Pela memória e obra de Daniel Gonzalez

Instituto de Arte e Filosofia Daniel Leandro Gonzalez será instalado em uma casa tombada de Santos

15/04/2018 - 09:04 - Atualizado em 15/04/2018 - 09:33

Lena e Camilla Gonzalez estão cuidando do acervo de Daniel e Serafim (Foto: Nirley Sena/AT)


Os escultores Serafim e Daniel Gonzalez, pai e filho, serão sempre lembrados como autores da primeira e segunda versão, respectivamente, do monumento em homenagem às gravações da novela Mulheres de Areia em Itanhaém – cuja estreia completou 45 anos em 26 de março deste ano. 

Já falecidos, eles deixaram muito mais do que isso. Apesar de não serem naturais de Santos, Serafim (1931-2007) e Daniel (1956-2011) marcaram a história da Cidade, para onde se mudaram ainda na infância.

Praças e orla santista formam um museu a céu aberto com as obras dos dois, tais como: o busto de Zumbi dos Palmares, de autoria de Daniel, na Praça Palmares, no Embaré; o menino empinando pipa, de Serafim e Daniel, na Praça Cândido Portinari, no Marapé; os monumentos ao surfista Osmar Gonçalves e aos surfistas em geral, ambos de Daniel, no jardim da praia, na Pompeia; e o busto de Paul Percy Harris, de Daniel, na Praça Paul Harris, no Embaré.

Poderia haver mais. Porém, alguns projetos não vingaram, como as esculturas de deuses gregos que Daniel projetou para o condomínio Jardins da Grécia, na Ponta da Praia. “No lugar, preferiram colocar um polvo gigante”, lembra a jornalista Vanessa Rajomes, que está catalogando toda a obra deixada por pai e filho, especialmente de Daniel.

Ela abraçou a causa da viúva e da filha de Daniel: Lena Mello e Camila Gonzalez, de 27 anos, que cuidam de um espólio de 60 esculturas de Daniel, além de obras de Serafim e da mãe de Daniel, a também artista plástica Mara Husemann Gonzalez, que está viva. 

Desde dezembro, a jornalista tem atuado em três frentes: catalogando todas as obras deixadas pelos escultores, escrevendo uma biografia de Daniel e cuidando de toda a parte burocrática para a fundação do Instituto de Arte e Filosofia Daniel Leandro Gonzalez, numa casa tombada (em local ainda a ser divulgado), ainda este ano.

“Por ser um patrimônio tombado, estou dependendo de algumas assembleias de aprovação e de uma construtora que vai fazer a doação deste espaço. Tenho trabalhado para conseguir os patrocinadores e constituir o CNPJ do instituto”, explica Vanessa. 

A gestão do instituto será feita pela filha de Daniel, Camila, que tinha 19 anos quando o pai morreu precocemente, aos 54 anos de idade.

Preservação

Ela e Lena guardam o espólio do pai num apartamento e na garagem de um condomínio da família, no Marapé, e estavam prestes a vender todas as obras quando passaram a contar com a ajuda de Vanessa na catalogação e na ideia de criar um instituto para guardar e expor a obra de Daniel, Serafim e Mara.

“Decidimos preservar e divulgar o legado de Daniel. Por isso, aceitamos a indicação de Vanessa para trabalhar nisso”, ressalta Lena.

Vanessa conta que também atuará como curadora das obras e do instituto, e que o espaço oferecerá cursos de arte e filosofia. 

Camila pede para quem tiver esculturas de seu avô e pai, entrar em contato com ela, para que as obras sejam catalogadas e certificadas.

No dia em que A Tribuna visitou o apartamento em que Lena mora, estavam expostas várias esculturas de Daniel à mostra, na sala, para serem apreciadas por dois colecionadores de Praia Grande, que desejavam adquirir algumas peças.

Além de Santos, Daniel e seus pais também moraram em Praia Grande (entre 1991 e 2006) e Buenos Aires (para as gravações da novela Chiquititas, na qual Serafim atuou em 2000). “De Praia Grande, reuni mais de 40 obras que Daniel produziu lá”, conta Vanessa. Muitas são estudos para esculturas maiores, feitas em diversos materiais, como bronze, pedra sabão, resina policromada e cimento marmorizado.

Contatos

Camila Gonzalez, de 27 anos, é filha de Daniel Gonzalez e cogestora da Universidade da Paz (Unipaz), campus de Santos. Quem tiver obras de seu pai ou de seu avô, Serafim Gonzalez, e quiser contribuir para a catalogação e ganhar certificação da peça, deve entrar em contato com ela pelo telefone (13) 3349-7370 ou pelo celular (13) 98181-3013. 

Daniel Gonzalez

Nascido em 21 de outubro de 1956, em Campinas, veio morar desde os 5 anos em Santos. Formou-se em Filosofia pela Universidade Católica de Santos (UniSantos), onde também foi professor de 1987 a 1998.

Cursou Anatomia na Universidade Federal de La Plata (Argentina), de 1974 a 76, iniciando, no ano seguinte, seu trabalho como escultor, utilizado diversos materiais como fibra de vidro, bronze, granitina, resina, pedra-sabão e papel reciclado. Trabalhou com o escultor Segismundo Fernández nas oficinas da Escultura Labor, em Santos. 

Sua primeira obra pública data de 1977 e encontra-se exposta em São Vicente. De 1981 a 1984, trabalhou com cerâmica artística (faiança), iniciando participação em exposições. Morreu em 4 de setembro de 2011. Suas obras encontram-se em espaços públicos do Brasil e exterior.

Fonte: livro Esculturas Urbanas – Monumentos selecionados, de Maria Inah Rangel Monteiro e Rosangela Batista Vieira de Menezes e Silva (Santos, 2008)

Serafim Gonzalez

Ator e escultor, nasceu em Sertãozinho (SP), a 19 de maio de 1934 e aos 5 anos de idade mudou-se com a família para Santos, onde começou a esculpir com areia da praia. Aos 12 anos, fez sua primeira apresentação artística no programa de rádio Dindinha Sinhá.

Dois anos depois, participou da peça teatral Athenea, da poeta Itaci de Souza Telles, que estreou no Teatro Coliseu, e aos 17 anos passou a atuar como ator profissional como ator profissional no Rio de Janeiro. Nessa cidade, começou a utilizar folha de coqueiro para fazer esculturas com Segismundo Fernández.

Ao conhecer seu trabalho, em 1971, a escritora Ivani Ribeiro resolve dar o nome de Mulheres de Areia à novela que escrevia e nela apresentou esculturas feitas por Gonzalez. Morreu em 29 de abril de 2007 e, em 56 anos de carreira, atuou em 40 filmes, 20 novelas e quase 100 peças de teatro. 

Fonte: livro Esculturas Urbanas – Monumentos selecionados, de Maria Inah Rangel Monteiro e Rosangela Batista Vieira de Menezes e Silva (Santos, 2008)

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