Peça de teatro mostra Jesus reencarnado travesti

"O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu" é encenado nesta quarta-feira, no Teatro Guarany

20/06/2018 - 15:34 - Atualizado em 20/06/2018 - 15:34

Jesus Cristo falava de amor e foi julgado, morto e sepultado. Se voltasse à Terra, nos dias de hoje, como uma travesti, ele seria respeitado? Com base nas reações de ódio e preconceito diante da montagem brasileira da peça O Evangelho Segundo Jesus, Rainha do Céu (The gospel according to Jesus, queen of heaven), a resposta é não.

Em cartaz desde agosto de 2016, quando estreou no Filo – Festival Internacional de Londrina, o monólogo que tem a atriz transexual Renata Carvalho como Jesus reencarnado volta a Santos, nesta quarta-feira (20), às 20 horas, no Teatro Guarany (Praça dos Andradas, 100, Centro Histórico), dentro do 22º Fescete – Festival de Cenas Teatrais. A entrada é franca (ingressos na bilheteria).

A atriz santista Renata Carvalho é transexual e interpreta Jesus na peça (Foto: Divulgação)

Escrita pela dramaturga e atriz escocesa trans Jo Clifford (que acompanhou a montagem brasileira), a peça foi traduzida, adaptada e dirigida por Natalia Mallo, que escolheu a santista Renata Carvalho entre 20 atrizes travestis. "Desde que estreamos em 2016, sofremos agressões em Londrina, censura judicial em Jundiaí e Salvador e uma censura institucional do prefeito do Rio de Janeiro, na mostra Corpos Visíveis (que aconteceu entre os dias 8 e 10)", contabiliza Renata, que mora em São Paulo. "São reações que mostram como as pessoas veem a travesti. Isso é resultado da construção social em cima da nossa identidade".

A montagem já passou por Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Belfast (no Outburst Queer, na Irlanda do Norte). "Foram mais de 100 apresentações até agora. Depois de Santos, faremos uma mini-temporada no Rio de Janeiro, um festival em Guaranhuns, um festival internacional em Cabo Verde (África) e voltamos no final de julho para São Paulo. Costumamos dizer que a peregrinação de Jesus está intensa", adianta a atriz.

Ao retomar as apresentações da peça este ano, na mostra no Rio, Renata sentiu um carinho e interesse muito grande da plateia, tanto que precisaram fazer uma sessão extra. "Existe uma onda positiva muito maior do que os ataques. As pessoas, principalmente cristãs, ficam tocadas pela hermenêutica (interpretação de textos religiosos ou filosóficos) feita pela Jo Clifford, pois o espetáculo fala sobre amor, aceitação e tolerância nos tempos de hoje, sobre quem seria a população julgada e assassinada como Jesus foi naquele tempo? Seriam as pessoas de corpos dissidentes, corpos trans, que causam muito impacto nas pessoas", compara.

A atriz reconhece que este é o trabalho que mais lhe trouxe amadurecimento e reconhecimento. "Deu-me empoderamento e possibilitou-me olhar o outro com mais alteridade", diz ela, que também vai viajar o Brasil com a peça Domínio Público, além de gravar um curta e um longa (este com Eliane Caffé), entre outros projetos. 

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