Mulherio das Letras invade João Pessoa em outubro

Movimento literário ganha força no Brasil; São mais de 5 mil mulheres inscritas

12/09/2017 - 07:13 - Atualizado em 12/09/2017 - 07:27
Vanessa Ratton, Maria Valéria, Suzana Ventura, Madeleine Alves e Orleyd Faya, algumas das representantes da região (Foto: Divulgação)

A discussão sobre a falta de mulheres na programação de festivais literários, em 2016, na edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), deu força para um movimento que estava surgindo à época. De forma nítida, o Mulherio das Letras iniciava suas conversas, sem nome definido, apenas com o objetivo de mapear e identificar mulheres da escrita: escritoras, dramaturgas, designers, de todos os campos possíveis.

Apesar de aparecer sempre à frente das propostas, encontros e discussões do Mulherio das Letras, a santista Maria Valéria Rezende, vencedora do Prêmio Jabuti de 2015, com o livro Quarenta Dias, não se considera líder ou mesmo idealizadora da proposta.

"Já tínhamos uma turma discutindo esse assunto e essa proposta. Durante a Flip do ano passado, o Itaú Cultural conseguiu uma sala para nós e fizemos uma reunião. A partir dali surgiram os primeiros passos mais concretos do Mulherio das Letras”, comenta a escritora, que vive em João Pessoa (PB).

A edição da Flip em questão, em julho de 2016, foi marcada por muitas críticas das escritoras e imprensa especializada. Boa parte comentava a falta de presença delas na programação oficial, enquanto a mídia batia forte na falta de autores negros, o que levou o evento a receber a incômoda alcunha de Arraiá da Branquitude.

A reação das autoras com a criação do movimento Mulherio das Letras foi imediata. Hoje, o grupo fechado no Facebook conta com mais de 5 mil mulheres, das mais diversas áreas da escrita. “Estamos com Mulherio das Letras em vários estados, regiões, na Europa, em vários lugares. Na Baixada Santista, por exemplo, temos um grupo bem ativo, já com 47 mulheres”, comenta Maria Valéria.

E para marcar mais presença ainda e conhecer o grupo, o Mulherio das Letras promoverá, de 12 a 15 de outubro, o primeiro encontro nacional do movimento. “Não será um evento com personalidades falando apenas. É um evento para todas as mulheres. Teremos microfone aberto. O grande objetivo do Mulherio das Letras é reforçar a presença das mulheres. Nós mesmas não sabíamos umas das outras. É um encontro festivo de auto-reconhecimento ou reconhecimento mútuo. Precisamos saber onde estamos, como estamos e o que produzimos”, explica a autora.

A escritora afirma que dificilmente o grupo inteiro conseguirá se reunir em João Pessoa, mas espera uma participação grande. “Não temos patrocinadores, é um evento independente, nosso. Temos alguns pequenos apoios e parcerias”.

Uma campanha de financiamento coletivo no site Benfeitoria visa juntar R$ 9.348,00 até 10 de outubro. O recurso será aplicado na segurança, limpeza e materiais do encontro. Até o momento, R$ 8.160,00 já foram arrecadados.

Convidada pela dramaturga Adelia Nicolete, Orleyd Faya, que faz parte do movimento na Baixada Santista, o Mulherio das Letras é importante pela criação horizontal e a honestidade de receber as propostas.

“Tenho percebido que esse grupo vem se desenvolvendo com valores muito ligados ao feminino. Não o gênero, mas no sentido da sensibilidade, irmandade, tentativa de englobar, envolver, aceitar, compreender. São valores femininos, matriarcais. Nossa sociedade está precisando”.

A jornalista e escritora Vanessa Ratton chegou ao Mulherio por intermédio de Orleyd e se incumbiu de organizar uma antologia com as participantes, que será lançada em João Pessoa, durante o encontro.

“Vi tantas mulheres conversando sobre a literatura feminina, a falta de espaço, cada uma falando um pouco sobre o que gosta de escrever e o que faz. Pensei: ‘manas, vamos dar voz a esse Mulherio? Quem topa participar de uma Antologia de Poesias?’ São muitas mulheres, de todos os estados e até do exterior. Foram 59 poetisas, uma ilustradora, que é a Silvana de Menezes, também autora famosa, mais a apresentação da Maria Valéria Rezende”.

Um dos destaques do primeiro encontro nacional do Mulherio das Letras serão os lançamentos literários. Um deles, em especial, foi organizado por Vanessa Ratton, que reuniu 59 poetisas e uma ilustradora para uma antologia. O termo é contestado por Maria Valéria Rezende. “Prefiro chamar de coletânea, tem mais a ver”.

Força nas letras
“Só a mulher vive a graça de ser mãe, dar a luz, gerar outro ser. Até pouco tempo atrás, era obrigada a ser virgem, a casar com quem o pai escolhia, ser mãe e não podia votar. Enfim, hoje tem dupla jornada, tem que ser mãe, esposa, amante e profissional”.
Vanessa Ratton, jornalista e escritora

“É um encontro que acontece de trás para adiante. No convencional, você tem projeto, patrocinador, curador, convidado, cachê, passagem e depois vem a programação. O público vem pelo fim. Fizemos o contrário, o público vem primeiro”.
Maria Valéria Rezende, escritora

“Estamos encontrando um ambiente de construção coletiva. É um movimento com caminho fraterno e que vem de baixo para cima, mas como uma liderança importante de escritoras e ilustradoras. Até leitoras querem participar”.
Orleyd Faya, dramaturga 

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