Jornalista lança livro sobre a infância como espaço de afeto

Laís Barros Martins tem 30 anos e celebra as crianças em textos curtos no livro "A Infância dos Dias"

07/11/2017 - 10:08 - Atualizado em 08/11/2017 - 10:24

Escritora rememora infância em sítio de Minas
(Foto: Pedro Ivo Trasferetti/Divulgação)

Inconformada com o fato de que, ao ficarmos adultos, nós nos esquecemos da criança que fomos, a jornalista e escritora mineira Laís Barros Martins se recusa a abandonar as primeiras lembranças de sua vida. 

Fascinada por temas ligados à infância, ela se dedica a pesquisar e escrever sobre o assunto, em reportagens publicadas em revistas como Pais & Filhos e Vida Simples.

Paralelamente, compõe contos e crônicas que têm as crianças como inspiração, agora reunidos em seu primeiro livro, "A Infância dos Dias", que lança pela Editora Laranja Original, sexta-feira, às 19 horas, na Livraria Zaccara, em São Paulo. 

Com apresentação do crítico literário e escritor Krishnamurti Góes dos Anjos e posfácio de Ana Holanda (editora da revista Vida Simples), a obra tem 180 páginas e 78 textos, de ficção ou não, alguns autobiográficos, em que a autora aborda situações alegres e tristes. 

“Para não categorizar, gosto de dizer que escrevo textos curtos. Não falo só da infância feliz. É um livro sobre a infância sem ser infantil. Também há histórias pesadas, envolvendo adoção, educação, pedofilia”, explica Laís.

Com 30 anos de idade, a autora mora há seis em São Paulo, mas sempre que pode se conecta com o chão da sua infância, num sítio em Andradas, Minas Gerais, onde viveu seus primeiros anos. Foi uma infância marcada por colo de avó e fruta apanhada no pé (leia trecho mais abaixo). 

Mais tarde, se mudou para Bauru, no Interior, para cursar Jornalismo na Unesp. Formou-se em 2009, com um Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que teve como tema, claro, a infância.

“Foi um trabalho sobre crônicas jornalísticas. Acompanhei, por seis meses, crianças da creche da universidade e de um projeto social na cidade. A experiência resultou em 15 crônicas que fizeram parte do TCC e estão no livro”, descreve Laís, que também resgatou textos de quando estava na segunda série do Ensino Fundamental.

Aquela ‘pessoinha’

Laís segue uma disciplina rigorosa para não deixar morrer a porção da criança que existe nela. Como? Exercitando os sentidos e renovando a forma de experimentar a vida, como ensina o filósofo e educador Gabriel Limaverde.

Capa do livro "A Infância dos Dias"
(Reprodução)

A escritora ressalta que a infância não é uma fase que ficou para trás. “Ela está presente em nós. Ainda somos aquela 'pessoinha', que faz parte da nossa essência, mas com experiências acumuladas”, considera.

Cercar-se de crianças também é um exercício importante para quem não quer esquecer sua criança interior. “Ter crianças por perto é uma fonte inesgotável de energia, espontaneidade e sinceridade. Elas falam o que pensam, coisa que nós nem sempre fazemos”, diz. 

Outra vantagem da convivência com crianças é aprender a ressignificar o cotidiano por meio da observação. “Não percebermos os detalhes, de tão mecanizados que ficamos”. 

Depois da leitura de "A Infância dos Dias", uma pergunta que talvez o leitor não se furtará de fazer é esta: “Será que a criança que fui iria se afeiçoar ao adulto que me tornei?”. São reflexões desse tipo que a obra de Laís provoca.

Serviço: A Livraria Zaccara fica na Rua Cardoso de Almeida, 1.356, Perdizes. Preço de capa: R$ 35,00.

Trecho:

“Depois a vó subia a passos miúdos no barranco que dava no pomar e colhia as laranjas e amoras e mangas e descascava as de descascar ou enchia a mão dos pequenos daquelas curiosas pretinhas azedas numa grande roda de conversas e de sabores e do calor gostoso daquela tarde aberta embaixo da ameixeira.

Aí a gente se fartava do simples que aqueles dias significavam: a madrugada regada por mugidos inquietos pela manhã que se pronunciava, pelo orvalho guardado nos cones empilhados por nós, os primos e netos, dos eucaliptos tão altos, pelo anúncio inconfundível do dia que nascia primeiro para as galinhas e depois para aqueles que viviam sem muita preocupação com o que estava vindo, a não ser o cuidado com uma mesa farta e uma comida sem classificações chatas e burguesas de mexicana, japonesa ou chinesa, quase sempre confundidas estas últimas”. 

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