com Chico Melo e o saudoso escultor Francisco Telles. “Esse ateliê foi muito legal. Eles eram a minha família”, reflete ela.

Mas, e o mercado? Ana vende? “Sempre tive a sorte de criar relações de venda espontâneas, como quando alguém me procura e me convida para projetos. Não busco vender porque eu não me sustento da pintura. Faço restauro, trabalho com arte na educação e sou pesquisadora federal pelo Capes. É um dinheiro que me permite desenvolver meu trabalho autoral”, avisa ela, que não se angustia por isso.

“Tudo depende do que você quer com dinheiro. Tem gente que quer muita coisa. Eu quero apenas que me sustente e dê conforto aos meus filhos”.

Ana vem sendo cobrada, pelos alunos, a fazer uma exposição. “Preciso ver isso direitinho. Vou ter que desviar minha atenção do doutorado, fazer portfólio, procurar galerias. Eu também acredito que uma hora vai pintar uma exposição bacana, porque acho legal mostrar um trabalho desse ”, reflete. 

Enquanto isso, ela pinta todos os dias. Quando não pinta, estuda e cuida dos filhos. “Vida de artista não é fácil, mas trabalhar sem comprometimento é deixar muito rasa a apropriação do seu conhecimento. Você passa pela vida e o que construiu com o que aprendeu?”, questiona. 

A série
Esta é a quinta reportagem da série Artes Visuais, que pretende tornar acessível, ao leitor, o que se passa nos ateliês dos artistas da Baixada Santista. Composta de dez textos, ensaio fotográfico e videorreportagem, o projeto é publicado no segundo domingo de cada mês, no Galeria e no site A Tribuna On-line

A série busca revelar as trajetórias, intenções e reflexões dos artistas enquanto criadores e suas relações com seus ateliês como espaços de construção subjetiva e objetiva de suas obras.

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