Orgone Grupo de Arte comemora 30 anos e estreia peça

Intitulada "Out-Door", a obra fala das dores, amores e superexposição das pessoas de hoje em dia

03/11/2017 - 11:32 - Atualizado em 03/11/2017 - 12:29

Cena de "Out-Door", que estreia neste sábado, no Teatro Rolidei (Foto: Irandy Ribas/A Tribuna)

A vida de Renato Di Renzo, de 64 anos, e Claudia Alonso, 49, se mistura com o teatro, a dança, as artes plásticas e a inclusão social dos diferentes. Mas é bom frisar que os diferentes podem ser tão normais quanto qualquer um de nós, desde que os conceitos se transformem.

Com muito amor à arte e ao ser humano, a dupla luta pela mudança de paradigmas na sociedade. Uma batalha que envolve teoria e prática em duas frentes: a ONG Tam Tam e o Orgone Grupo de Arte. A primeira existe há 28 anos e atende jovens portadores de síndromes e distúrbios de comportamento com aulas de dança e teatro. O segundo completou 30 anos e traduz, no palco, as experimentações estéticas de Renato, com atores amadores, com ou sem deficiência. 

As comemorações ao aniversário do Orgone têm início sábado (4) e domingo (5), às 20 horas, com a estreia da peça "Out-Door", na sede do grupo, o Teatro Rolidei, que funciona no mezanino do Teatro Municipal Braz Cubas, no Centro de Cultura Patrícia Galvão.

Continuará em cartaz com reapresentações nos próximos finais de semana, dias 11, 12, 18 e 19. “Serão seis encontros, seis leituras e seis conversas”, espera Renato. É uma peça de 60 minutos, para adultos, com ingressos a R$ 15,00 (único). 

A nova obra leva ao teatro reflexões do diretor sobre a superexposição das pessoas nas redes sociais. 'Outdoor' é um termo da moda para uma coisa que sai do particular. 

Outra expressão que tem sido muito usada é deselegante. “O que eu faço com a peça é expor as dores e angústias do homem contemporâneo de maneira irônica. É o teatro da deselegância”, diz Renato, que aponta uma coincidência no título: 'out', do inglês, gíria que define algo deselegante.

Claudia continua a reflexão: “A gente não trabalha com o discurso da queixa, mas de potencializar as coisas para que aconteçam. O trabalho do Orgone culmina nos 30 anos com o conceito da deselegância, porque a gente optou em não ser comercial, em não acabar em pizza, em incomodar”. 


Não linear

Com sete atores em cena, direção de Renato e assistência de direção de Claudia, a peça vem sendo desenvolvida há quatro meses, e não tem data para ficar pronta. “Acho que nunca fica. É sempre um processo”, define a diretora assistente. 

Sem uma história linear, a trama é uma colcha de retalhos sobre memórias, dores e amores do ser humano contemporâneo. Renato ressalta que "Out-Door" é uma peça, não um espetáculo. “Peça é diálogo e o ator do Orgone dialoga com a rua e a sociedade. É um ator social, não de espetáculo, algo voltado para a cultura de massa”.

O cenário é composto de objetos reciclados e ressignificados. “Tudo o que a gente usa em cena é resultado do conceito do instrumento cênico. Temos objetos que foram usados em outras peças e estão sendo reutilizados com outras propostas”, revela Claudia. 

Renato explica que instrumento cênico é um objeto que pode assumir diferentes funções e significados. “É como um instrumento musical, que pode ser usado para tocar vários gêneros de música. Eu venho da linha do Teatro Pobre e dos 'ready mades' de Duchamp. O objeto assume discurso próprio a cada peça”.

DNA da dança

O Orgone tem origem na dança. Há 30 anos, Claudia era uma bailarina com formação em balé clássico e contemporâneo. “Eu já era fora do padrão. Era bunduda, cochuda, não conseguia saltar”. Ela estudava Psicologia, em Santos, quando fundou seu grupo de dança, já com o nome Orgone. “Batizei com esse nome porque alguém me disse que era um deus que trazia boas energias”, conta ela.

No segundo ano da faculdade, conheceu o pensamento do psicanalista Wilhelm Reich, que desenvolveu o termo orgone para descrever a energia vital, a energia cósmica primordial. “Aí eu tive uma crise, porque eu não fazia nada que lembrasse aquilo”.

Nesse momento, ela conhece o diretor teatral, pedagogo e militante antimanicomial Renato Di Renzo, no embrião do que viria a ser a Tam Tam, e decide convidá-lo a dirigir a segunda montagem do Orgone. “Ele veio com a proposta de desconstrução absoluta e escreveu "Na Sala de Espera do Dr. Sigmund", em que misturava dança e teatro”. 

Claudia lembra que Renato botava as bailarinas de coturno em cena. “Começamos a ir aos grandes festivais de dança e a gente ganhava todos os prêmios da categoria Estilo Livre. Comparavam-nos à Pina Bausch. Aí o Orgone começou a ter uma cara”. 

Para Renato, teatro é estudo, movimento e diálogo com a realidade. “Stanislaski dizia que o ator tem de conhecer os palácios e os casebres”.

Serviço: O espaço Rolidei fica na Avenida Senador Pinheiro Machado, 48, Vila Mathias, Santos.




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