Heitor Dhalia fala sobre seu primeiro documentário 'On Yoga'

Baseado em livro de Michael O'Neill, cineasta pernambucano percorreu a Índia em busca de iogues

14/12/2017 - 12:05 - Atualizado em 14/12/2017 - 12:27


“Aprendi que precisamos diminuir nossa lista de desejos para sermos felizes”, declara o cineasta pernambucano Heitor Dhalia, ao comentar a experiência de gravar seu primeiro documentário, "On Yoga: Arquitetura da Paz", que estreou há uma semana, no Brasil, e ficou apenas uma semana em cartaz em Santos. O diretor avisa que, em breve, estará disponível nas plataformas de 'streaming'.

Baseado no elogiado livro homônimo do fotógrafo norte-americano Michael O’Neill, o longa se passa na Índia e Estados Unidos. Mostra a ioga como uma maneira de se conectar com o mundo e consigo mesmo, com base em depoimentos de iogues, pensadores e médicos indianos e americanos sobre questões contemporâneas, vida e espiritualidade. 

Heitor Dhalia também se tornou um praticante de
ioga (Foto: divulgação)

Dhalia é conhecido por longas cheios de drama e tensão, como "Nina" (2004), "O Cheiro do Ralo" (2006), "À Deriva" (2009) e "Serra Pelada" (2013). De formação cética, filho de pais comunistas, ele foi para a Índia sem saber nada sobre ioga nem nunca tê-la praticado. 

Produção da Paranoid, Urso Filmes e Michael O’Neill Studio, o filme foi rodado no começo de 2016, quando cineasta e fotógrafo percorreram vários lugares e festivais de ioga na Índia, por um mês. Depois, foram para Nova Iorque, onde gravaram por mais 15 dias. 

Dhalia conta que saiu transformado dessa rápida imersão, mas sem romantizar. “Não mudei minha perspectiva de vida radicalmente, mas tive contato com valores e princípios que mudaram minha compreensão do tempo, do que é real ou não, do que eu quero de verdade e do que não passa de armadilha do ego”, resumiu ele, em entrevista para A Tribuna.

Outra percepção que o diretor desenvolveu durante a produção se refere ao sentido de felicidade: “Nossa insatisfação é resultado de uma lista interminável de desejos. Aprendi que precisamos reduzir essa lista para sermos felizes”, diz. 

Superação

Publicado em 2015, pela Taschen, o livro de O’Neill é resultado de um trabalho de dez anos de jornada. Um dos fotógrafos mais respeitados do mundo, ele trabalhou para publicações como Fortune, Vanity Fair, The New York Times Magazine, Life, Rolling Stone, Time e Newsweek, fotografando grandes artistas e celebridades. 

Depois de 35 anos carregando a câmera, torcendo o pescoço e comprometendo sua postura, O’Neill precisou passar por uma cirurgia na coluna vertebral. O procedimento causou paralisia no seu braço direito. 

Desacreditado pelos médicos, o fotógrafo buscou um caminho alternativo e foi estudar meditação, usar hidroterapia para recuperar o movimento e a ioga para equilibrar o sistema nervoso. Após um ano, ele foi capaz de mover o braço novamente. Foi assim que a ioga e a meditação tornaram-se indispensáveis em sua vida e ele resolveu fazer o livro. O filme conta essa história. 

Uma das belas cenas que têm no filme, que foi rodado na Índia e Estados Unidos (Foto: divulgação)

Dhalia explica que o documentário mantém um diálogo com o livro de O’Neill, mas possui outros conceitos estéticos: “Segui uma linha mais metafísica. É um filme todo sensorial. Quis passar a sensação de um mantra, de algo hipnótico, para comunicar algo que vai além de nós, algo transcendente”. O tema musical é inspirado no Gayatri, mantra da iluminação e um dos mais importantes entre os indianos. 

Esse ritmo muda quando as cenas e entrevistas se passam em Nova Iorque, quando a mensagem é passada de maneira mais intelectual, por pensadores, escritores e teóricos que debatem a ioga por um viés mais filosófico. 

Praia em Alagoas

Radicado em São Paulo, Dhalia, em 2015, passou férias numa praia paradisíaca, chamada Ponta de Pedra, em Alagoas. Ali, conheceu O’Neill, que estava dando uma pausa na edição do livro sobre ioga. Alguns meses depois, eles se reencontraram na mesma praia, com o livro publicado. 

Sadhus (iogues que se retiram para a natureza) numa gruta (Foto: divulgação)

“Fiquei louco com as figuras dos 'sadhus' (iogues andarilhos da Índia), com sua constituição física e moral”, lembra Dhalia, que então recebeu convite do produtor Alcir Lacerda Filho, da Urso Filmes, para dirigir o documentário sobre o tema, com base na história e no livro de O’Neill.

No mesmo dia da estreia no Brasil, "On Yoga: Arquitetura da Paz" foi exibido no principal festival de fotografia cinematográfica do mundo, o Camerimage, na Polônia. O filme foi o único projeto brasileiro selecionado para o evento. 

Dhalia já tem mais dois filmes prontos, que devem estrear em 2018: o romance policial "Tungstênio", baseado na premiada história em quadrinhos de Marcelo Quintanillha e rodado na Cidade Baixa, em Salvador; e "O Diretor", uma história de assédio por parte de um diretor de teatro contra uma jovem atriz.

Veja Mais