Há dois anos Santos perdia o compositor Gilberto Mendes

O santista deixou obras musicais, romances inéditos e muita saudade

02/01/2018 - 10:56 - Atualizado em 02/01/2018 - 10:57

Há exatos dois anos, enquanto o mundo se recuperava da ressaca da virada de 2015 para 2016, a música perdia um dos seus compositores mais libertários: o santista Gilberto Mendes, criador do Festival Música Nova, que morreu aos 93 anos. 

Apaixonado por cinema, dança e literatura, ele bebia em várias fontes para compor sua música. Deixou uma composição e um romance inéditos. A composição se chama Saudade, feita a partir de um poema do escritor e amigo Flávio Viegas Amoreira, que foi o primeiro leitor e revisor do novo romance de Gilberto, que se chamará Adeus, Meus Camaradas. É uma biografia romanceada, sobre a militância do artista no Partido Comunista nos anos 40 e 50. Sairá pela Realejo. Amoreira também prepara um perfil biográfico do amigo, que já tem nome: Memórias de uma Amizade Erudita.

No dia 10 de dezembro, Gilberto foi homenageado na Sala São Paulo, na Capital, num concerto da Orquestra Sinfônica da USP (Osusp) e do Coral da USP, que executaram a obra Alegres Trópicos, um Baile na Mata Atlântica, de 2006. 

Nesses dois anos da morte, Amoreira ainda lamenta a perda de quem, “durante 50 anos, foi o maior artista brasileiro residente em Santos, farol catalisador de nossa cultura”.

Gilberto também faz falta ao amigo e compositor Márcio Barreto: 

“No dia seguinte da sua despedida, sonhei que estava numa sala de aula e, ao passar pelos alunos, encontrei-o abaixado atrás de uma cadeira, brincando de se esconder. Abracei-o, chorando de alegria e dizendo ‘Gilberto, você não morreu! Você é indestrutível!’. Acredito muito neste sonho. Os anjos não morrem”.

Já a bailarina Tatiana Justel se emociona ao lembrar o amigo: 

“Ele era a história viva, referência de arte pura. Que tocou e é reconhecido no mundo todo e tinha orgulho de ser de Santos. Quando fazemos saraus, todos lembramos dele, com muitas saudades”. 

Santista Gilberto Mendes, criador do Festival Música Nova, faleceu aos 93 anos (Foto: Divulgação)

O músico e discípulo Tarso Ramos fez uma carta em homenagem ao mestre. Leia abaixo. 

Artigo

Tarso Ramos

Maestro, como você sabe, pois já discutimos muito a minha música juntos, tem sido bastante comum na minha atividade como compositor enviar partituras a outros compositores para ouvir suas análises, críticas, considerações e sugestões sobre minhas obras.

O retorno, na maioria das vezes, é respeitoso e muito proveitoso. Procuro ouvir as críticas e modificar o que não está bom. Já houve caso em que a partitura voltou cinco vezes! E, nas cinco vezes, fiz as alterações necessárias para a melhoria da obra. 

Porém, maestro, às vezes o retorno é um tanto quanto ácido. Na última vez que fiz isto, foi para um compositor estrangeiro que não me conhecia e sugeri, de maneira “ambiciosa” (utilizando suas próprias palavras) uma análise sobre a minha obra para uma possível tese de doutorado no futuro. Ele se disse perplexo por serem músicas tão diferentes umas das outras, e apontou erros infindáveis de contraponto, registros “pouco usuais” das cordas e equívocos em alguns conceitos, não enxergando nada de relevante ali que pudesse ser analisado, afirmando que é perceptível minha falta de formação como compositor (sou, em grande parte, como você, autodidata) e que não tenho uma identidade musical, o que, segundo ele, todos os grandes compositores da história da música tiveram – mas, diga-se de passagem, quando fez esta afirmação, só citou compositores europeus – e que em nível de doutorado eu já deveria dominar técnicas que ele não vê em minha música.

A troca de e-mails prosseguiu. Respeito ao máximo a opinião de outros compositores, tanto que lhes envio obras para receber suas considerações. E jamais respondo de forma ríspida. No entanto, dessa vez, fiquei abalado. Já havia recebido críticas, mas nunca com tantas afirmações negativas e desqualificando meu trabalho. Admito seu pleno direito de fazê-lo, pois fui eu mesmo quem pediu sua opinião. E considero que, de um ponto de vista, ele tem razão. Mas meu ego foi abalado e pela primeira vez respondi. Parti para o ataque! Em alguns momentos, confesso, com desrespeito. Me arrependi. Mas o momento era de legítima defesa. E sua resposta veio com críticas ainda mais fundamentadas à minha obra! Um golpe seguido de outro... Agonizando ensanguentado no chão como Sean Connery na clássica cena de Os Intocáveis, ouvindo silenciosamente em meu cérebro a Marcha Fúnebre de Sigfrido, de Richard Wagner, ainda reuni forças para me arrastar até o computador e dar meu derradeiro suspiro... 

