História contada em panfletos e cartazes dá origem a livro

Gustavo Piqueira, autor e designer gráfico, lança novo projeto

30/08/2016 - 16:45 - Atualizado em 30/08/2016 - 16:45

Um livro que vai além dos limites do papel, que extrapola a noção do que é uma obra literária e cujo conteúdo mistura ficção, realidade, história, biografia, marketing viral e artes visuais. Assim é Valfrido? (Ed. Lote 42, 192 págs., R$ 49,90), o 18º livro do designer gráfico e escritor Gustavo Piqueira, de São Paulo.

Quem olha para a capa dura do volume não desconfia que a obra resultou de intervenções urbanas e do envio de malas diretas para 9 mil casas, em dois bairros paulistanos: Santa Cecília e Higienópolis.

A história, inventada por Piqueira e publicada em dez capítulos, foi enviada aos milhares de destinatários, duas vezes por semana, na forma de panfletos ilustrados, via caixa postal simples dos Correios.

Sem saber se tratar de obra literária, os moradores acompanharam, de 29 de outubro a 4 de dezembro de 2015, os desdobramentos de uma história de amor e traição envolvendo o dono de uma empresa de carreto (Valfrido), sua ex-mulher (Lucielle) e seu ex-sócio (Aldemir, ou Dime). 

Com o objetivo de despertar a curiosidade e o estranhamento em quem recebeu o primeiro capítulo (ou panfleto?), Piqueira começou o texto com um xingamento: “Valfrido, seu canalha! Canalha! Pensa que pode sair pisando nos outros assim? Pensa?”.

O autor com uma das placas que usou como parte das performances de rua em São Paulo (Foto: Divulgação)

O nome do personagem, explica o autor, foi pensado com o cuidado de não causar confusão entre vizinhos e familiares. “É muito difícil encontrar um Valfrido em qualquer condomínio, mas soubemos, depois, que existiu um ex-síndico com esse nome”, conta ele.

A história vai se desdobrando sob a ótica dos três personagens, cada um defendendo seu lado e esculhambando o outro – até surgir o depoimento de uma suposta moradora de um dos bairros, dona Elvira, para confundir ainda mais o leitor. 

Mas nem o destinatário das malas diretas nem quem adquirir o livro conhecerá o desfecho desse conto. Afinal, o livro é uma reflexão de Piqueira sobre a performance e outras obras de sua autoria, tão “mirabolantes” quanto esta (para usar um adjetivo que ele mesmo usou em entrevista para A Tribuna). 

Em formato diferenciado, o livro tem capa dupla e é todo ilustrado com fotos das intervenções nas ruas: homens e mulheres-placa estampando o nome Valfrido; colagem de lambe-lambes da empresa fictícia Valdime Transportes; uma coroa de flores colocada sob uma árvore na esquina das ruas Jaguaribe e Aureliano Chaves. 

No fim do volume, o leitor ainda encontra os dez panfletos originais, impressos em gráfica rápida – exceto um cartaz feito em serigrafia.

Bastidores

Piqueira explica que gosta de brincar com os princípios construtivos de um livro. “Valfrido? foi sendo construído coletivamente, não tinha uma hipótese a ser confirmada. Eu também queria subverter a ideia do que é uma narrativa de ficção”, diz.

Desse modo, trata-se mais de um meta-livro (livro sobre o livro), com reflexões do autor sobre situações que envolveram até a ética, como a descoberta de como funciona a distribuição dos panfletos publicitários dentro dos edifícios.

“Há porteiros que cobram uma espécie de propina para fazer a publicidade chegar aos moradores”, revela Piqueira, que soube de uma pizzaria que faz agrados aos porteiros para que eles joguem fora os panfletos de pizzarias ou deliveries rivais.

Para garantir que os panfletos de Valfrido? chegassem aos destinatários e monitorar as reações dos mesmos, o autor se envolveu na distribuição dos panfletos, assim como os editores da Lote 42.

Além dos bastidores, Piqueira, no livro, conta sua trajetória no design gráfico e no mercado editorial, lembrando projetos polêmicos, como o livro Marlon Brando – Vida e Obra, de 2008, com foto de James Dean na capa e que conta a história de um personagem fictício.

O erro provocou a fúria de leitores e de colegas do meio literário, que não perceberam a provocação.

“Ao final, o que provoco é a nossa visão viciada das coisas”, diz o autor, que é fundador do premiado estúdio de design Casa Rex. Valfrido? pode ser adquirido no site www.bancatatui.com.br.

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