Gabriella, uma santista em Amaluna, do Cirque du Soleil

Atriz é uma das estrelas do espetáculo e conta como chegou ao circo canadense

23/10/2017 - 16:18 - Atualizado em 23/10/2017 - 18:09

Gabriella é o fio condutor
 (Foto: Rogério Soares) 

Entre saltos, piruetas, gente pequena e de corpos quase perfeitos surge Gabriella Argento, desfilando um vestido de listras pretas e vermelhas, que destoa daquele ambiente quase monocromático que é o backstage de Amaluna, espetáculo do Cirque du Soleil, que está em cartaz em São Paulo. 

Com cabelos que se mesclam nos mesmos tons, a santista de 42 anos é uma das 46 artistas que se apresentam de terça a domingo na tenda montada no Parque Villa-Lobos. De brasileiros no palco, só ela e o mineiro Gabriel Christo.

Mas, cabe a Gabriella ser o fio condutor do espetáculo. Ela é Maïnha, uma palhaça que ajuda o público a entender a história romântica de Miranda e Romeo.

Para entender melhor os caminhos que levaram Gabriella a rodar o mundo com o Cirque du Soleil, estivemos nos bastidores da superprodução, acompanhando alguns ensaios e conversando com ela que, aos 18 anos saiu de Santos para estudar teatro em São Paulo e nunca mais voltou.

Vocação para palhaça

o curso profissionalizante que fazia no Célia Helena Centro de Artes e Educação, na Capital, foi descoberta pela treinadora de palhaços Betty Dorgan. “Ela viu alguma coisa em mim. Quando o Cirque du Soleil veio ao Brasil pela primeira vez, para uma audição ao vivo, ela me obrigou a ir ao teste”.

Na época, Gabriella tinha 22 anos e foi a única atriz aprovada, concorrendo com todos os palhaços que mais admirava na vida. E assim foi parar em Las Vegas, nos Estados Unidos, onde de 2004 a 2007 estrelou o espetáculo KÁ.

Personagem da atriz conduz a
trama (Foto Rogério Soares)

Passados quatro anos, o contrato terminou e ela retornou ao Brasil, onde continuou sua carreira junto a grupos como Doutores da Alegria e Jogando no Quintal.

De volta ao Cirque

Em 2012, foi chamada para participar de Vareki, outra produção da empresa canadense que estava excursionando pela América do Sul. Em 2014, Gabriella recebeu o convite para nova audição. Desta vez, para Amaluna.“São oito anos na companhia. Não é fácil, especialmente para mim, que sou uma pessoa extremamente comprometida com o trabalho”, revela.

Família de vida

Vida pessoal, nesse turbilhão de ensaios e treinamentos, acaba ficando em segundo plano. “É muito puxado. Os espetáculos são de terça a domingo. Ou seja, dez shows por semana, o que requer muita dedicação. Na verdade, eu passo o dia inteiro aqui. Então, não há tempo para vida pessoal”.

Amaluna conta com uma equipe de 120 pessoas de 24 nacionalidades (nove são brasileiros). Já os 46 artistas que sobem ao palco vêm de 16 países. Todos ficam em hotéis e estão sempre juntos, até porque os ensaios são diários e escalonados.

Exatamente por isso, o conceito de família muda muito. Gabriella, por exemplo, está há quatro anos viajando e longe de casa. Ver o pai, que mora em São Vicente, ou a mãe, que vive no Interior de São Paulo, não é fácil.

Todos são experts e o Cirque cuida muito bem dos funcionários (Foto: Rogério Soares).



“Nós somos nossa própria família, porque estamos todos nas mesmas circunstâncias. Fora do nosso país de origem. O nível de adaptação exigido é muito alto. De dois em dois meses você muda de língua, de moeda, de leis, de cama, de tudo. Então, esse senso de família é muito importante pra gente conseguir viajar e se apoiar”.

 

Sobre a empresa Cirque du Soleil, Gabriella é taxativa ao elogiar a excelência e o profissionalismo. “Todo mundo aqui é expert no que faz. Além disso, cuidam muito bem de seus funcionários”.

Sem planos

A turnê de Amaluna tem previsão de rodar pelo mundo até o fim de 2019, já que geralmente os espetáculos são montados para durar, no mínimo, uma década. Apesar disso, Gabriella não faz muitos planos para o futuro. “Eu vivo o momento”

E é assim, de momento em momento, que ela vai escrevendo a sua história, idealizada quando era tão pequena que só mesmo os familiares são capazes de lembrar. 

“Eles dizem que quando eu tinha 6 anos, numa festa de final de ano na escola, estavam perguntando para os alunos o que eles queriam ser quando crescessem. As respostas eram aquelas padrões: bombeiro, lixeiro... Quando chegou minha vez, respondi de pronto que queria ser atriz. Mas atriz de teatro, não de televisão. Sinceramente, não sei de onde veio essa urgência. A única coisa que tenho certeza é que a arte não tem de ser escolha. Tem de ser urgência”.

É preciso coragem

Aos 25 anos de carreira, Gabriella Argento declara não saber se definir sem a sua arte. Porém, não glamuriza a profissão.“Fazer arte no Brasil não é fácil, não é simples, não é gostoso no começo. Eu dormi em muito chão, comi muito dogão na rua e passei muito perrengue para pagar aluguel. Mas eu acho que a questão é considerar o que é seu superobjetivo na vida. É a alma que pede”.

A equipe possui 120 pessoas de 24 nacionalidades, nove são brasileiros (Foto: Rogério Soares)



Para quem sonha, como um dia ela sonhou, conquistar o mundo como artista, a dica é não duvidar de si mesmo. “Não importa onde você vive. Importa ter coragem para seguir. Como santista, às vezes a gente está tão perto de São Paulo que é quase uma armadilha sair da cidade e subir a serra. Mas é possível fazer arte em Santos e ir dali para o mundo. Acreditem”.

 

Serviço: Parque Villa-Lobos, na Av. Professor Fonseca Rodrigues, 2.001, Alto de Pinheiros, São Paulo

Quando: até 17 de dezembro, com sessões em vários horários

Ingressos: www.tudus.com.br. Preços: de R$ 250,00 (inteira setor 3) a R$ 450,00 (inteira setor premium). Estacionamento: R$ 50,00.

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