Mindhunter, o estranho brilho das flores do mal

Uma reflexão definitiva sobre a natureza do serial killer

07/11/2017 - 16:22 - Atualizado em 07/11/2017 - 16:40

Há um fascínio estranho (Foto: Reprodução)

Charles Baudelaire dizia que é preciso estar sempre embriagado. Se embriagar sem descanso com ”álcool, poesia ou virtude”.

Virtude era algo plausível na modernidade que o poeta francês ajudou a inaugurar. Hoje, nem tanto. A embriaguez pós-moderna ainda pressupõe o álcool (e todas as suas variações sintéticas), mas não a virtude como a conhecíamos.

Na era da poesia da destruição, a virtude está em encontrar respostas na vertigem e na embriaguez do mal. Mindhunter, a série da Netflix coproduzida e parcialmente dirigida pelo cineasta norte-americano David Fincher, promove a arqueologia dos últimos anjos caídos do século 20, os assassinos em série – ou, para ficar na terminologia técnica consagrada pela imprensa e pelo cinema, os serial killers.

A partir dos anos 60, o serial killer passou da condição de pesadelo social a instituição da cultura pop. Axl Rose, no auge do sucesso do Guns n’ Roses, não só fez shows vestindo uma camiseta estampada com a cara do notório Charles Manson, como gravou uma de suas canções, Look at Your Game, Girl. O mandante do massacre de sete pessoas na Califórnia, em 1969, ainda inspirou o nome artístico do astro de shock-rock Marilyn Manson – cuja banda é formada exclusivamente por músicos que adotam combinações de nomes de loiras famosas e assassinos seriais.

Mindhunter parte desse fascínio estranho para refazer o longo e tortuoso caminho, seguido por dois agentes federais norte-americanos que se dedicaram a tentar entender o funcionamento da mente dos mais brutais criminosos da América. O resultado é um road movie macabro, que segue as versões cinematográficas dos investigadores John E. Douglas e Mark Olshaker, ambos do FBI, que nos anos 70 estabeleceram as bases para a definição do perfil psicológico desse tipo de assassino.

Olshaker, que na série corresponde ao veterano agente especial Bill Tench, é reconhecido como o autor do termo serial killer, enquanto Douglas, como o ambicioso novato Holden Ford, é autor de livros e manuais sobre os padrões de comportamento desses predadores. Tench e Ford têm visões diferentes – e, com frequência, conflitantes – quanto ao método a ser usado para obter respostas dos objetos de estudo, mas é desse antagonismo que o diretor/produtor David Fincher tira a maior tensão dramática da história.

Fincher não é estranho ao tema. Pelo contrário, ele é o autor de Seven (1995), um dos dois melhores filme já feitos sobre crimes em série (o outro é Henry: Retrato de um Assassino, de John McNaughton). Ele ainda realizou uma prévia de Mindhunter no brilhante Zodíaco (2007), também baseado em um caso real.

Ao contrário de Seven, a série, que estrou em outubro na Netflix, não recorre à exibição gráfica de assassinatos. O máximo que se vê, relacionado aos crimes, são fotografias forenses. O impacto vem do jogo de xadrez mental entre os agentes e alguns dos matadores mais frios da história recente.

Mindhunter tem ainda o padrão visual sombrio típico de David Fincher (Foto: Reprodução)

Mindhunter tem ainda o padrão visual sombrio típico de David Fincher, além de fazer uma reconstituição espetacular dos anos 70 (a ação se passa em 1977), o que inclui uma trilha sonora repleta de canções da época – o que não seria novidade, se não fosse pela escolha surpreendente de deep cuts na linha de In the Light, do Led Zeppelin, e Right, de David Bowie.

Agentes são incansáveis na perseguição de criminosos (Foto: Reprodução)

Para uma série que, aparentemente, trata de serial killers, a maior surpresa está em descobrir como o tema, na verdade, é o próprio público. A obsessão do agente Holden Ford reflete a atração que a vida dos assassinos exerce sobre boa parte das pessoas.

A cena em que os investigadores se espantam ao ver as dezenas de fotos que as mulheres mandavam para um psicopata na prisão deixa esse aspecto bem claro. A atração pelo mal, dos dois lados da sanidade, é o verdadeiro enigma que Mindhunter expõe com sutil ironia. E intensidade visceral.

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