“Prezado professor,

O que creio estar ocorrendo é que o senhor tenta enquadrar as obras em um período, ou em uma corrente estilística, ou ao menos ver ali uma lógica. É aí que vejo o equívoco. Por que não a liberdade total? O erro é uma tentativa frustrada... No meu caso não há tentativa de nada, há liberdade... Existe um conceito fundamental na física quântica: ‘infinitas possibilidades’. Reduzir a análise musical a ‘análise musical’ é tentar enquadrar a obra, colocá-la dentro da caixinha. Minha música não pretende ser ‘música’.

Sem a mínima pretensão de comparação, apenas para citar, Stravinsky , quando apresentou sua Sagração da Primavera, foi massacrado por todos, críticos e público. Isto ocorreu também com Villa-Lobos no Brasil. Hoje, a academia surrupiou os dois para si e quem faz diferente deles – e de todos os outros catalogados como pássaros - faz "errado".

Por que não colocar um acorde aqui... outro ali... uma passagem de tons inteiros acolá... uma série dodecafônica mais adiante... todas as possibilidades... Por que não? As regras musicais, assim como todas as regras da linguística, são invenções, arbitrárias. Um analista pode não gostar, porém, não pode dizer que há erros. Porque o erro é apenas o ‘não está como eu acho que deveria estar, ou ao menos não está como outros já fizeram’.

Minha falta de formação acadêmica considero, hoje, uma bênção. Pois faz com que eu experimente. Sempre! Não vou ficar repetindo os outros. E, quando achamos nossa voz interior, passamos imediatamente a repeti-la... caímos no ‘lugar comum’... na zona de conforto. Não desejo isto para mim.

Torcendo por um amigável entendimento e citando Gilberto Mendes: ‘Jamais morreria por uma estética. Quero estar vivo para ir à praia...’”

Abraço fraterno, Tarso

Ah, maestro... quanto falta você faz! Com sua plena liberdade... Irreverência... Tantas qualidades que o século 21 vai precisar... Você que afirmava ser “três compositores em um”. Que tantas vezes ironizou a nossa área: “Sou um bancário que compõe nas horas vagas”. Você que me dizia que “hoje não há o jeito certo de se fazer música, há uma pluralidade de estilos, é um desafio que a sua geração terá que enfrentar”. Você não podia ter ido embora há dois anos, mas deveria ter chegado ao mundo há dois anos! Suas palavras para mim sempre foram, desde o primeiro encontro, “acrescente (ou não) meus ensinamentos, mas nunca deixe de fazer a sua música”. 

Sobre a forma eu o perguntei certa vez:

– É importante, maestro?

Ao que me respondeu:

– Forma A-B-C..., é isso? 

Não, isso não.

– Razão ou intuição, maestro?

– Ah... intuição...

E cantarolou dançando pela sala... “você coloca um acorde aqui... uma coisa que você ouviu de outro ali... algo que descobriu e achou interessante mais adiante... e vai construindo...” E quando lhe pediram uma tese de doutorado para lhe efetivarem como professor universitário, você me contou que respondeu: “Escrevo um livro com minhas memórias, mas não analiso minha obra”. Quando foi convidado para a Academia Brasileira de Música? “Mas eu não sou acadêmico”, exclamou surpreso.

E você me contando sobre seu encontro com o Tom Jobim! “Bati à sua porta e ele mesmo abriu, o próprio Tom Jobim! Com a maior simplicidade. Sem cerimônia alguma. Falei para ele que era um compositor santista e ele – o Tom Jobim!–- me tratou com o maior respeito. Eu, que não era ninguém.” Imagine...

Lembra-se do que me disse quando lhe mostrei uma música que pretendia estreá-la no Festival Música Nova 2013?: 

“Interessante, mas ainda é música”. E eu escrevi outra, dois meses depois. E então liguei para você eufórico: “Maestro, acho que consegui!” E você me pediu para ir imediatamente à sua casa. Peguei o fusca azul pavão 1971, do meu pai, corri para a Rua Arthur Assis, 10, no Boqueirão. Entrei no elevador nervoso. Fui recebido no apartamento 93 por você mesmo, já com a porta aberta me aguardando ansioso. E toquei minha primeira não-música em seu piano Brasil antigo, com as teclas amareladas, de cor, não deu tempo de escrever partitura alguma. E ao final ouvi: “Bravo, você está formado!”. Chorei, choramos... Chamou sua querida esposa Eliane e me pediu para que tocasse novamente. Eliane então me parabenizou e tirou uma foto nossa daquele momento sublime. Momento em que eu me tornara o maior compositor da história da música! – mas da música mundial, diga-se de passagem. No dia seguinte, caminhava pela Epitácio Pessoa, esquina com a Alexandre Martins, observando os meros mortais, e meu celular tocou.Era você: “Tarso, já está inscrito no festival!”. 

Hoje, maestro, sempre que me deparo com uma folha pautada em branco, aguardando a primeira nota, fico atento! Tomo todos os cuidados necessários para que, o que eu vir a escrever seja interessante, mas não seja música. 

Gratidão, maestro Gilberto Mendes!

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