'Pagliacci', sonho antigo de Domingos Montagner, estreia em Santos

Ator, morto em 2016, compartilhava projeto com o amigo Fernando Sampaio, do Grupo LaMínima

16/02/2018 - 10:07 - Atualizado em 16/02/2018 - 10:16

Cena do espetáculo, que tem cenário artesanal, feito de papel e desenhos (Foto: divulgação)

Foi com a garganta apertada e um sorriso no rosto que os atores do LaMínima celebraram os 20 anos de existência do grupo cênico-circense, no ano passado, com o novo espetáculo "Pagliacci". A estreia foi a realização de um sonho e a homenagem a um de seus atores-fundadores, Domingos Montagner, morto de forma trágica, em setembro de 2016, após se afogar no Rio São Francisco, em Sergipe. 

Fernando Sampaio, ator, palhaço e fundador do grupo ao lado de Montagner, afirma que o amigo, de certa forma, esteve presente em todo o processo de montagem. "Pagliacci" estreou em data especial: em 27 de março, Dia do Circo, e ficou seis meses no Teatro do Sesi SP, com grande repercussão na imprensa e sessões lotadas. 

Também na Capital, ocupou o Teatro Municipal João Caetano, na Mostra LaMínima 20 anos. Depois, foi levado ao Rio de Janeiro. A peça retornou aos palcos este ano, em Santo André, e vem a Santos pela primeira vez, para duas noites no Teatro do Sesc: sábado (17), às 20 horas, e domingo (18), às 18 horas. Ainda há ingressos. 

Com texto de Luís Alberto de Abreu (da minissérie "A Pedra do Reino", para a Globo, e outras obras para televisão) e direção de Chico Pelúcio (do Grupo Galpão), "Pagliacci" é uma livre adaptação, de 90 minutos, da ópera homônima, do italiano Ruggero Leoncavallo (1857-1919). Foi montada centenas de vezes pelo mundo, sendo interpretada por grandes nomes, como o tenor Luciano Pavarotti. 

Sonho antigo

"Pagliacci" é um projeto de dez anos, 14ª montagem de repertório do grupo. A adaptação da ópera para o teatro vinha sendo rascunhada nos cadernos por Domingos Montagner. “Ele desenhava muito e tinha vários estudos de números, figurinos, cenários”, lembra Fernando Sampaio. 

O ator destaca que o amigo chegou a participar dos dois primeiros encontros com Chico Pelúcio e Luís Alberto de Abreu. “Nós nos preparávamos para começar os ensaios dali a 15 dias, quando terminassem as gravações da novela ("Velho Chico"). A passagem de Domingos aconteceu no começo do nosso novo projeto. Foi um golpe muito grande, mas acho que isso nos tornou mais unidos e fortes. Acabou que a celebração dos nossos 20 anos se estendeu para uma homenagem a Domingos”.

Feminicídio, não!

Na sinopse original, a ópera conta uma história de amor, traição e morte, envolvendo Canio (Alexandre Roit), o ciumento diretor de um grupo mambembe, e sua mulher, Nedda (Keila Bueno), que troca o marido pelo camponês Silvio (Sampaio). Movimentam a trama o mal-intencionado Tonio (Filipe Bregantim) e o bufão Peppe (Fernando Paz).

Na adaptação, Silvio não é um camponês, mas um dos integrantes da companhia, e há uma personagem nova, a sedutora Strompa (Carla Candiotto), namorada de Tonio. 

E há outras mudanças importantes: o componente trágico da ópera perde a força. “Na ópera, o mote principal é o feminicídio. Mas, para nós, era importante não afirmá-lo. Tanto que há uma frase na ópera que diz ‘la commedia è finita!’ e transformamos para ‘la tragedia è finita’”, explica Sampaio. 

O ator também conta que, a pedido de Luís Alberto de Abreu, o grupo desenvolveu a trama antes de montá-la. “Na ópera, a trama é um detalhe, um pretexto para as músicas. Nós a ampliamos e inserimos uma personagem. Levamos dois meses nesse processo de aumentar a trama”.

A dramaturgia também foi baseada nos ensaios e improvisos circenses dos atores do LaMínima, durante os ensaios, num processo que foi de outubro até dezembro de 2016. 

Música e cenário

A trilha sonora é, também, um elemento à parte na montagem. Foram utilizadas poucas músicas da ópera, como "Vesti la Giubba", pois o diretor musical Marcelo Pellegrini (que é santista) preferiu composições novas e originais, executadas ao vivo pelos atores, que tocam instrumentos nada convencionais, como garrafas d’água.

O cenário de Marcio Medina é todo artesanal, feito de papel, com desenhos ao fundo, que rememoram a trajetória do LaMínima, incluindo um retrato de Montagner como palhaço. 

Sampaio (esq.) e Montagner começaram como os
palhaços Agenor e Padoca (Foto: divulgação)

Ao lembrar o nome da companhia, Sampaio conta que LaMínima nasceu do primeiro espetáculo protagonizado por ele e Montagner, na verdade, um número chamado "As Bailarinas", dirigido pelo dramaturgo Naum Alves de Souza. “Eu e Domingos fazíamos duas bailarinas que realizavam de tudo numa companhia fictícia, e o Naum batizou-a de La Mínima Cia. de Balé”. 

Atualmente, Sampaio sente que a linguagem do circo vem se fortalecendo no Brasil, por causa da atuação das escolas de circo, muitas das quais com companhias atuantes em circo, que também funcionam como centros culturais e fazem encenações para teatro.

“As escolas de circo existem há cerca de 30 anos no Brasil, e posso citar várias, como a Intrépita Trupe e o Teatro de Anônimo, no Rio de Janeiro, Pia Fraus e os Parlapatões, em São Paulo”, exemplifica Sampaio, que, há mais de dez anos, associou o LaMínima ao trabalho do Circo Zanni, que reúne diversas gerações de artistas de circo.

 

Serviço: o Sesc Santos fica na Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida. Telefone: 3278-9800. Ingressos a R$ 20,00, R$ 10,00 (meia) e R$ 6,00 (credencial plena). Censura: 14 anos.

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