'Os Embalos de Sábado à Noite' chega aos 40 anos

Sucesso do filme de 1977, com John Travolta, é prova de que a cultura 'disco' continua viva

04/12/2017 - 10:13 - Atualizado em 04/12/2017 - 10:52

Imagem de John Travolta como Tony Manero é um ícone da era da 'disco music' (Foto: divulgação)

Os anos 70 insistem em não abandonar o imaginário popular, 40 anos ou mais depois do fato. "Star Wars" continua nos cinemas. A estética punk é tão reciclada e atualizada que nunca chegou, de fato, a sair de moda. E o disco de vinil virou o máximo em fetichismo vintage.

Mas se aquela que o jornalista Tom Wolfe chamou de a Década do Eu pode ser resumida numa única imagem, é a do ator John Travolta como o personagem Tony Manero. De terno branco e dedo indicador para o alto, esse é o ícone cultural consagrado em "Os Embalos de Sábado à Noite" – tradução malandramente brazuca para o título original, "Saturday Night Fever".

Lançado no dia 14 de dezembro de 1977, nos Estados Unidos (e inacreditáveis sete meses depois, no Brasil), o filme tornou a cultura 'disco' um fenômeno global.

Do roteiro à música, passando pela coreografia, "Os Embalos de Sábado à Noite" transpira falta de autenticidade. A história original foi baseada numa matéria que o jornalista Nick Cohn inventou e vendeu como reportagem verdadeira a uma revista. 

A trilha sonora é dominada pelo glacê pop dos Bee Gees. E os passos de dança que fizeram de Travolta um herói da classe média branca foram criados e ensinados por um coreógrafo negro, Lester Wilson.

Tudo muito anos 70. Em nenhuma outra década – nem mesmo na de 80 –, o artificial foi tão valorizado e reverenciado. A própria 'disco music' que o filme exibe como um estilo hiper-heterossexual, surgiu na verdade em meio à cena gay norte-americana. E permaneceu um símbolo de identidade de grupo, depois que a febre das discotecas passou.

Nada é o que parece em "Os Embalos de Sábado à Noite", mas de algum modo inexplicável, o filme funciona. Ele dá a falsa impressão de ser uma grande festa, como "Grease", o megassucesso seguinte de Travolta. Só que, tirando as célebres sequências de dança, a história tem um surpreendente tom pessimista. E passa longe, pelos padrões atuais, de ser uma produção para o público adolescente. Tony Manero não é exatamente feliz, nem sua vida é uma balada 24 horas.

Na trilha sonora, a manjadíssima "Stayin Alive" é o ponto temático central, apesar de nunca ter sido o estado da arte nas pistas de dança. Nem quando foi lançada. Seis meses antes, Giorgio Moroder já havia escrito o futuro da 'dance music' em "I Feel Love", com Donna Summer cantando sobre uma batida 100% eletrônica. As músicas dos Bee Gees só eram o futuro no sentido de que tocariam para sempre na sessão nostalgia de festas de aniversário, casamentos e batizados.

Indicou tendências
"Os Embalos de Sábado à Noite" foi, ao mesmo tempo, um reflexo das tendências culturais de seu tempo e um sinalizador do caminho para todos os musicais que viriam a seguir, de "Flashdance" e "Footloose" a "La La Land". Até por isso, foi desprezado com a mesma intensidade com que estourou nas bilheterias. A 'disco music' era vista, equivocadamente, como uma praga na música, e o filme, seu 'display' de maior visibilidade.

O próprio John Travolta viveu um purgatório de papeis ruins durante mais de uma década, até ser resgatado por Quentin Tarantino para dançar com Uma Thurman em "Pulp Fiction" (1994). Para os Bee Gees, a participação na trilha sonora já foi o resgate que precisavam desde a década de 60. E a música 'disco' acabou ganhando respeito pelas mãos de bandas inovadoras como o Chic, de Nile Rodgers, e ao gerar toda a subversiva cultura 'rave' – sem mencionar sua ampla incorporação pelo rock.

No filme, Tony Manero caminha pelas ruas de Nova Iorque com a atitude confiante de quem é, na pista de dança, o vencedor que não consegue ser na vida real. É para isso que ele se mantém vivo. Ainda é para isso que foram feitas as noites de sábado.

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