Pantera Negra: a cor do heroismo

Filme é inspirado no primeiro super-herói negro das HQS, criado por Stan Lee e Jack Kirby

13/02/2018 - 10:20 - Atualizado em 13/02/2018 - 10:37

Longa estreia nesta quinta-feira nos principais cinemas da região (Foto: Divulgação)


ADILSON DE CARVALHO SANTOS
Especial para A Tribuna

Na cerimônia de entrega dos Golden Globes (Globo de Ouro) deste ano, Oprah Winfrey tornou-se a primeira atriz negra agraciada com o prêmio Cecil B DeMille, ocasião que aproveitou para lembrar do impacto da premiação em 1964, quando Sidney Poitier ganhou o Oscar de melhor ator por Uma Voz nas Sombras

Era a época da luta pelos direitos civis, um ano depois do histórico discurso I have a dream, de Martin Luther King, nove anos depois da costureira Rosa Parks ousar dizer não a um ato de segregação racial, e um ano antes do assassinato do ativista Malcom X. 

Se esses representaram a luta pela igualdade racial no mundo real, faltava um símbolo que trouxesse a questão para o campo da ficção. Coube a Stan Lee e Jack Kirby a criação do Pantera Negra, primeiro super-herói negro das HQs.

É verdade que antes do Pantera Negra já existia o Lothar, braço direito do mágico Mandrake (1934), de Lee Falk, mas a imagem era por demais estereotipada. Em 1947 foi publicada a revista All-Negro comics com os personagens Ace Harlem e Lion Man, mas esta ficou restrita ao número um.

Em 1954, ainda houve Waku, Príncipe dos Batu, da Timely Comics (Antecessora da Marvel), mas poucas histórias do personagem foram publicadas no título Jungle Tales.

O Pantera Negra quebrou essas barreiras, pois mostrava um homem negro com superpoderes e inteligência extraordinária, herdeiro do trono da fictícia nação africana de Wakanda. Sua primeira aparição foi na edição #52 do Quarteto Fantástico, de julho de 1966, na qual somos apresentados ao príncipe T’Challa, um homem culto (foi educado nas melhores escolas da Europa e América) que precisou superar o desejo de vingança quando seu pai, o Rei T’Chaka, foi morto pelo vilão Garra Sônica, que planeja se apoderar do valioso metal Vibranium, existente apenas em Wakanda. 

Dois meses depois da criação do personagem foi fundado o Partido dos Panteras Negras, grupo extremista que por cerca de 20 anos confrontou a polícia e demais instituições na luta contra atos racistas. 

Temendo qualquer associação inicial, Stan Lee chegou a rebatizar o personagem de Black Leopard, mas não demorou muito para reverter para o nome original. Depois de sua aparição inicial, o personagem ingressou nos Vingadores, levando a ganhar o título Jungle Action featuring The Black Panther a partir de 1973. 

Produção tem elenco poderoso e garante uma boa diversão nos cinemas (Foto: Divulgação)

Pantera Negra no Brasil
Em 1969, Pelé marcou seu milésimo gol pelo Santos FC, derrotando o Vasco no Maracanã por 2 a 1. Era um negro alcançando um marco nos esportes, no mesmo ano em que Grande Otelo venceu como melhor ator no Festival de Brasília por seu papel em Macunaíma.

Em meio a essas conquistas chegou às nossas bancas a revista Homem de Ferro & Capitão América #19 trazendo a história The Claws of the Panther, originalmente publicada em Tales of Suspense #98.

Foi o primeiro contato do leitor brasileiro com o príncipe T’Challa. Somente em 1974, a clássica história publicada originalmente no título do Quarteto Fantástico chegaria no Brasil na revista do Homem Aranha # 66, pela editora Ebal. Muitos anos depois, o personagem ganhou maior destaque no Brasil quando os heróis Marvel começaram a ser publicados pela Editora Abril a partir de Superaventuras Marvel #7 (Janeiro 1983). 

A Princesa Shuri, a irmã do Pantera Negra, só seria conhecida a partir de 2005, quando o escritor Reginald Hudlin e o desenhista John Romita Jr assumiram um novo título para o herói. Nos quadrinhos, T’Challa é voltado para a ciência, enquanto Suri é mais voltada para as crenças espirituais de seu povo. No filme, os papéis foram invertidos, fazendo de Shuri uma inventora e levando T’Challa à dimensão espiritual, onde se comunica com seu pai falecido. 

Outro momento marcante do personagem no Brasil é a história do casamento do herói com a Tempestade dos X Men nas páginas de Marvel Action #8 (agosto de 2007). Mais tarde, a Marvel reverteria tudo, separando os personagens.

Outros Heróis Negros
Com o caminho aberto pelo Pantera, outros super-heróis negros seriam lançados. Em 1969, Sam Wilson, o Falcão, tornou-se o parceiro do Capitão América, chegando a substituí-lo recentemente. Em meio a Blackexplotation (série de filmes com elenco e equipe essencialmente com artistas negros) surgiu o icônico detetive Shaft, interpretado por Richard Roundtree em 1971, e revivido por Samuel L.Jackson, em 2000.

Em 1972, a Marvel publicou Luke Cage Hero For Hire, que chegou ao Brasil um ano depois pela editora Górrion. Nesta ocasião, enquanto Luke Cage tinha o poder de ser incrivelmente forte e de pele indestrutível, na vida real o boxeador Muhammed Ali suportou 12 assaltos com o maxilar quebrado em luta contra Ken Norton.

Em 1979, a DC Comics chegou a publicar a icônica história Superman Vs Muhammed Ali. A mesma editora contribuiu com dois personagens de peso: em 1972 surgiu John Stewart, o primeiro Lanterna Verde negro (extremamente popular na animação da Liga da Justiça), enquanto em 1977 foi lançado Raio Negro, que viria mais tarde a ingressar na Liga da Justiça. Entre as heroínas, a Marvel tinha a mutante Tempestade (1975) e a rival DC tinha Vixen (1978) capaz de mimetizar as habilidades de vários animais. 

Nos anos 1980 estrearam a Capitã Marvel (1982) e Cyborg (1980) que, originalmente, fazia parte dos Titãs, e depois foi reformulado para a Liga da Justiça. Um dos personagens mais populares nos anos 90 foi o Super Choque (Static), criado pelo roteirista Dwayne McDuffie em 1993, e que chegou a ter uma animação de sucesso na tevê. McDuffie juntou-se a vários artistas afro-americanos e criou um universo de personagens negros na editora Milestone.

Os quadrinhos contribuíram com uma respeitosa representação étnica, mas devemos nos lembrar que o meio reflete os esforços de artistas desbravadores como a atriz Hattie MCDaniel, que foi a primeira negra a ganhar um Oscar (atriz coadjuvante) em 1939 por E O Vento Levou; a gravadora Motown, que abriu espaço para artistas como Michael Jackson, Isaac Hayes, Marvin Gaye ou, em tempos mais recentes, atores como Samuel L.Jackson, Morgan Freeman, Viola Davis, Idris Elba, Whopi Goldberg, Halle Berry, Denzel Washington entre outros.

Sua voz e a nossa são uma só: a de nos lembrar que seja na ficção ou na vida real somos iguais, humanos, e precisamos ser super-heróis para vencer o racismo e fazer todo o mundo lembrar que se ébano ou marfim, o equilíbrio real é conviver com as diferenças.

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