Músicos da região trabalham em harmonia com seus pais e irmãos

É o caso de Igor e Kika Willcox, Arismar do Espírito Santo e Thiago e Heitor e Chico Gomes

18/02/2018 - 17:09 - Atualizado em 19/02/2018 - 09:25

Kika Willcox e seu irmão, Igor, quando formavam a dupla E-cox (Foto: divulgação)

Peço licença para contar algo pessoal que ilustra bem a reportagem que vem a seguir. Entre 1999 e 2002, mantive uma banda de punk rock em atividade. A Gas Burner realizou uma série de shows em casas como Praia Sport Bar, Armazém 7 e Bar do 3. Em algumas situações, eu, como vocalista da banda, me vi obrigado a substituir integrantes de última hora. Fosse por algum acidente sofrido por eles ou falta de maturidade para cumprir a agenda. 

A solução natural era meu irmão Matheus. Foram diversas as vezes que ele assumiu a guitarra para manter o show de pé. Trabalhar com ele sempre foi mais fácil para mim. Não tinha tempo feio. Solucionava todos os problemas. Além de dar uma força mais que necessária nas letras.

A minha história com meu irmão não é a única em projetos musicais com familiares. Santos tem uma tradição e tanto em reunir irmãos, pais e filhos e até casais em seus trabalhos como músicos. Como esquecer das famílias Zago, Gomes, Simonian, Willcox, Espírito Santo e tantas outras?

Os irmãos Igor e Kika Willcox trabalharam juntos em diversos projetos, o mais conhecido o E-Cox. E produzir em família é com eles mesmos. Kika apresentou recentemente um show especial com a mãe, Sônia, uma das pioneiras da bossa nova na região. Igor já gravou com o outro irmão, Chico, o projeto NewSambaJazz, um trio que contava ainda com o músico Erik Escobar. Ah, o pai deles também era músico. O falecido Paulo Cezar Willcox era maestro, pianista, arranjador e percussionista, superconceituado.

E se não bastasse tudo isso, Igor integrou outra família musical bem conhecida, a gaúcha Família Lima. “A Kika e eu começamos na noite santista praticamente juntos, montamos uma banda chamada Too Soul. Eu estava começando, tinha 15 anos”.

Para Igor, que é baterista, trabalhar em família é uma experiência muito legal. “Você conhece bem a pessoa com quem está trabalhando. No caso do meu trabalho com a Kika, estávamos sempre produzindo, gravando e viajando juntos. Era praticamente o mesmo convívio do dia a dia, com a diferença que sempre havia um respeito mútuo, pois um dos maiores segredos de se trabalhar em família é nunca misturar os problemas pessoais e desentendimentos com o trabalho”, conta.

O baterista afirma que é difícil encontrar ponto negativo nessa relação com a irmã, mas Kika aponta. “Quando estávamos cansados, exaustos, com fome, saíam umas faíscas, mas sempre um segurava o outro. Normalmente nos desentendíamos por fatores externos, pessoas chatas, essas coisas”.

A própria experiência com a Família Lima ajudou Igor a levar seus projetos com os irmãos adiante. “Toquei sete anos na Família Lima, com certeza aprendi muita coisa com eles nesse sentido, pois ali são cinco pessoas com pensamentos e idades diferentes, mas sempre lutavam por algo comum, que era a carreira deles”.

Filho de baixista...

Heitor Gomes é filho do baixista Chico Gomes
(Foto: divulgação)

Ex-baixista do Charlie Brown Jr e CPM 22, atualmente no Pavilhão 9, Heitor Gomes é filho do baixista Chico Gomes, um dos mais técnicos do Brasil.

“Comecei observando ele ensinar música e gravar em estúdio e fazendo shows e estudando. Após alguns anos, obtive experiência e ele me convidou para produzir seu último disco, 'O Espaço do Baixo', de 2010. Esse projeto se chamava "Los Gomes Company".

Para Heitor, não há grande diferença, a não ser o lado sentimental. Mas ele destaca o que mais gosta na hora de trabalhar com o pai. “Realizar esse sonho de ter o respeito de um músico excepcional, que no caso é meu pai, e a sensação de ter chegado a um nível superior na música. Como meu pai é considerado mestre, eu me senti muito realizado”.

Voltar a trabalhar com o pai não está nos planos, por enquanto, mas Heitor tem outra ideia. “Penso em prestar mais homenagens ao legado que meu pai me passou na música, no caso a técnica que ele criou e desenvolveu chamada de Triplo Domínio ou tripla coordenação em tapping, que consiste em executar em um contrabaixo de oito cordas três funções da música que são o baixo, a harmonia e a melodia, e honrar cada vez mais o nosso nome na história do contrabaixo”. 

O multi-instrumentista Arismar e o baixista Thiago realizam alguns shows juntos (Foto: divulgação)

O contrabaixista Thiago Espírito Santo, filho do multi-instrumentista Arismar do Espírito Santo e da pianista Silvia Goes, também possui uma experiência interessante.

“Comecei a tocar com o meu pai no final da década de 1990 e, desde então, venho realizando alguns shows com ele como integrante da banda dele. Com a minha mãe também foi na mesma época. Tínhamos um trio com o Alex Buck (baterista). Em 2002, gravei o disco do Arismar, "Estação Brasil”. 

Desde então, os dois têm trabalhado juntos. Atualmente, os projetos familiares são os duos com o pai e com a mãe. “A relação familiar é mais forte que a profissional e isso gera situações fantásticas para se trabalhar. Mas em alguns raros momentos também fica delicado, afinal, se eu tiver alguma divergência, terei que argumentar com um parente, que nem sempre vai olhar para mim como outro profissional”, diz, aos risos.

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