Helena Ignez e Djin Sganzerla em clássico de Tchekhov

Dirigida por André Guerreiro Lopes, peça une mãe e filha e usa projeções de vídeo e equipamento que capta atividade cerebral

13/10/2017 - 10:42 - Atualizado em 13/10/2017 - 10:58

Helena Ignez, Michele Matalon e Djin Sganzerla fazem as irmãs (Foto: Divulgação)

Diante das tensões sociais, sobretudo aquelas que precedem golpes e revoluções, há artistas que catalisam esses momentos e os transformam em obras atemporais. Foi assim com o dramaturgo Anton Pavlovitch Tchekhov e sua peça "As Três Irmãs", que estreou em 1901 e se tornou um símbolo do tédio em que estava mergulhada a classe privilegiada russa antes da Revolução de 1917.

Em paralelo com aquela época, a montagem "Tchekhov é um Cogumelo", adaptação de André Guerreiro Lopes de "As Três Irmãs, catalisa a tensão social sentida no Brasil, atualizando a obra do autor russo. 

O diretor explica: “Tchekhov ecoa o nosso momento histórico, em que as pessoas se sentem presas num círculo de angústia e ansiedade em relação ao futuro, enquanto todo o entorno está se transformando”. 

A adaptação estreou em agosto, em São Paulo, e depois de sete semanas em cartaz no Sesc Consolação, chega a Santos para duas apresentações no Teatro do Sesc: nesta sexta (13), às 21 horas, e sábado (14), às 20 horas. A classificação é de 14 anos. 

"Tchekhov é um Cogumelo" marca os dez anos da Cia Estúdio Lusco Fusco, da Capital, por Lopes e sua mulher e parceira artística Djin Sganzerla.

Na adaptação, Djin atua ao lado da mãe, a eterna musa do Cinema Novo e do Cinema Marginal, Helena Ignez, e da atriz Michele Matalon. De diferentes gerações, elas fazem as irmãs Irina, Olga e Macha respectivamente. 

No original de Tchekhov, as três vivem há muitos anos na província. Olga, solteira, vê os anos passarem, assim como a oportunidade de casar; Macha, mulher de um ex-professor, aos poucos percebe a mediocridade do marido; e a caçula Irina é a única que acredita no futuro. As irmãs anseiam voltar a Moscou, onde passaram uma infância feliz antes de se mudarem para o interior acompanhando o pai militar. 

“Fazemos uma síntese das personagens e de tudo o que elas vivem, que representa nosso momento atual. Assim como elas, não sabemos o que o futuro nos reserva, mas sentimos que algo novo está por surgir, que uma nova geração poderá ter renovação e esperança”, compara Djin.

Eletrodos

Em cena, diretor usa equipamento que capta
suas atividades cerebrais (Foto: Divulgação)

A adaptação usa apenas trechos do texto original. “São como 'haikais' (poemas japoneses). A matéria-prima dessa montagem não é o texto, mas o tempo e a memória”, explica o diretor.

O nome do espetáculo, "Tchekhov é um Cogumelo" foi tirado de uma frase dita pelo encenador Zé Celso Martinês Corrêa, do Teatro Oficina, de São Paulo, numa entrevista a Lopes, que foi gravada em vídeo em 1995. 

Na época, quando ainda era estudante de teatro, Lopes entrevistou Zé Celso sobre a montagem antológica de "As Três Irmãs", em 1972. 

“Esse projeto nasceu das fitas em VHS que continham uma entrevista de 50 minutos com o Zé Celso, num ato de extrema generosidade atendeu a mim e a mais três colegas de curso no Parque do Ibirapuera”, lembra. 

A adaptação do Oficina foi um processo de criação original, que fez uso de alucinógenos no processo de montagem, a fim de abrir a percepção para o universo da obra.

"Tchekhov é um Cogumelo" não foi tão ousado, mas usa projeções da videoentrevista com Zé Celso e de um tipo de interação até então inédita no teatro brasileiro: o diretor Lopes permanece o tempo todo em cena e em estado meditativo, usando um capacete de eletrodos que captam sua atividade cerebral e a transforma em impulsos elétricos.

Como parte de uma instalação sonora e visual criada pelo músico Gregory Slivar, ele tem as ondas mentais captadas em vídeo e transformadas em frequências que vibram desde poças d’água a sinos.

“É um teatro sensorial, que tem de ser visto com a mente aberta”, avisa Djin, que destaca ainda a participação ao vivo do cantor Roberto Moura, interpretando canções do Leste Europeu.

Serviço: Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida, Santos. Informações pelo tel.: 3278-9800. Ingressos a R$ 20,00, R$ 10,00 e R$ 6,00 (credencial plena).

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