Guillermo del Toro destaca a importância de Carmen Miranda

Em 'A Forma da Água', o diretor faz reverência à cantora portuguesa radicada no Brasil

01/02/2018 - 12:09 - Atualizado em 01/02/2018 - 12:23

Toro ressalta que o filme fala da importância do amor, não importa a forma (Foto: divulgação)

Favorito na corrida pelo prêmio de melhor diretor na 90ª edição do Oscar, que acontece no dia 4 de março, em Los Angeles, o diretor mexicano Guillermo del Toro falou com a imprensa especializada, nos Estados Unidos, sobre o filme "A Forma da Água" e todos os elementos e referências usados na produção. O amor, segundo ele, é o tema central da história, que pode lhe garantir a primeira estatueta na carreira.

Por que essa criatura foi a mais difícil para você criar?

Bem, eu levei seis anos para fazer o filme e três anos para criar a criatura. Levou dois anos para desenhá-lo e mais um para executar o trabalho, porque ele não é uma criatura, mas um ser vivo, um homem, um ator, então você tem que esculpir, pintar, usar um modelo, iluminar. E tivemos que voltar a desenhar a figura algumas vezes, até que ele ficasse perfeito, bonito. Para isso, precisávamos que houvesse mesmo um verdadeiro Deus Rio. E levamos um tempo muito longo para desenvolver isso.

Ele surgiu do Rio Amazonas?

Sim, ele é da Amazônia. Há um círculo completo e lhe conto o motivo. Este filme nasceu em mim quando eu tinha 6 anos e assisti ao filme "O Monstro da Lagoa Negra" ("Creature from the Black Lagoon"), que foi feito por causa do grande fotógrafo mexicano Gabriel Figueroa, que me contou a história de um pescador do Rio Amazonas. Um produtor ouviu a história e foi assim que fez o filme. Agora é um mexicano que está refazendo a história de um deus do Rio Amazonas.

Como a história evoluiu e foi desenvolvida?

O filme "O Monstro da Lagoa Negra" traz Julia Adams nadando num rio, enquanto abaixo dela há uma criatura que a acompanha, uma imagem muito bonita. Fiquei quase tonto com a cena, fiquei abalado e pensando que os dois personagens poderiam ser igualados. Poderiam ficar juntos. Apesar de que no filme original, de 1954, isso não acontecia. E não me conformei que a criatura tenha sido morta. Achei que era uma invasão e a criatura, uma vítima. Com o tempo, fui achando essas criaturas mais como símbolo de algo espiritual, de união e algo sagrado e perfeito. Foi isso que eu coloquei nos meus filmes. Porque vocês sabem que eu não faço horror, faço um outro gênero estranho, que é uma invenção minha. Pego imagens de outros gêneros que articulo como contos de fadas ou fábulas. É uma coisa bem diferente.

Qual foi sua proposta ao desenvolver a história?

Tudo que você faz num filme, sempre há um fundo político. Principalmente quando a história é narrada pelo ponto de vista do homem, da figura masculina do herói. Que geralmente tem um revólver e captura a criatura e quando conquista a garota há a imagem de horror e alguém irá salvá-la do pseudo monstro. Esses são os filmes de cientistas e agentes secretos que batem na nossa porta. Eu preferi entrar pela porta de serviço e contar a história pelo ponto de vista de duas faxineiras que limpam toaletes, esvaziam latas e têm uma empatia pela criatura. E quando ela pega a garota em seus braços, é uma bela imagem. E só consegui um jeito de contar essa história quando tive a ideia de usar a porta de serviço dessa maneira. Conseguimos contar nossa história complexa de uma maneira fluida.

Você quis passar alguma mensagem com o filme?

O mundo em que vivemos agora está completamente comandado pelo medo; junto com ele vem o ódio. A única coisa que pode nos reduzir e nos divide é a ideologia. Quando você destrói uma pessoa inteira com apenas uma palavra: raça, gênero, preferência sexual, política, o que quer que seja. Se você destilar uma pessoa com uma única palavra, torna essa pessoa invisível, e permite tratar mal, isolá-la, deportá-la ou fazer qualquer coisa que você quiser, porque não vê essas pessoas como humanas, que são multidimensionais. A proposta do filme é essa criatura, que não é um animal, nem uma nova espécie, é um Deus “elementar” que veio de um rio e nos faz lembrar de nossa própria essência. A maneira pela qual eles se apaixonam é bela e natural; se apaixonam porque não há elemento perverso ou pruriente nesse amor. O filme diz sempre a mesma coisa que Buda, Jesus e os Beatles concordavam: tudo que precisamos é amor.

Então este é um filme sobre o amor?

Não apenas o amor romântico, mas o que é bonito no filme é que o amor está na amizade, num velho casamento, novo amor, amor entre parentes, amor por um ser humano ou alguém que não é um ser comum ou mero ser humano. É quase como um remédio, um antídoto ao sarcasmo, ao medo, ao ódio que nos divide e nos conta como ter medo do outro, que o outro é inimigo, e que não há isso a que chamam de outro. Só apenas nós outros.

Como é que seria o relacionamento entre Elisa e o Monstro?

Seu relacionamento é de um reconhecimento comum. Você percebe que o personagem de Sally Hawkin, Elisa, reconhece uma essência dela mesma na criatura. E a criatura reconhece que Elisa é diferente de qualquer outro ser humano, que confrontou. Isso faz criar um laço, porque ambos são párias, não falam, são exilados de sua origem quando se encontram.

Como escolheu o clipe musical de Carmen Miranda?

Carmen Miranda foi um enorme ícone, que definiu toda uma era. Havia uma fascinação na cultura pop daquela época, que era toda latina, fosse Cuba, afro-cubano, brasileiro, mexicano. Houve um enorme influxo de músicas e cantores. Eu queria mostrar Giles (interpretado por Richard Jenkins), obcecado com os filmes do passado, não do presente. Ele não se interessa pelos noticiários, mas por Shirley Temple e Carmen Miranda. É isso que ele assiste e muitas dessas canções vêm de filmes. Quando ouvi "Chica Chica Boom Chic", de Carmen, achei perfeita para aquela cena que preparava para a montagem do assalto.

Toda a trilha musical também tem um papel importante no filme.

A música foi extremamente importante, em parte porque num sentido ela é a voz do filme. Então eu precisava de que fosse fluida e bela como a água. Por outro lado, em geral, seria mostrada pela voz do personagem de Sally. Mas como ela não tem voz, o jeito de a entendermos e suas emoções é através da música. 

Importante na história, qual o sentido que a água tem para você?

Há quase dois minutos da água, no filme, ativada. Desde a cena de abertura, quando ela está sonhando com a água nas ruas molhadas, na chuva, e também chuva nas janelas, lágrimas de suor, gente bebendo água, tem sempre água de alguma forma. E eu usei isso simbolicamente no filme. Para mim água é amor. A forma da água é a forma do amor, ela não tem formato e se transforma em qualquer coisa que seja necessária. Quebra as barreiras. É gentil e maleável.

Fonte: Paoula Abou-Jaoude De Los Angeles, especial para A Tribuna
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