'Hysteria' faz viagem ao século 19 no Festa 60

Espetáculo do Grupo XIX de Teatro é reapresentado, nesta sexta-feira, na Cadeia Velha

31/08/2018 - 10:41 - Atualizado em 31/08/2018 - 10:49

Cena da peça (Divulgação)

Perto da hora do crepúsculo desta sexta-feira (31), esqueça o celular e a iluminação artificial e embarque numa viagem no tempo e no espaço por meio da peça "Hysteria", que se passa no século 19, dentro do prédio histórico da Cadeia Velha, na Praça dos Andradas, Centro de Santos.

Trata-se de oportunidade rara, oferecida pelo Grupo XIX de Teatro, de São Paulo, e pelo 60º Festival Santista de Teatro (o Festa 60), que se encerra domingo.

Os ingressos para o "Hysteria" serão distribuídos uma hora antes da apresentação, marcada para as 16 horas, para uma plateia seleta de 80 pessoas – o público acompanha as atrizes e as cenas de perto, como se estivesse dentro da peça.

Escrita pelo premiado diretor e ator santista radicado na Capital, Luiz Fernando Lopes Marques (o Lubi), em conjunto com as cinco atrizes do espetáculo, "Hysteria" fala de uma época em que a sociedade brasileira patriarcal, ao menor traço de rebeldia de suas mulheres, mães, filhas ou irmãs, preferia confiná-las em manicômios a ouvi-las e respeitá-las. “A peça é baseada em fichas médicas dessas mulheres trancafiadas, que encontramos no Hospício Pedro II, no Rio de Janeiro”, conta Lubi. 

Em cartaz desde 2001, esta é a terceira vez que "Hysteria" é apresentada na Baixada Santista. “Depois da estreia em Curitiba, a levamos para o Centro Cultural Português, em Santos, em 2002, e para a Fortaleza da Barra Grande, no Guarujá, em 2012, dentro do festival Mirada”, lembra o diretor. 

Bastante premiada, a peça percorreu mais de 100 cidades brasileiras e 24 no exterior, com apresentações em Portugal, Inglaterra e França, sempre em lugares alternativos e históricos. “Todas as vezes que a gente leva essa peça para lugares que têm essa memória de confinamento e tortura, ela ganha um peso maior, como quando apresentamos num lugar usado para tortura, durante a ditadura, numa cidade do Paraná”, ressalta Lubi, que elenca os lugares inusitados já ocupados pela peça: “cadeia, hospital, armazéns e casarões abandonados, sempre buscando espaço que nos ajude a contar essa história”.

Para o diretor, apresentar "Hysteria" na Cadeia Velha tem todo um simbolismo: “O prédio simboliza o cárcere, mas também um lugar de resistência cultural da Cidade, pois eu também, como santista, cheguei a fazer as oficinas culturais Pagu ali e sempre visitei aquele espaço, que sofreu com tantas idas e vindas, mandos e desmandos”. 

O espetáculo utiliza a luz natural (Divulgação)

A apresentação de hoje será feita no foyer Plínio Marcos, no primeiro andar da Cadeia Velha, exatamente como ela é, retirando todas as interferências, e utilizando a iluminação natural. “Por isso escolhemos apresentar às 16 horas, pois contamos com a luz solar interferindo no ambiente, assim como o vento que entra na sala. A peça tem toda uma relação com persianas, portas e janelas, procurando trazer a vida dessas mulheres do século 19, que levavam uma vida diurna, numa época de pré-eletricidade. Não usamos nenhum recurso de luz artificial”, descreve.

Fricção do tempo

"Hysteria" foi construída pensando num diálogo com o século 21. Com pesquisa, texto e atuação de Gisela Millás (Nini), Janaína Leite (Clara), Juliana Sanches (M.J.), Raissa Gregori (Hercília) e Sara Antunes (Maria Tourinho), a peça promove o que Lubi chama de “fricção de tempo”, como se a “gente percebesse as contradições em que temas do século 19 ainda reverberam nos tempos de hoje, assim como os pontos difíceis de serem superados pela sociedade ainda machista”. 

O diretor espera realizar uma apresentação muito especial, devido ao encontro de todas as energias construídas desde o início do Festa, com homenagens às mulheres e à memória de Pagu, que foi presa na Cadeia Velha, em 1931. 

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